Algumas impressões sobre O livro das noites

Tal como fiz com Memórias do cárcere, resolvi transcrever aqui algumas impressões que me causou O livro das noites sem me preocupar em analisar o livro de maneira rigorosa. Bem dizendo, apenas soprarei a camada de poeira que o encobre para melhor perceber o que está escrito nele.

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A autora: Sylvie Germain

Duas figuras impressionam nessa obra: o tempo e a maneira pela qual ele determina os acontecimentos no mundo.

Comecemos ponderando sobre o tempo. O livro das noites narra a saga de uma família: são as sucessivas gerações dos Peniel, nascidos para atravessar as noites mais densas e sofrer e sofrer. A narrativa não começa com o primeiro Peniel e nem termina com o último, sendo que pouco é nos dito a propósito dos antepassados e dos sucessores da família. Somente o presente infeliz faz com que imaginemos que vida eles levariam, e à medida em que ele é desvelado notamos que essas vidas não são muito diferentes umas das outras, e que em qualquer momento da saga teríamos mais ou menos a mesma narrativa. De certa maneira, passado, presente e o futuro são um único tempo: uma sucessão de sofrimentos e padecimentos no mundo.

Ao ser repetição ou hereditariedade de uma geração com relação a outra, o tempo faz com que a causa das ações dos personagens não esteja neles mesmos, mas num passado que os determina de longe transmitindo a eles o fardo dos falecidos. O tempo arrasta os Peniel consigo com a mesma inevitabilidade das voltas de um relógio e, graças a isso, nenhum deles tem propriamente uma individualidade; todos são manifestações de um movimento maior que os precede na ordem da existência. Aquilo que pulsa dentro de cada um pulsa antes dentro do próprio mundo do qual são parte, sendo que os personagens agem (ou melhor, são levados a agir) como se não tivessem escolha em serem o que são e em escolherem o que escolhem. Isso torna bastante significativo que a primeira cena da obra apresente um parto ocorrido num ventre descrito como um túmulo, o que sugere que o nascimento está desde o princípio sob o augúrio da morte ao ser herança dos inúmeros miseráveis que vieram ao mundo sofrer. Cada novo Peniel se insere na roda do tempo e resiste pateticamente contra ela buscando feri-la e lhe sobreviver, cada nova vida é uma lança buscando perfurar o tempo até ser quebrada por ele, pois agonizar e decair é aquilo que há de mais natural neste mundo. Nada é mais corriqueiro que a melodia de uma metralhadora soando em plena guerra, o gozo do lobo que devora a criança e o gesto insano do pai que mutila o filho.

Pode até existir culpa entre as pessoas, porém não existe esperança ou arrependimento na alma de ninguém, posto que nenhuma possibilidade pode se contrapor à ordem inevitável das coisas, aos ponteiros do relógio girando sobre a cabeça de todo o mundo.

o-livro-das-noites-sylvie-germain-13709-MLB227935882_2208-FPor sinal, mesmo os elementos fantásticos da obra não são propriamente sobrenaturais porque não rasgam o tecido do real para fazer surgir outra possibilidade, outra realidade diante dele. A bem dizer, eles são uma espécie de superabundância do real, que sangra pelos próprios poros suas absurdidades até materializar a própria loucura, até tornar o desvario a tecitura da existência.

Por isso, O livro das noites não se presta à racionalizações simples.

A obra não pode ser explicada por elementos que estejam fora do próprio texto. O cuidado obsessivo que a autora teve com linguagem impede o leitor de dizer que ele “representa” alguma coisa situada fora do livro através de imagens poéticas, uma vez que essa linguagem não descreve uma realidade estando descolada dela, mas sendo ensejada por ela, em outras palavras, aquilo que é dito do livro faz parte da realidade apresentada nele. Inclusive, isso faz com que a ler uma tradução, como eu fiz, ganhe um tom de sacrilégio, de paganismo ignorante que precisa aproximar demais o outro de si mesmo para poder entendê-lo.

Trata-se de um livro de rara beleza e melancolia que tem passado desapercebido pelos leitores brasileiros. Esperemos que não por muito mais tempo.

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