Diálogos sobre a religião e a morte (Parte I)

Basicamente, o texto que segue é um diálogo entre colegas.

Ele constitui a primeira parte de um diálogo entre eu e o Mailson Cabral (do Templo e Taverna) a respeito do tema da morte, englobando religião, filosofia e coisas mais. A ideia foi fazer um diálogo franco e sem grandes rodeios, em que pudéssemos expor nossas posições e inquietações sobre o assunto sem necessariamente concluir uma verdade ao fim. O resultado vocês podem acompanhar logo abaixo.

Mailson Cabral: O que é a morte? Por que ela é o nosso inevitável destino? Talvez seja fácil responder de um ponto de vista fisicista: somos seres vivos e estamos sujeitos à degradação. Mais cedo ou mais tarde iremos parar de funcionar. Mas isso não revolve o problema. O fato de sabermos nosso curso orgânico não elimina as angústias existenciais, uma vez que faz tempo que sabemos disso e nossa existência tem sido marcada não por uma capitulação diante da morte, mas por uma recusa a aceitá-la em sua crueza.

O problema da morte e o que ela representa é uma questão que nos persegue na história e entre as diferentes culturas, sempre numa tentativa de significá-la. Toda sorte de ritos e interditos foram criados no sentido de nos auto-convencer que a morte não é a realidade última das coisas. Até onde a antropologia conseguiu nos mostrar, as nossas crenças religiosas estão diretamente ligadas – ou tem como um dos seus pontos centrais – o destino no homem após a morte.

Nesse sentido, mesmo sendo cético com relação às religiões, tenho para mim que a morte continua a comportar um profundo mistério para nós e ao mesmo tempo a ser um medo existencial derradeiro. Sendo assim, vejo as religiões como bengalas que criamos a fim de nos sustentarmos diante do medo da morte. E é sobre essa relação entre morte e religião que constitui o motivo do nosso diálogo, Bruno.

Bruno Oliveira: Eu tenho uma dificuldade inicial para pensar a morte que é o fato de que nasci (e, suponho, você também) numa cultura que a esconde e a mascara, sendo assim, quando falamos de morte, ela sempre soa como algo distante e irreal. A morte é sempre uma coisa dos outros, algo de uma circunstância que não é minha. E como estou dentro dessa cultura, fica difícil pensar como seria pensar a morte estando fora dessa origem, abandonando esses pensamentos que normalmente adotamos em relação a ela.

Seria simples dizer que nossa cultura teme tanto a morte que a dissimula como pode, sendo a cultura um “protesto contra a morte”, como diria um filósofo, e acho que não está errado pensar assim, mas tenho dúvidas se a distância com a qual tratamos a morte não seria um sinal de que ela talvez não tenha o peso que lhe atribuímos ou, ao menos, não da forma como colocamos esse peso. Digo isso porque quando penso na morte a primeira coisa que me ocorre é que não há nada para dizer sobre ela, primeiramente, por uma razão epistemológica, que é nossa ignorância, e, segundamente, por uma razão prática, que é o fato de que nenhuma ação pode evitá-la. O que a ideia de morte traz, no entanto, é um condicionante para a vida, ou seja, ela nos coloca certas condições para viver (uma duração, um finitude) e isso tem por resultado incitar os nossos pensamentos sobre o bom uso do tempo.

Todavia, é especificamente o medo da morte que faz com que criemos nossas ilusões, nossos símbolos, nossas mitologias sobre vida eterna? A morte não poderia ser outra forma de medo da vida, da dor, do esquecimento perante os pares e coisas assim? Em suma, minha dúvida é a seguinte: não poderia ser o nosso medo da morte um medo singular e poderoso, mas ainda assim um medo entre outros, interno à vida, e não um “outro” com o qual a comparamos? A morte é mesmo um “outro”? Ou essa é apenas a maneira como a pensamos em nossa cultura?

Mailson Cabral: Também penso que a nossa cultura procura de diversas maneiras esconder e mascarar a morte – talvez isso seja próprio dela – e o quão difícil é pensar a morte fora do contexto em que estamos inseridos, se que é possível chegarmos a esse grau de distanciamento e abstração.

Lembro-me que com relação ao que acontece com o ser humano quando ele morre, há pelo menos quatro explicações nas grandes tradições de para onde vamos: umas dizem que quando morremos nos reunimos aos nossos antepassados em algum lugar sagrado; outra que retornamos para o nada, pois vivemos numa grande ilusão; temos também a perspectiva reencarnacionista em que voltamos sucessivas vezes a esse mundo a fim de nos aperfeiçoar espiritualmente; e por último a crença na ressurreição, bem conhecida por nós.

Trouxe essas ideias religiosas para ilustrar como a morte adquire uma qualidade simbólica diversa para os homens, de modo que por mais que especulemos não conseguimos abarcar a totalidade de significados que podemos dar a morte. Mas penso que uma coisa é certa: não dá para dissociar a morte do medo. Até onde sei o medo não é uma exclusividade da nossa espécie e ele, em toda a nossa animalidade, protege do perigo, mas também pode nos levar a agir de maneira irracional. Tenho para mim que uma das marcas da nossa espécie é justamente uma luta contra o medo. Acredito que nesse sentido o medo da morte seria um entre os vários medos, porém surge como uma afirmação à vida e oposição ao perigo de ser extinto, penso que aí o medo adquire um status carregado de mais significados e importância simbólica do que os outros.

Contudo confesso que realmente não saberia responder objetivamente se a morte se torna um “outro” ou se é apenas como a pensamos em nossa cultura. Perdoe-me por ser tão metafísico, mas o que fica em minha mente é a morte como um peso da ausência de ser alguma coisa. Lembro-me do corvo de Edgar Alan Poe que repete implacavelmente “never more, never more”!

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