Análise: Descartes e a psicologia da dúvida — Olavo de Carvalho

Dedico estas reflexões ao meu amigo Marcelo Ronconi.

Este texto integra uma série que tem por objetivo analisar parágrafo por parágrafo alguns artigos de filosofia que dizem respeito aos meus interesses de pesquisa e meditação pessoal. Abordarei nele a primeira parte de Descartes e a psicologia da dúvida, texto de Olavo de Carvalho que busca apresentar e refutar alguns pressupostos da filosofia cartesiana.

Antes de passarmos à análise do artigo, entretanto, convém dizer que, dada a quantidade de equívocos que ele contém e do esforço requerido para desfazê-los, depois de apresentar os problemas da interpretação de Olavo eu não exporei ao leitor qual seria a maneira correta de interpretar Descartes, além disso, que pelos mesmos motivos eu não analisarei a segunda parte do artigo.

Para aqueles que desejarem conhecer adequadamente a questão, todavia, eu indico a leitura do primeiro capítulo livro de Enéias Forlin O papel da dúvida metafísica no processo de constituição do cogito (Humanitas, 2004).

1. O artigo inicia colocando dois problemas a respeito da filosofia de Descartes: o primeiro seria sua veracidade enquanto relato biográfico, isto é, em que medida a narrativa posta na filosofia de Descartes apresentaria uma experiência vivida pelo próprio filósofo; ao passo que o segundo seria: “a universalidade paradigmática dessa seqüência de pensamentos”, ou seja, em que medida o percurso da filosofia de Descartes repercutiria de forma semelhante em todo leitor que decidir repeti-lo.

De maneira geral, os dois problemas são abordados pelos mesmos argumentos, pois conforme coloca problemas para argumentação cartesiana o autor suscita dificuldades quanto à fidelidade biográfica do livro. A despeito disso, algumas conclusões acerca de um problema e de outro são dadas em momentos argumentativos diferentes e eu as ressaltarei conforme surgirem.

2-3. A partir do segundo parágrafo Olavo passa a abordar o percurso argumentativo de Descartes, contudo, ele não informa ao leitor em qual texto estaria se baseando (Discurso do método? Meditações de filosofia primeira? Princípios de Filosofia?), sendo que sua abordagem não parece tocar nenhum deles especificamente mas certo “Descartes em geral” retirado da memória. Veremos até que ponto isso funciona.

A princípio, ele dá como certo que podemos duvidar dos vários gêneros do conhecimento questionados pelo filósofo – as sensações, as imaginações e mesmo do mundo como um todo – ainda que hipoteticamente, todavia, ele logo se levanta contra aquilo que, segundo Descartes, resistiria a toda dúvida: a certeza de que pensar implicaria necessariamente em existir.

4. Diz Olavo que: “(…) tão minucioso em descrever os pensamentos que antecedem o estado de dúvida, Descartes é estranhamente evasivo quanto ao estado de dúvida mesmo”. Convém ressaltar duas coisas a respeito dessa passagem.

A primeira é que a expressão “estranhamente evasivo” soa como uma acusação de desonestidade contra Descartes e permite que perguntemos qual seria sua pertinência e fundamentação, sendo ela real.

A segunda é que Olavo usa a expressão “estado de dúvida” ao se referir à dúvida metódica sem nem mesmo justificar essa atribuição. A que tipo de estado ele estaria se referindo e quais elementos da filosofia de Descartes corroborariam essa interpretação? Considerando o que nos sugere o título do artigo, poderei dizer que Olavo já entende a dúvida como um “estado psicológico”? Caso entenda, não seria consequência disso a filosofia de Descartes ser uma simples narrativa pessoal sem qualquer necessidade universal? O problema da validade filosófica do percurso cartesiano não estaria resolvido desde já pela simples pressuposição da dúvida como mera articulação psicológica do indivíduo René Descartes? Eis um problema bobo prestes a arruinar todo o artigo.

