Análise: O sentido de uma filosofia brasileira — Márcio Nicodemos

Faz algum tempo que tenho desejado iniciar algumas análises de artigos que, por seu tamanho diminuto e por sua argumentação pouco densa, podem ser escritas com celeridade e sem tanto esforço quanto as resenhas de livros. Os assuntos de tais artigos, além de servirem como contributos aos meus interesses de pesquisa e meditação pessoal, também realizam discussões interessantes para o formato do blogue.

Tendo isso em mente, separei alguns deles para abordar daqui por diante. Começarei com o texto de Márcio Nicodemos, O sentido de uma filosofia brasileira, um texto de graduação que discute o tema da filosofia brasileira e que, embora apresente equívocos que um filósofo mais maduro não cometeria, possuindo pouca importância para a filosofia num sentido amplo e pouco valor para a própria produção acadêmica daquele que o teceu, apresenta um tema interessante e contém algumas boas ideias que merecem ser avaliadas seriamente.

Como método de abordagem, exporei primeiramente a argumentação do autor na ordem em que aparece e em seguida tecerei comentários a acerca dela, buscando criticá-la a partir dos próprios problemas dessa argumentação e não de minhas posições pessoais sobre o assunto. Para evitar uma análise demasiadamente longa, também evitarei analisar o texto em seu aspecto estilístico e em sua organização mais geral, como costumo fazer com os livros, e restringirei minha análise à argumentação principal do texto.

1. Introdução

Em que sentido é possível falar de uma filosofia brasileira? Eis a questão que motiva o artigo. Para respondê-la, o autor julga necessário responder anteriormente duas outras.

A primeira questão é: em que sentido é possível falar de uma filosofia no Brasil?

Trata-se de uma dúvida trivial que recebe uma resposta também trivial. A mera constatação histórica de que a filosofia foi ensinada e praticada no Brasil desde os primórdios do país é suficiente para encerrar o assunto, afinal, como todos sabemos, desde que há jesuítas nestas terras, ensina-se e faz-se filosofia no Brasil.

A existência de filosofia no território brasileiro, contudo, não implica na existência de uma filosofia brasileira, isto é, de uma filosofia que tenha sua originalidade atrelada não apenas ao território mas também à cultura do país, de modo que responder a essa primeira questão é insuficiente para responder a questão motivadora do artigo.

A segunda questão, por sua vez, poderia fazer isso. Ela seria mais complexa que a anterior por requerer, além do conhecimento acerca da história do Brasil, alguma elaboração filosófica para que fosse respondida, sendo enunciada seguinte maneira: em que sentido é possível falar de uma filosofia do Brasil? Para respondê-la seria preciso refletir a respeito de três pontos:

a) a universalidade versus a particularidade dos problemas filosóficos,

b) a importância da tradição filosófica (tanto a universal como a particular),

c) e a originalidade do pensamento.

Por que seria preciso pensar sobre esses três pontos e não sobre quaisquer outros três livremente escolhidos pelo leitor, eis algo que o autor não diz e que temos que fingir não perceber para que o artigo faça sentido. Por conta disso, proponho que ignoremos o problema e continuemos seguindo a argumentação do autor enquanto torcemos para que essa carência inicial seja suprida em algum momento futuro.

2. Universalidade versus particularidade

O primeiro ponto a ser considerado – antes de respondermos em que sentido é possível falar de uma filosofia brasileira – seria a universalidade dos problemas filosóficos. A esse respeito, Nicodemos afirma que o problema da universalidade versus particularidade está na essência da filosofia, uma vez que todo filósofo: “quando investiga determinado problema tem como objetivo realizar um esforço para libertar-se de suas condições históricas e culturais e atingir um ponto de observação universal” (pág.44).

Merece comentário essa perspectiva do assunto. Trata-se de uma maneira bastante “metafísica” de entender a filosofia que certamente é válida para muitos filósofos (como Platão ou Descartes), mas que não abarca diversos outros (como aqueles provenientes da filosofia analítica ou mesmo alguns céticos), uma vez que várias escolas filosóficas buscam formas de coerência e de racionalidade as quais não pretendem ser universais. Com isso, caso o autor pretender situar a si mesmo dentro de uma das filosofias que acreditam na existência de essências e no conhecimento delas, não há problema algum, todavia, pensar que tais filosofias são as únicas existentes constitui um erro de avaliação histórica.

Depois de fazer essas considerações, Nicodemos passa a defender que os argumentos filosóficos independem da figura do filósofo na medida em que estão situados fora do tempo e do espaço em que seu autor os formulou, possuindo relativa autonomia com relação à circunstância que os suscita. Apesar disso, conhecer o tempo específico em que as filosofias foram formuladas contribuiria para esclarecê-las porque: “(…) situar um pensamento filosófico em sua época de origem é o que nos permite vislumbrar todas as épocas, percebendo que embora haja variações nas respostas as questões são sempre as mesmas, donde se conclui que a universalidade e a particularidade são as duas instâncias em eterna tensão nos problemas e no pensamento filosófico.” (pág.44).

