Diálogos sobre a religião e a morte (Parte II)

Segue a última parte dos Diálogos sobre a religião e a morte. Como vocês sabem, eles foram iniciados entre eu e o Mailson Cabral (do Templo e Taverna).

O saldo dessa conversa toda eu suspeito caber naquela velha expressão de Hume sobre “explorar vastas regiões de ignorância”. Confiram.

Bruno Oliveira: Apesar de tudo, eu acho que podemos pensar a morte em outro contexto que não o nosso, embora sempre reste alguma dúvida sobre a distância desses dois contextos. Por mais limitada que seja, a crítica – num sentido amplo – é uma forma de separação e permite que nos coloquemos alguns passos mais longe daquilo que criticamos, mesmo que no fim das contas não sejam tantos assim, e também podemos nos beneficiar das críticas feitas por outros nesse sentido e ir mais longe com eles. Quem sabe até voltar para nossa cultura sem se reconhecer nela novamente.

Eu gosto muito da relação que você faz entre morte e medo, e acho que está correto em destacar a morte como um medo particular mais forte que os outros.

Quando você diz que a morte é um tipo de “peso da ausência de ser alguma coisa”, acho isso muito interessante porque, se você reparar bem, ela é uma definição inteiramente voltada para a vida: a “ausência” nesse caso é ausência daquilo que conhecemos, e “ser alguma coisa” é aquilo que pensamos ser atualmente. Trata-se de uma ideia de morte bem “antropomórfica”, digamos assim, que existe com base nos nossos elementos próximos como uma replicação deles. Quando dizemos “morte” não estamos construindo uma outra coisa, nem fazendo qualquer oposição à vida, mas juntando tudo aquilo que é importante no presente e dizendo: todos os dias eu te desejarei mais um dia.

Aliás, pensando aqui, algumas religiões levam muito seriamente esse “antropomorfismo”, dando descrições detalhadas do além-mundo em que ele é muito parecido com o mundo real.

Uma coisa que me impressionou uma vez foi um documentário sobre indígenas em quem um índio velho esperava pacientemente a morte, contudo, não por conta de uma tristeza consigo ou com a vida, mas porque achava que já tinha dado sua contribuição ao mundo e se sentia cansado. Eu fiquei me perguntando sobre como esse índio via a vida para ter aquela tranquilidade toda porque, para mim, parecia impossível ver o mundo assim. Na verdade, ainda me é impossível. Quer dizer, qual relação é preciso manter com a vida para a morte fazer parte dela sem ser de uma maneira doentia?

Supondo que religião seja mesmo medo da morte, será que nossas religiões mais conhecidas são religiões doentias, nascidas de maneiras doentias de lidar com a morte? Seria possível ter uma vida em que a morte estivesse integrada ao nosso viver e, portanto, não precisássemos nem escondê-la nem mascará-la? Ou mais: é possível uma religião que aceite a morte?

Mailson Cabral: Penso que quando mantemos uma postura de negação da morte, isto é, não encará-la como constituinte da vida, estamos fazendo uma negação da vida. E isso cai como uma crítica que vai de encontro com uma sociedade firmada na lógica do consumo: a morte se torna algo tão terrível de se pensar, pois uma vez morto sonhos, desejos, projetos e toda a sorte de anseios não podem mais ser vendidos, o que, por sua vez, abre uma lacuna para um grito: qual o sentido de tudo isso?

Há um hábito religioso que, apesar de me considerar cético, mantenho. Às vezes costumo ir ao cemitério visitar o túmulo da minha família, fico lá por algum tempo pensando nas redes de relacionamentos e histórias pessoais que se cruzaram antes de eu ter nascido. Se pudesse fazer uma única pergunta a eles seria está: valeu a pena viver? Se alguém consegue achar uma resposta afirmativa para isso seja por meios religiosos ou não –  como o índio a que você se referiu – a morte não será um problema. Mas como diria Hegel, “a coruja de Minerva levanta voo somente ao entardecer”.  As penúltimas palavras sobre a morte podem e devem ser dadas pela razão, mas, diante de todo o antropoformismo que de que ela é carregada, para nós o último passo em direção a cova será uma posta de fé, seja na própria razão, numa divindade ou no nada.

É justamente por isso que penso que as religiões sejam bengalas existenciais diante do medo da morte, uma tentativa de suprimir ou ao menos amenizar esse medo fazendo-nos suportar psicologicamente e socialmente o fato de que um dia todos nós iremos morrer. Contudo isso não significa nem de longe que essas respostas encontradas pelas religiões sejam sadias, pelo contrário, uma vez que a morte age como uma ferida na existência temos uma relação traumática com ela e isso vai se refletir nas religiões. Max Muller, considerado o criador da disciplina de ciência comparada da religião, tinha uma definição interessante para a religião, ele a definia como uma “doença da linguagem”. O que não passava de um nome nomen tornou-se uma divindade numen. Talvez o homem na sua relação traumática e doentia com a morte tenha por meio da linguagem manifestado isso na religião. Mas isso é uma conjectura que carece de uma boa base.

Bruno Oliveira: Você acha que a pergunta pela validade da vida poderia ser respondida? Digo, mesmo pensando num fantasma que volte para te responder o que ele pensa agora sobre o que viveu, por exemplo, você acha que alguma resposta poderia ser satisfatória?

É que isso me lembrou de uma anedota sobre o Beethoven em que, depois de tocar uma peça, alguém lhe teria dito: “é linda, mas o que significa?”, e em resposta ele teria voltado ao piano e executado tudo de novo. Em suma, o fantasma poderia voltar e dizer que sim, que a vida valeu a pena, ou dizer que não, que a vida não valeu a pena, mas talvez o único modo definitivo de responder isso seria te levar pela mão para vivenciar toda a vida dele. Aí, depois de viver tudo tal e qual aconteceu, você não diria nem que sim nem que não, você apenas entenderia o que foi viver sendo ele, e essa seria a resposta das respostas, a que responde tudo e não diz nada.

Não sei se fui muito claro, mas quero dizer algo como “faz sentido julgar a vida?”.

Mailson Cabral: Acredito que a pergunta sobre a validade da vida não possa ser respondida satisfatoriamente. Meu devaneio com fantasmas tem mais haver com a minha vontade de que haja uma resposta convincente, o que no fundo esconde uma outra questão ainda mais complicada e sem explicação para mim: por que alguma coisa existe ao invés do nada?

Não sei se faz sentido julgar a vida, mas não passamos pela vida isentos de fazer juízos sobre ela. Uma vez que a vida humana está exposta a constante mudança, ora boa, ora ruim, não há uma trama precisa, a não ser o desfecho com a certeza da própria morte. Isso me lembra de um trecho do Carmina Burana: A detestável vida/ Ora oprime/ E ora cura/ Para brincar com a mente/ Miséria/ Poder/ Ela os funde como gelo.

Diante disso, faz sentido não julgar a vida?

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