5-6. Depois disso o autor passa a analisar o “estado de dúvida” supostamente apresentado por Descartes. Diz ele que, diferentemente daquilo que o filósofo pensou, o duvidar: “não é um estado — uma posição estática em que um homem possa permanecer inalteradamente, como permanece triste ou absorto, imóvel ou deitado. É uma alternância entre um sim e um não, uma impossibilidade de deter-se num dos termos da alternativa sem que o outro venha disputar-lhe a primazia”.

A ideia principal a ser demonstrada aqui seria – novamente – por que Olavo atribui à Descartes a posição de que a dúvida seria um estado que, como fica claro nessa passagem, está mesmo sendo equiparado a um estado psicológico.

Tal questão é importante na medida em que diversas consequências absurdas podem ser extraídas dessa interpretação da dúvida. Por exemplo: caso a dúvida seja mesmo um estado psicológico, então Descartes estaria pedindo ao leitor que provocasse em si mesmo um “estado de dúvida” para acompanhar sua argumentação? Por sinal, o próprio Descartes seria capaz de “ficar em dúvida” voluntariamente? Podemos nos causar estados psicológicos por uma simples escolha?

Outra possibilidade seria interpretar que Olavo esteja entendendo o percurso meditativo de Descartes como sendo biograficamente real. Nesse sentido, a dúvida metódica e toda a cadeia de argumentos consequentes dela constituiriam uma descrição fidedigna da vida de Descartes, cabendo ao leitor acompanhar e julgar as  dúvidas e descobertas desse percurso pessoal. Todavia, o filósofo estaria mesmo pedindo ao leitor que julgasse uma história verossímil, repleta de questões filosóficas próprias, porém não uma filosofia? Seria simples argumentar contra essa interpretação, mas parece absurdo interpretar Descartes assim e simplesmente insultante atribuir essa interpretação a alguém.

Sigamos em frente.

O autor expõe em seguida uma suposta estrutura ontológica da dúvida, entendida por ele como: “uma alternância entre um sim e um não, uma impossibilidade de deter-se num dos termos da alternativa sem que o outro venha disputar-lhe a primazia”. Ao não poder afirmar ou negar definitivamente uma dessas possibilidades, seria: “impossível uma dúvida que não se ponha em dúvida a si mesma, uma dúvida que, suspendendo a alternância, se imponha como “estado” e permaneça”. Eis a conclusão de Olavo: a dúvida não é um estado.

Pois bem. Ignoremos por enquanto as problematizações que fiz até aqui. Levemos adiante a tese do autor de que a dúvida seja mesmo um estado psicológico. Quais seriam as consequências de se pensar a dúvida nessa acepção titubeante para a interpretação do texto cartesiano – as Meditações, por exemplo? Bem, sendo a dúvida um vagar entre alternativas mutuamente persuasivas, segue-se disso que em cada momento do duvidar tais alternativas devem estar presentes para o leitor.

Foi isso o que Descartes apresentou em seu texto, entretanto?

Conferindo o primeiro questionamento metodicamente formulado na obra (§3), por exemplo, veremos que ele consiste em afirmar que os sentidos por vezes nos enganam e que é prudente não confiar inteiramente naquilo que já nos enganou alguma vez. A afirmação é categórica. Diante dela cumpre perguntar: quais seriam as alternativas em dúvida consideradas por Descartes nessa passagem? O filósofo titubearia incerto entre acreditar ou não nos sentidos? Entre estar sendo enganado ou não por eles? São interpretações bastante forçadas do texto, uma vez que o argumento não apresenta qualquer hesitação, não parece oscilar entre quaisquer possibilidades e nem mesmo considerar a possibilidade de estar errado, na verdade, Descartes aparenta estar seguro daquilo que põe em questão e suas dúvidas soam mais como afirmações que como impossibilidades de decisão. Deste modo, caso adotemos a interpretação da dúvida como alternância, deveremos entender que Descartes estaria escondendo “estranhamente” suas alternativas mutuamente consideradas? Que ele esqueceu de afirmar os passos da dúvida por um descuido? Que não entendeu a estrutura ontológica de seu instrumento?

