Resenha: Y: O último homem — Brian C. Vaughan e Pia Guerra

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A humanidade emasculada

A premissa de Y: O último homem é bastante simples: uma infecção misteriosa eliminou subitamente todos os mamíferos machos do planeta, exceto pelo ilusionista Yorick Brown e seu macaco de estimação Ampersand, sendo o destino deles e do resto do mundo aquilo que a história pretende nos apresentar.

Participando daquele conjunto de obras que situa seus acontecimentos no fim do mundo, essa HQ foge um pouco das velhas discussões acerca da sobrevivência humana em situações extremas para tocar temas atualíssimos como relações de gênero e machismo. Ao narrar a vida de personagens impossibilitados de assumir as mentalidades socialmente estabelecidas para seus sexos, conquanto dialoguem constantemente com elas e com os discursos que as legitimam, Y: O último homem nos apresenta uma trama rica e inteligentemente situada na história contemporânea, suscitando tanto questões quanto à condição social do homem e da mulher quanto à política ocidental recente e seus extremismos medonhos.

A despeito desse panorama que a envolve, a obra não se torna uma discussão teórica travestida de narrativa, mas uma história sobre pessoas, aliás, uma boa história repleta de elementos interessantes.

*

Para facilitar as coisas nesta resenha, abordarei primeiramente a situação político-social desse universo e depois passarei aos seus personagens, tecendo por fim algumas considerações sobre o desenvolvimento da história e minha opinião sobre ela.

A crise

O desaparecimento súbito dos homens traz diversas consequências para o que restou da humanidade. Por um lado, ocorrem diversas mudanças políticas significativas como a diminuição da força trabalhadora de cada país. Por outro, ocorrem também fortes mudanças sociais consequentes dessas mortes, como o surgimento de uma cultura completamente feminina que produz desde grupos que tentam explicar teologicamente os acontecimentos até turbas de femistas loucas impondo sua ideologia pela força.

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Além disso, em função do número pequeno de pessoas em cada país e do subsequente enfraquecimento de suas instituições, alguns poderes nacionais e internacionais passam a querer impor suas vontades às sobreviventes por meio da beligerância e do medo. Com isso, reviravoltas intensas estão sempre a um passo de acontecer, ainda mais quando algum poder menor e não-oficial adquirir algum trunfo poderoso, como um exército particular… Ou o último homem da terra.

Surgem assim novas formas de opressão e crueldade, de maneira que o mundo emasculado permanece perigoso e repleto de pessoas famintas, interesseiras e violentas, sempre prontas para estabelecer uma nova hierarquia de poder e violência.

Concomitantemente aos acontecimentos ruins, no entanto, as coisas vão sendo postas de pé por pessoas que ainda estão em dúvida sobre o sentido de se fazer isso. Criam-se assim novos arranjos trabalhistas que visam suprir as demandas dessa mudança brusca e alguns deles até nos são apresentados, como os empregos de recolhedoras de corpos (afinal, há cadáveres por toda parte) e de prostitutas crossdresser que querem agradar suas clientes (heterossexuais) se vestindo como homens.

Dentro desse novo mundo, não somente a política e as relações sociais são agora questionadas, dado que não há quem as mantenha e sequer se sabe se convém mantê-las, contudo também o próprio sentido da vida  de cada mulher restante. Afinal, que fazer sendo a última geração humana da terra? Como conviver com um mundo em luto? O que esperar do futuro? Eis algumas das questões que atravessam a circunstância das sobreviventes cujas vidas acompanhamos.

O papel dos personagens

Passando agora do panorama para os indivíduos, O último homem apresenta protagonistas medianamente carismáticas que vão se tornando cada vez mais interessantes conforme a história progride (inclusive o próprio Yorick). As histórias precedentes de cada uma delas, suas motivações mais secretas e desejos inconfessados, são expostas apenas lentamente, e é mais pelas ações e falas atuais que entendemos como cada uma pensa e age, de modo que antes mesmo que um traço da personalidade de alguém seja justificado por uma retrospectiva, o leitor já conhece o modo de ser dessa personagem por ter acompanhado longamente suas ações no presente.

