Resenha: Master Onani Kurosawa — Yokota Takuma

OnaniMasterKurosawa

Considerações a respeito e a partir da obra

Um mangá que tem a masturbação como tema está muito próximo de fracassar como obra. Primeramente, por se dirigir ao público jovem, ele pode ser estupidamente didático ou tão imaturo quanto pensa que seu público é, além disso, também pode buscar atrair o leitor pelo sexo com o objetivo de excitá-lo, transformando-se em simples pornografia.

Master Onani Kurosawa, todavia, escapa dessas armadilhas por não se reduzir ao tema da masturbação e fazer uso dele para contar a história sentimental do protagonista, apresentando certo período de sua vida a partir da transformação de seus sentimentos. O onanismo funciona como uma maneira de situar a história e como um caleidoscópio da interioridade do personagem, mostrando o que lhe ocupa a mente quando ele não está com as outras pessoas e pode olhar para si sem suas máscaras sociais.

Essa abordagem muitíssimo interessante faz com que o mangá suscite diversas discussões a respeito da sexualidade e, por conta disso, mais que resenhar a história contida ali, eu tentarei iniciar algumas dessas discussões nas linhas a seguir.

Um resumo

A história é bastante simples. Todos os dias depois da aula o jovem Kurosawa se dirige a um dos banheiros femininos de sua escola para se masturbar. Fechando-se numa das cabines, ele faz desse momento íntimo uma espécie de pausa na qual pode extravasar sentimentos acumulados e administrar suas tensões, recebendo certa compensação psicológica por essa atitude, a saber, sentir que tem controle de sua vida e que consegue lidar com os próprios desejos. Quando sai dali, Kurosawa sente que pode voltar a ser o rapaz apático e isolado de sempre – pelo menos até que alguém o descubra…

O mangá apresenta o cotidiano do personagem e sua maneira indiferente de lidar com os outros, mostrando como ele se transforma à medida em que se envolve verdadeiramente com eles.

O outro

tumblr_n2ndnlw8f51r5puibo1_1280Em poucas palavras, Master Onani Kurosawa é sobre a criação de laços com pessoas, sobre estar disposto a ouvi-las e a sentir com elas, e, em se tratando disso, o tema da masturbação torna tudo muito interessante por mostrar o mundo interior do personagem e como, uma vez dentro dele, ele encara aqueles que estão ao seu redor.

Afinal, o que queremos do outro? Que ele nos dê prazer? Que ele nos reconheça? Questionamentos assim tem muita importância nestes tempos em que pouco sabemos nos relacionar com o outro e criamos muitos subterfúgios para mediar nossas tentativas.

É comum, por exemplo, que duas pessoas se relacionem longamente até que, após uma discordância qualquer, excluam uma a outra de suas vidas com um simples clique. Qualquer tensão entre elas desaparece junto com a relação e, por mais que ambas possam ficar felizes em viver sem escaramuças, suas relações restantes ficam tristemente superficiais por estarem baseadas em aceitar o outro somente dentro de certos requisitos. A fim de conservar o que têm elas podem, inclusive, se envolver entre si através de subterfúgios que evitem qualquer aprofundamento, encontrando umas as outras não pelo prazer de estarem juntas mas para “fazerem alguma coisa”. Sem essa coisa a ser feita elas teriam que lidar umas com as outras diretamente (o horror, o horror…).

Pessoas e objetos

Na medida em que o outro é tolerado somente enquanto cumpre certos requisitos e não conflita com eles, ele é transformado numa peça compositiva de uma relação que está pronta antes mesmo que possa integrá-la, tornando-se um objeto  útil dentro das necessidades de alguém e não outra pessoa com quem pode se pode construir conjuntamente uma relação.

Com relação à masturbação, um homem que assedia mulheres em metrôs e ônibus, por exemplo, as reduz à condição de objetos: elas são excitantes porque estão dentro de uma situação específica que o excita, quer dizer, elas cumprem requisitos estabelecidos pelas fantasias dele e assim o estimulam. Uma mulher assediada não é uma pessoa ativa no assédio, mas um objeto do qual o assediador desfruta enquanto ignora qualquer individualidade que ela possa ter, pois a relação entre eles não a permite estabelecer os termos em que quer participar.

Pensando o mangá nesse sentido, podemos notar que as primeiras fantasias de Kurosawa fabulam um outro que é objetificado: são moças lindas e sem personalidade que invadem a cabine porque querem transar com ele simplesmente para lhe dar prazer. O local fica repleto de fantasmas sensuais e sem vida. Conforme o personagem passa a se relacionar mais com outras pessoas, a querer estar com elas e ter sua identidade construída na relação que tem com elas, no entanto, suas fantasias começam a mudar significativamente. Se as primeiras são absolutamente solitárias e reduzem o outro à condição de objeto que age conforme seu desejo, as últimas são confusas e vívidas, povoadas com moças que tem nome e personalidade, querendo criar vida e confessar seus próprios desejos aos rapaz, contudo, ao fazerem isso, elas revelam sua condição de fantasia e frustram a masturbação. Fazem com que o protagonista só consiga desejar, dali por diante, prazeres que sejam reais, quer dizer, prazeres com o outro e não sobre o outro. O significado disso é claro: mudar a maneira como nos relacionamos com os demais muda também nossa maneira de ter prazer com nosso próprio corpo, uma vez que nossa relação conosco é perpassada por nossa relação com o outro.

Concluindo

img3Colocando algumas palavras finais sobre a obra, penso ser interessante que um mangá sobre adolescentes seja tão seguro daquilo que deseja abordar e não faça concessões desnecessárias ao leitor, mais ainda, é interessante também que as ações do protagonista sejam verossímeis e venham acompanhadas de vitórias e fracassos parciais que ajudam a compreender sua evolução como personagem.

Imagino que o final da história tenha decepcionado alguns leitores por ser um tanto vago, mas gostei bastante dele. Onani master Kurosawa não é propriamente sobre certos acontecimentos que deveriam ser concluídos numa história coerente, mas sobre um período sentimental da vida do protagonista, quer dizer, sobre uma mudança que alguém viveu em certa época, por isso, o que o protagonista viveu depois disso, embora seja motivo de curiosidade, não contribui propriamente com a história.

Trata-se de um bom mangá, com um começo um pouco morno, mas que ganha complexidade conforme avança e tem algumas palavrinhas importantes para dizer sobre nossas vidinhas ocas.

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