Ora, em vez de esclarecer a complexidade do texto, essa acepção de dúvida o torna incoerente e cria hipóteses e mais hipóteses para explicar por que ele funciona de outro modo que não aquele pelo qual se apresenta. Tendo isso em vista, não seria mais razoável ao menos supor que o termo “duvidar” pudesse ter, para um filósofo francês de séculos atrás, uma acepção um tantinho diferente dessa acepção psicológica banal que Olavo está atribuindo a ele?

Bem, suponhamos que não. Suponhamos que o leitor prefira continuar entendendo dúvida como alternância e seguir ignorando as problematizações que fiz. Mesmo nessa hipótese, para que seja tornada sustentável a posição de Olavo seria preciso não só enunciar que Descartes entende a dúvida de certa maneira mas também demonstrar, em cada passo da dúvida na obra a ser considerada, como essa maneira de duvidar garantiria a validade dessa interpretação. Afinal, não basta enunciar uma interpretação; é preciso fundamentá-la. Sem essa construção minuciosa de sua validade (característica dos bons trabalhos de história da filosofia, aliás), a afirmação de Olavo permanecerá carente de uma confirmação no texto cartesiano, sendo afirmada sem provas e podendo também ser recusada sem provas.

7-9. Segundo Olavo, o erro de Descartes seria confundir a dúvida com a negação hipotética, o que tornaria o cogito somente uma versão do velho argumento de Sócrates de que mesmo a negação é forma de uma afirmação. Por conseguinte, o fundamento cartesiano não poderia fundar qualquer coisa que fosse.

Pobre e ingênuo Descartes, não entendeste sua própria filosofia! Eis o que o texto nos leva a concluir.

Trata-se de uma interpretação bastante original e equivocada. Ela expressa um novo erro que consiste em afirmar que a dúvida seria o fundamento do conhecimento na filosofia cartesiana, contudo, pensar assim a obra de Descartes suscita algumas consequências obviamente absurdas.

Primeiramente, se a dúvida for o fundamento do conhecimento, então por que ela não é afirmada como fundamento desde o primeiro argumento contra as antigas opiniões? Seria preciso tergiversar tanto para conhecer melhor algo que já se utilizava desde o começo?

Segundamente, caso Descartes quisesse fazer da dúvida o fundamento do conhecimento, qual seria o sentido de sua obra uma vez que há dúvidas sobre o conhecimento mesmo antes do duvidar sistemático?

Por fim, a consagrada expressão “método da dúvida” significaria o quê a partir dessa interpretação? Que Descartes usa a dúvida como método para encontrar um fundamento, entretanto faz do método o fundamento que vai buscar pelo método?

Seria possível passar uma tarde elencando os contra-sensos implicados nesse modo de entender o texto, mas o leitor tem aqui evidencias suficientes para recusá-lo.

Passemos ao próximo ponto.

Depois disso Olavo passa a investigar aquilo que seria o fundamento da própria dúvida: “não expus ainda os fundamentos que (…) possibilitam a dúvida. E este é o ponto decisivo, pois, se há um algo “por trás” da dúvida, é este algo, e não a dúvida, que constitui o ponto de apoio firme que Descartes buscava”.

Particularmente, considero essa uma das discussões mais interessantes da filosofia de Descartes e fico feliz que ela tenha sido posta, entretanto, como ela estará assentada na argumentação que Olavo fez até aqui, com todos os erros que contém, tal discussão sofisticará ainda mais esses erros e se projetará em patamares nunca antes concebidos pelos intérpretes de Descartes. Com efeito, malgrado eu continue analisando e confrontando a argumentação do texto naquilo que ela tem de mais errôneo, essa interpretação está invalidada desde muito tempo.

10. Olavo prossegue: “Descartes diz que a dúvida é uma certeza no instante em que é pensada. Mas isto é falso: o que é certeza é a reflexão posterior que afirma a realidade da experiência da dúvida”. A justificativa disso estaria no entendimento da dúvida como certo movimento alternante do pensamento que impossibilitaria a colocação da dúvida como um estado e, igualmente, como uma certeza do pensamento. Uma vez que a dúvida seria um movimento psicológico incessante, a afirmação da certeza ocorreria somente no momento posterior a esse movimento, quando fosse possível percebê-lo retrospectivamente e lhe atribuir unidade.