Aqui surgem mais problemas. Apontarei dois deles.

O primeiro: depois de estabelecer que a filosofia possui uma essência e que nessa essência está a luta ou tensão entre o universal e o particular, qualquer suposta universalidade das questões filosóficas vira mera consequência dessa essência, quer dizer, a filosofia perguntaria sempre as mesmas coisas e os filósofos as interpretariam e responderiam segundo a multiplicidade de suas culturas. A filosofia seria “universal” ao ser pobre e ter poucos questionamentos que foram respondidos por muitos pensadores diferentes.

O segundo: como o autor pode assumir que a “universalidade” que ele percebe nas questões filosóficas provenha de uma essencialidade posta na atividade filosófica em vez de uma relação de continuidade na história da cultura? Colocando em outras palavras, a continuidade das questões não seria simples relação de ensino-aprendizagem de uma tradição posterior com a precedente? Por que em vez de pensarmos que a filosofia tem questões essenciais não podemos pensar, por exemplo, que os filósofos repetiram, por força da tradição, as questões de seus predecessores? Nicodemos assume sem hesitar que a filosofia possua uma essência que é mantida intacta entre os filósofos através do tempo, todavia, ele não fornece argumentos para tal, ficando a cargo do leitor aceitar ou não o que ele diz.

3. A importância da tradição

Ao tratar do conceito de tradição Nicodemos tem a boa ideia de conceituar dois tipos de tradição filosófica. A primeira diria respeito à tradição universal que iniciou na Grécia e abrange toda a história da filosofia, enquanto a segunda diria respeito às tradições particulares que variam “de acordo com o aspecto enfocados” (pág.45), como tradições existencialistas, alemãs, helenísticas e assim por diante.

Cumpre fazer uma problematização inicial desse segundo tipo de tradição. Considerando que, tal como estabelecido pelo autor, a tensão entre o universal e o particular vem da própria essência da filosofia, então aquilo que une os diversos filósofos é necessariamente essa essência da filosofia. Diante disso, podemos perguntar o que exatamente produz uma tradição filosófica particular, ou seja, em que aspecto da filosofia adentrariam os elementos particulares posto que aquilo que a caracteriza é justamente o que é essencial e independe da particularização. Afinal, que “enfoque” é esse que une tais tradições? O que cada uma delas “enfoca” de maneira própria (um tema? um método?)? A divisão feita pelo autor não fornece tais respostas, com efeito, seus argumentos posteriores que pretenderão afirmar a existência de uma tradição brasileira vão carecer dessa base inicial que explica o que abarca os diversos filósofos numa mesma tradição. Prossigamos em direção a eles.

Diz o autor que: “O Brasil possui uma tradição filosófica riquíssima, infelizmente, ignorada – ou em alguns casos pior: negada pela maioria dos professores de hoje (…) pois se desconhecemos nosso passado filosófico particular, ou seja, as necessidades que despertaram em nós a vontade de investigar e partir em busca de respostas universais” (pág.45).

Há diversas críticas que podem ser feitas e essa passagem. A princípio, o autor considera que já estaríamos dentro da uma tradição brasileira de filosofia, entretanto, levando em consideração que o artigo busca o sentido de se falar em uma filosofia brasileira, então como podemos partir do pressuposto que essa filosofia já existe se é justamente sua existência que estamos buscando? Em que sentido essa tradição já existe e como podemos fazer parte dela se a ignoramos? Pior: como podemos fazer parte uma tradição que negamos já que negar é se colocar contra e fora de tal tradição?

Depois de simplesmente decretar a existência de uma tradição filosófica brasileira, Nicodemos cita Domingos José Gonçalves de Magalhães como o inaugurador dessa tradição por romper com supostas “influências dogmáticas lusitanas” (pág.46), e alguns outros filósofos brasileiros como participantes de uma tradição filosófica brasileira.

Aquilo que os uniria como participantes de uma tradição comum, no entanto, permanece inexplicado. Ora, Domingos Magalhães teria sido amplamente lido a ponto de influenciar os filósofos brasileiros posteriores a ele? Há uma continuidade temática entre os filósofos brasileiros e a filosofia dele de tal maneira que ainda estamos hoje em desacordo com os dogmas lusitanos por conta de um rompimento do passado do qual nem temos consciência? Nada disso tem resposta no texto. Nicodemos apenas dá como estabelecida a tradição de filosofia brasileira sem porém explicar o que a faz brasileira, ficando difícil defender – por seus argumentos – que aquilo que é comum aos filósofos brasileiros não seria somente o território em que nasceram.

