Da impossibilidade de descrever os olhos de Capitu

Machado-MachadodAssis-webNo capítulo 32 de Dom Casmurro Bentinho descreve os olhos de Capitu da seguinte maneira:

Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.”

A descrição é física: os olhos lembrariam o mar em seus momentos de ressaca a tragar para si quem os observa; ao mesmo tempo ela é também insuficiente: “Vá, de ressaca”, diz o narrador queixoso. O físico daria uma “ideia da feição” ao descrever de alguma maneira aquilo que é percebido, mas só alcançaria uma descrição metafórica

Bem, por que então a metáfora? 

Diz Bento que é porque haveria “não sei que fluído misterioso” naqueles olhos, todavia, sabemos que não há fluído algum, trata-se apenas de outra metáfora. O mistério contido nela, porém, nada tem de metafórico. Os olhos de Capitu são tão misteriosos que embora sua descrição seja completamente física, ela não nos apresenta nenhuma aparência reconhecível. Qual seria a cor desses olhos, por exemplo? Eles são grandes, pequenos, amendoados? Não sabemos.

O que nos é descrito não são os olhos de Capitu, mas a sensação de imersão do narrador ao olhar sua amada, a queda de Bento amor adentro. A metáfora nos apresenta uma coisa conhecida, o retorno das ondas para a imensidão do mar, e ao mesmo tempo nos suscita uma imagem misteriosa, a sensação única que Bento vivenciou, sendo que a interjeição vem para nos lembrar que não podemos usar o que conhecemos para julgar o que é misterioso e único.

dom-casmurro-machado-de-assis-garnier-1924-10007-MLB20024309749_122013-FBento poderia ter dito simplesmente: os olhos eram verdes mas que verde seria? Continuaríamos perguntando como tolos, e ele nos responderia: ora, verde como os olhos de Capitu…

A metáfora é uma ajuda para o leitor — pobre leitor — que nunca viu Capitu. Ela existe porque não podemos entender, porque jamais veremos aqueles olhos e jamais entenderemos o que o narrador sentiu.

Capitu é indescritível, inclusive para o próprio Bento, pois lhe é impossível voltar à sensação original de contemplá-la, bem como lhe é impossível não tentar rememorá-la com imagens que rapidamente se mostram insuficientes.

Ele nos diz que os olhos eram como: “a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca”, mas não, eles não eram como ressaca nenhuma que alguém já tenha visto, tanto que essa consciência veio logo em seguida: “Vá, de ressaca”.

A interjeição é um lamento, um pesar de quem perdeu algo que o imensa, que não cabe em palavra alguma e, por isso mesmo, só pode ser descrito pela profundidade daquilo que fez sentir.

“Uma força que arrastava para dentro”.

Pobre Bento. 

Nota um: outras caricaturas elegantíssimas podem ser vistas aqui.

Nota dois: esse texto meio que tem continuação, além disso, o Machado é um velho conhecido deste blogue e há vários textos dele e a respeito dele publicados aqui.

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3 pensamentos sobre “Da impossibilidade de descrever os olhos de Capitu

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