Já expus longamente os equívocos dessa acepção de dúvida e não insistirei muito nos trechos em que ela é reafirmada, contudo, mesmo assim é interessante observar que, nas passagens em que Olavo pensa estar refutando Descartes e desvendando algo por si mesmo, ele na verdade chegue mais perto da acepção de dúvida empregada pelo filósofo, ainda que com uma elaboração simplória. Como exemplo disso, ele diz que: “O homem portanto nunca “está” em dúvida: apenas passa por ela, precisamente como transição entre estados”, no entanto, não seria algo parecido com isso o que Descartes faz em sua obra? Ele não se move de uma dúvida à outra impulsionado pelos limites de questionamento e de evidência que esse questionar levanta? Em suma, não daria para suspeitar que, independentemente da acepção exata do termo, a dúvida pudesse conter algum tipo de movimento e não fosse propriamente um estado?

11-14. Daqui por diante, o autor passará a analisar duas crenças que estariam contidas nessa unidade que a reflexão posterior ao cogito afirma. Seriam elas: “a crença na continuidade da consciência entre a dúvida e a reflexão, e o conhecimento da distinção entre verdade e falsidade”.

A primeira crença será aquela mais longamente abordada no texto (vai até o §20) e pode ser caracterizada da seguinte forma: “Aquele que reflete sobre a dúvida sabe que ainda é “o mesmo” que teve a dúvida”.

A esse respeito o autor diz que, estando a dúvida e a reflexão que a afirma como certeza em momentos temporalmente e logicamente distintos da argumentação, segue-se disso que há uma diferença entre o “eu” que duvida e aquele que reflete sobre o que duvidou. Logo, não existe essa unidade do “eu” que é afirmada por Descartes no cogito.

O que não fica particularmente claro nessa passagem é se esse “eu” que considera e afirma a dúvida posteriormente, no momento mesmo em que afirma, seria ou não uma identidade com certeza de si, quer dizer, se nesse momento em que o “eu presente” reflete acerca de um estado passado ele estaria ou não justificado em afirmar algo como “sou no momento neste momento em que afirmo ser”.

Estou ressaltando essa questão porque o enunciado que expressa o cogito poderia ter sua formulação substituída (sem tanto prejuízo à argumentação cartesiana) por outras proposições que afirmassem de igual modo a unidade entre o “eu” e o pensamento. Em se tratando daquilo que o cogito pretende demonstrar, dizer “eu sou neste momento eu que penso que sou”, “eu existo porque atribuo unidade às dúvidas que tive no passado”, ou mesmo “neste momento posterior de reflexão eu penso e assim afirmo minha existência”, seria suficiente para estabelecer a mesma verdade que ele estabelece, a saber, que há um nexo indivisível entre a multiplicidade de meus pensamentos e eu mesmo porque eles não podem ser meus pensamentos sem que eu os pense e, consequentemente, sem que eu exista como coisa que pensa. Sendo assim, mesmo supondo que Descartes pensasse a dúvida como Olavo diz que ele pensou e afirmasse a unidade do “eu” numa reflexão posterior à dúvida, ainda assim a mesma verdade estaria estabelecida por uma via distinta.

Prossigamos.

Depois disso, considerando a posteridade do raciocínio em relação à dúvida, Olavo afirma que o cogito estaria fundamentado na memória dos vários momentos de dúvida. Melhor dizendo, como a dúvida está separada do raciocínio que a afirma, ela só é afirmada quando já é memória e não mais raciocínio.

Essa interpretação inusitada também surge da possibilidade de separar o ato de duvidar do momento em que ele é afirmado como verdade perante o “eu”. Pelo que expus até aqui temos motivos suficientes para recusá-la, todavia, mesmo sem retomá-los, vale ressaltar que o texto cartesiano contém vários excertos que levantam suspeitas quanto a essa interpretação e que nenhum deles faz parte da reflexão de Olavo. Um exemplo: quando diz que o “eu” não pode ser nada enquanto pensar ser algo, Descartes não estaria considerando a dúvida como algum tipo de raciocínio atento e presente que não dependeria da memória como fundamento? Inclusive, a conjunção não foi empregada aí justamente para ressaltar isso? Outro exemplo: como inicia seus livros “de metafísica” questionando aquilo que aprendeu e julgou como sendo verdadeiro, Descartes já não teria questionado a memória nas dúvidas anteriores, impossibilitando sua afirmação como fundamento no momento do cogito? O filósofo seria assim tão bobo a ponto de cair num erro que ele mesmo previu e criticou desde o começo?