4. Originalidade do pensamento

O autor afirma que a: “originalidade na filosofia consiste em alguém criar algo novo, inédito, nunca antes visto num plano universal, mas intrinsecamente relacionado com as particularidades histórico-culturais nas quais ele surge” (pág.46).

Quanto à ideia de novidade podemos perguntar de que modo um pensamento pode ser novo mesmo estando relacionado a uma origem semelhante que preexiste com relação a ele. Se a origem já existe semelhantemente, então como aquilo que vem dela pode ser inédito? O artigo não contém justificativas nesse sentido, consequentemente, sua argumentação funciona apenas com o consentimento do leitor.

Já com relação ao pensamento de que a originalidade de um filósofo estaria em apresentar no plano universal sua cultura particular, podemos objetar que ele nos faz concluir o absurdo de que as filosofias se diferenciam somente por elementos atinentes à cultura nacional de que participam cada filósofo e não pelas diferentes argumentações e teses de suas filosofias.  Tal maneira de pensar aniquila a riqueza da filosofia ao fazer com que ela varie apenas em função das culturas nacionais em que foi praticada, e aniquila também os filósofos enquanto indivíduos ao transformá-los em meros porta-vozes de suas culturas.

5. Farias Brito – um filósofo brasileiro

O filósofo Farias Brito é apresentado pelo autor como um exemplo ilustrador daquilo que foi defendido até aqui, tendo sua filosofia relacionada com os três pontos que responderiam a questão motivadora do artigo.

No tocante à relação entre universal e particular (item 2) a filosofia de Farias Brito refletiria o período histórico em que ele estava situado, elevando-se graças à sua profundidade a um nível universal. Portanto, os problemas que levantei contra ela na ocasião continuariam válidos aqui: a “universalidade” do pensamento de Farias Brito não seria apenas a consequência do uso método filosófico, independentemente do pensamento específico desse filósofo? Ou ainda: não poderia ser essa universalidade mera consequência de se aprender uma tradição praticada mundialmente, fazendo com que aquele que a pratique, independentemente de quem seja ou pense, fique automaticamente incluído nessa universalidade? As duas respostas são possíveis de acordo com a própria argumentação de Nicodemos, pois ela não é capaz de fechar tais possibilidades.

Quanto à importância da tradição (item 3), Nicodemos afirma que Farias Brito estaria inserido numa tradição filosófica brasileira por aprofundar Tobias Barreto, e inserido numa tradição mundial por usar um método de cunho fenomenológico e ter temáticas relativas ao existencialismo. Também aqui os mesmos problemas que levantamos anteriormente continuam válidos: o que existiria de brasileiro em Tobias Barreto e Farias Brito? Sem que seja estabelecida essa “brasilidade”, a única relação entre os dois filósofos fica sendo a geográfica.

Por fim, em se tratando da questão da originalidade (item 4), Nicodemos defende que Farias Brito seria original apelando para a ligação de sua filosofia com o momento histórico em que ele estava situado. A consequência desse modo de pensar é produzir uma contradição em seu discurso, a saber, que a originalidade da filosofia de Farias Brito não tenha nenhuma relação com ele mesmo mas apenas com seu período, por conta disso, ela não é originalidade, ou, ao menos, não de Farias Brito; apenas da história que fala por meio dele.

6. Conclusão

Partindo das considerações feitas até aqui, Nicodemos conclui pela existência de uma filosofia no Brasil, dada pela mera presença da prática filosófica existente aqui, e pela existência de uma filosofia do Brasil, dada pela existência de filósofos que dialogam com uma tradição brasileira e com uma tradição mundial.

Em função dos problemas que envolvem sua argumentação, a força dessas conclusões é diminuta, sendo incapaz de responder à questão que motiva um artigo. Em que sentido podemos falar de uma filosofia brasileira? Permaneço sem saber. Continuemos investigando.

Referências

NICODEMOS, MÁRCIO DANIEL DA COSTA. O Sentido de uma Filosofia Brasileira. Revista Aproximação , v.1, p. 43-49, 2008.

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2 pensamentos sobre “Análise: O sentido de uma filosofia brasileira — Márcio Nicodemos

  1. Olá! Na verdade meu artigo apresenta equívocos que nem mesmo um filósofo imaturo cometeria. E não possui “pouca importância para a filosofia num sentido amplo e pouco valor para a própria produção acadêmica”, meu artigo não possui importância alguma para a filosofia e valor nenhum para a produção acadêmica. Sim, o tema é interessante. Abraço! Marcio Nicodemos.

    • Poxa, que legal ter você lendo o que eu escrevi.

      Eu acho que o artigo tem umas sacadas bacanas mas você ainda não possuía a perícia suficiente para explorá-las bem, acabando por dizer algumas coisas que são cordiais mas que não tinham muita densidade, e deixando de lado algumas ideias não tão pacíficas que eram mais originais e interessantes.

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