968251A consequência dessa maneira de narrar é que a HQ se torna bastante dinâmica e instigante, sempre avançando de acordo com as ações do presente, e que mesmo as discussões mais conceituais acabem sendo resolvidas com ações e não com argumentos. As tergiversações sobre gênero e coisas semelhantes sempre surgem em função das circunstancias dos personagens em vez de aparecerem como meros problemas intelectuais, por sinal, qual seria a pertinência de uma questão teórica se ela não fizesse parte das inquietações de alguém que tem uma vida bem real e prática?

Por isso, o que vale realmente na história é mostrar os indivíduos e não responder de maneira genérica às questões que os perpassam. Mesmo as personagens mulheres jamais assumem o centro da história meramente por representar de alguma maneira a “condição feminina”, mas porque cada uma delas tem características próprias que contribuem efetivamente com o desenvolvimento dos acontecimentos. Sentimentos e objetivos particulares ainda são o que há de mais importante aqui, não sendo estranho que num mundo quase inteiramente feminino o protagonista seja justamente um homem.

O desenrolar dos fatos

Um mundo sem homens é um mundo em declínio.

Y-The-Last-Man-Other-Beth-y-the-last-man-10990373-298-507Primeiramente, existe a impossibilidade da reprodução, exceto pelos lentos e limitados métodos artificiais de que dispomos, entretanto, eles não podem assegurar que qualquer novo macho seja imune ao que erradicou os demais.

Segundamente, o número de homens a ocupar todo tipo de posto e a fazer todo tipo de coisa anteriormente à infecção era enorme, de modo que não só aviões dirigidos por eles caem no momento da infecção, não só navios param em pleno mar e estradas ficam entulhadas de carros dali por diante, como também, antes mesmo que possam entender a nova realidade, as sobreviventes percebem que especialistas de todo tipo se tornaram raros: médicos, físicos, técnicos, bombeiros, carcereiros, policiais… Todos foram reduzidos drasticamente em termos numéricos, embora a necessidade de sua existência continue enorme.

Com efeito, a questão suscitada junto com o colapso é como sobreviver a ele, sendo nesse ponto que as vidas de Yorick e das outras protagonistas tocam o panorama mundial.

Para um mundo que ignora a existência do rapaz é fácil dar essa resposta: não há como sobreviver e a humanidade  perecerá ao não ser renovada. Simples assim.

Para o próprio protagonista e para aquelas personagens que o acompanham, porém, a resposta é mais sinuosa porque ela mesma suscita questões. Que fazer com o último homem e o tempo que lhe resta? Devemos buscar a cura da praga em seu corpo? Devemos produzir novas crianças incessantemente – como bichos – esperando que algumas delas sobrevivam? Para complicar ainda mais as coisas, o próprio Yorick tem ideias românticas sobre sua vida, desejando encontrar sua noiva desaparecida para desfrutar de um saudável casamento monogâmico em vez de servir como cobaia num laboratório ou mesmo como o pai tarado das gerações futuras.

Creio que em face disso tudo o desenvolvimento da história não seja lá muito adivinhável, sendo realmente divertido acompanhar a construção dos conflitos e das soluções que lhes são dadas.

My opinion
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O último homem é uma série excelente que, numa bela manhã de dezembro, acabou me fazendo perder um dia inteiro de trabalho apenas para que eu pudesse ler os dez volumes da obra de uma única vez.

Seus desenhos são muito bonitos e tem cores maravilhosas, sendo até bonitos demais para um HQ que lida com questões de gênero, uma vez que apresentam poucos biotipos, quase todos magros e atléticos num nível bem irreal. O curioso a esse respeito é que, embora o autor da obra seja homem, quem a desenha é justamente uma mulher – machismo feminino? provocação? escolha estética? Sei lá.

Ademais, ela contém referências literárias por toda parte: o protagonista é bacharel em letras e Shakespeare paira como uma espécie de sombra por detrás do roteiro, sendo mencionado e representado em diversos momentos, desde o nome do protagonista (que vem de Hamlet). Também são feitas várias referências à cultura pop, à ilusionistas famosos, e à fatos da história recente tais como o conflito Israel-Palestina, a paranóia antiterrorista, as discussões a propósito do aborto e outras que acabam se ligando à trama direta ou indiretamente.

Quanto ao final da série, ele me fez parar durante alguns minutos apenas para poder puxar da memória uma palavra que não usava há anos e que, no entanto, descrevia perfeitamente o que eu senti naquele momento: esplêndido, repeti para mim, ler aquilo era esplêndido.

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