Evidentemente, nesse ponto da argumentação o texto cartesiano já ficou para trás e não ameaça mais a interpretação que Olavo faz dele.

15-19. Além dos problemas apontados, a dúvida dependeria ainda de outro pressuposto não considerado por Descartes: “o nosso poder de conceber que as coisas sejam de um outro modo que não aquele com que se nos apresentam num dado momento”. Já que entende o questionar como oscilação entre afirmação e negação, duvidar seria colocar a pergunta “por que assim e não de outro modo?” e essa maneira de duvidar, por sua vez, pressuporia que Descartes pudesse imaginar que as coisas fossem de outro modo. Disso se segue que a dúvida dependeria fundamentalmente da imaginação.

C. S. Lewis tem um argumento parecido com esse que me daria muito trabalho responder, diga-se de passagem, porém felizmente não é esse o caso. Voltemos ao que diz Olavo.

É certo que a dúvida suscita determinadas imagens na cabeça do leitor através de suposições. A exemplo disso, o argumento dos sonhos suscita a imagem do sonho embora acreditemos estar acordados, enquanto o argumento do deus enganador suscita a imagem dessa entidade maligna conquanto acreditemos que não estejamos enganados. Paremos aqui e fiquemos apenas nisso.

Ao analisarmos a dúvida sem ir além desses raciocínios talvez seja possível tentar fazer a argumentação de Olavo funcionar. Pensando até aqui, a dúvida seria uma forma de imaginação orientada com um fim racional, colocando uma outra realidade possível diante da nossa e perguntando por que a nossa e não essa outra. Parece até razoável, não?

Para tornar essa interpretação válida, entretanto, seria preciso provar que a imagem contem a racionalidade da dúvida, ou seja, que a dúvida é colocada por meio da racionalidade contida na imagem, pois caso a racionalidade da dúvida não esteja na imagem mas seja apenas apresentada, exemplificada ou coisa assim pela imagem, então a racionalidade da dúvida estaria em outra coisa que não em nossa imaginação (o que, por seu turno, obrigaria Olavo a repensar o sentido do termo dúvida). Graças a isso, antes de assumir a posição que assume, Olavo precisaria responder à questão primordial: existiria um princípio racional na dúvida a qual a imagem mesma estaria submetida ou é a imagem mesma quem coloca a racionalidade da dúvida?

Creio existir um método simples para resolver isso: considerando que Descartes pretendeu ter encontrado algo indubitável ao fim da dúvida, basta que confiramos se a afirmação dessa indubitabilidade está fundada numa imagem. O cogito seria uma imagem? Aquilo que Descartes considera o mais certo depende de uma imagem? Basta abrir o livro e descobrir.

20. Se bem entendo a argumentação de Olavo nesse ponto do texto, ele pretende defender a existência de outro problema na argumentação cartesiana: o fato de que cogito não pode ser investigado sem uma noção de verdade que lhe seja anterior e que julgue a validade dos questionamentos que possibilitaram sua descoberta, consequentemente, o fundamento cartesiano pressuporia seu próprio fundamento. E qual seria o problema disso? Pasmem: é que isso teria passado desapercebido por Descartes.

Falando com toda franqueza: eu espero estar incorreto ao caracterizar o argumento de Olavo assim porque caso eu esteja correto ele sequer será um argumento; apenas uma incompreensão do texto naquilo que ele tem de mais básico.

Ocorre que o primeiro parágrafo do Discurso do Método, das Meditações de filosofia primeira, dos Princípios de Filosofia e das Regras para a direção do engenho apresentam a existência da verdade como um ponto de partida de suas reflexões. Inclusive, nessas duas primeiras obras, antes mesmo de começar com a história da dúvida metódica, Descartes não só afirma a existência da verdade como nem se dá ao trabalho de explicar o que estaria entendendo por verdade, dada a obviedade da questão.

Consideradas essas coisas, caso a noção de verdade seja um pressuposto que Descartes utilizou porém não percebeu utilizar, então porque seus livros começariam justamente com a afirmação da verdade e da capacidade de cada um distingui-la? Descartes não estaria afirmando a verdade ao ressaltar que todos temos o poder de distingui-la? Ou a estaria afirmando para, logo depois, esquecer disso e começar o processo de dúvida sem uma noção de verdade? Ou pior: estaria escondendo a noção de verdade do leitor embora a tenha afirmando desde o começo do livro e a tenha defendido durante toda sua vida intelectual? Pessoalmente, não consigo pensar numa maneira de tornar menos bronca a argumentação de Olavo.

Em tempo, é claro que podemos perguntar em que sentido a verdade usada como critério de validação do itinerário da dúvida não pode constituir um fundamento para o conhecimento tal como o cogito poderá. Aliás, essa seria uma ótima discussão. Mas não é o que está sendo proposto.

21-22. A partir disso, Olavo declara que a dúvida estaria erguida sobre diversos pressupostos infundados e não teria nenhuma força, o que levantaria suspeitas sobre outras filosofias surgidas com a modernidade… Mas considerando a interpretação que ele faz da filosofia de Descartes, ficam sob suspeita desde já suas suspeitas sobre essas filosofias.

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5 pensamentos sobre “Análise: Descartes e a psicologia da dúvida — Olavo de Carvalho

  1. Parei de ler a porcaria do seu artigo no começo,pois um individuo que se propõe a refutar uma visão filosòfica e diz apenas que o autor da “dúvida” sobre Descartes está fazendo conjecturas sem fundamentos uma vez que ele deixa de citar obra do estudioso em questão,uma vez que seu texto é claro logo no início ao afirmar que Olavo se propõe a refutar o princípio da dúvida em Descartes, logo porque toda obra filosófica parte da “dúvida”, isto não é lógico? por quê perguntar de qual obra de Descartes ele parte? pois pelo que percebi é o senhor o monstro filósofico aqui já que ao invés de filosofar, faz inferências defeituosas a respeito da conduta do autor do artigo.
    Devo ressaltar ainda por inferência que o senhor não entende nem mesmo oque seja a “dúvida” mesma para não ter duvidado nem mesmo das próprias palavras, neste caso você seria salvo.
    LEIA “O MÍNIMO QUE VOCÊ PRECISA SABER PARA NÃO SER UM IDIOTA”

    • Vou tentar ser o mais didático que eu puder mas devo advertir que o tom exaltado de sua crítica atrapalha a clareza daquilo que você diz:

      1. O problema do Olavo não citar a obra é que, por vários motivos que não convém expor aqui, existem diferenças no percurso da dúvida de acordo com a obra em questão (Discurso, Meditações, etc), de modo que sem saber a que obra ele se refere fica difícil precisar se a maneira como ele está caracterizando Descartes procede ou não. Como ao longo do texto o Olavo vai deixando claro que só tem do Descartes uma noção muito vaga e estereotipada, a impressão que fica é que a falta de citação decorre do fato de que o Descartes que Olavo tem na cabeça é só um espantalho e não o texto cartesiano.

      2. Nem toda obra do Descartes parte da dúvida, Allef, onde você leu isso?

      3. As afirmativas que fiz sobre o Olavo são consequentes com o tratamento que ele dá ao texto, dirigindo-se estritamente ao Olavo “como filósofo que pensa Descartes”. Ainda acho que estão todas bem justificadas e não sinto que que tenha algo para retificar.

      4. Sobre o conceito de dúvida, a monstruosidade filosófica e tal, acho que você não precisa se doer tanto. É normal na filosofia discutir ideias, ler textos com os quais não concordamos e até mesmo fazer provocações. Tenho certeza que se você lutar para atingir essa compreensão vai conseguir passar do primeiro parágrafo de meu texto e aproveitar o melhor dele.

      Um abraço

  2. Pingback: Flusser versus Descartes | Ao invés do inverso

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