“Sócrates era inimigo das pessoa e da sociedade”

Disse assim, desse jeito mesmo que escrevi. Era uma aluna do segundo ano do ensino médio recitando uma redação para uma sala mais ou menos interessada. Disse também outras coisas igualmente curiosas que não convém retomar, inclusive porque ela mesma deve ter esquecido logo depois de falar.socrates-caricature-gary-brown

O inquietante era que em situações diferentes daquela, quando conversava diretamente com seus colegas no intervalo ou coisa parecida, a mesma aluna era bastante comunicativa e dispunha de um conjunto amplo de gírias, gestos e bordões para falar com outros alunos, sendo bastante consciente daquilo que queria expressar; apesar disso, naquele momento em que lia um texto perante a professora, sua fala empobrecia como se ela fosse uma criança engatinhando num idioma novo. As sentenças que construía com vocábulos pouco familiares eram desajeitadas e até vazias de sentido, tal como essa que dá título a esta crônica: “Sócrates era inimigo das pessoa e da sociedade”.

Inquietava-me que a aluna que dizia palavras como “sociedade” e “filosofia” enquanto errava na concordância fosse bem menos esperta que aquela que, em qualquer momento de uma conversa entre amigos, podia evocar um slogan, colocar um palavrão preciso numa sentença e assim exprimir perfeitamente o que desejava. Ora, uma viveria dentro da outra? Elas intercalariam suas aparições como duas personalidades distintas dentro de um mesmo corpo? Como uma pessoa poderia se expressar mal num momento e muito bem em outro?

Eu quis saber, porém, a bem dizer, minha dúvida apenas começava aí. Existiam outras coisas que a aprofundavam.

A primeira delas era que os alunos que acompanhei apresentavam imensa dificuldade em entender conceitos, quer dizer, eles até os entendiam, pois quando um professor dizia “globalização” eles logo devolviam palavras como “desemprego”, “política”, “tecnologia” e mostravam assim captar alguma coisa do assunto, entretanto, esse entendimento era mera transformação do conceito num exemplo específico seu. Como sabemos, “desemprego”, “tecnologia” e “política” cabem tanto no conceito de globalização quanto em diversos outros como “industrialização” ou “capitalismo”, por exemplo, de modo que não são os exemplos que determinam o conceito porém o conceito que determina quais exemplos estão contidos nele ou não. É por por isso que ao utilizamos um conceito primeiramente esclarecemos qual seria o seu significado e, depois disso, passamos a presumir quais exemplos ele abarcaria e quais não.

Durante as aulas, entretanto, ao ouvirem um determinado conceito, os alunos conseguiam pensar em diversos exemplos embutidos nele mas nunca compreendiam como eles se uniam. Para eles parecia impossível entender que uma palavra poderia conter centenas de outras a partir de uma definição.

A segunda coisa a agravar minhas dúvidas era que do mesmo modo como os alunos não entendiam conceitos, eles também eram incapazes de entender grande parte dos discursos que eles próprios proferiam e usavam várias frases cujo sentido lhes escapava. Por exemplo: às vezes, quando a professora fazia uma pergunta à sala, os alunos respondiam imediatamente com duas ou três vezes frases prontas antes mesmo que conseguissem entender (até sonoramente) o que estava sendo perguntado. Falavam num supetão sem pensar naquilo que diziam, mostrando que poderiam utilizar as mesmas frases para responder diferentes questões já que não sabiam o que ouviam, nem o que respondiam.

Conhece-te-a-ti-mesmoEra somente depois de serem problematizadas essas respostas iniciais e demonstradas que reações pré-concebidas não seriam suficientes para responder às questões colocadas pela professora que os alunos eram atingidos pelo estranhamento: o silêncio e a reflexão que envolvem formular uma resposta e não meramente reproduzir uma.

A meu ver, essas duas coisas não diferem tanto. Elas tem uma raiz comum. O problema da formulação dos conceitos não é tão diferente da mecanização de respostas, afinal, o resultado de não se aprender devidamente um assunto é conhecer dele somente aquilo que se foi capaz de decorar. Por isso, talvez o caminho para lidar com eles não seja tão mirabolante também.

O mais inquietante sobre essas coisas é que elas só surgiam quando os alunos eram requisitados intelectualmente pela professora, ou seja, o uso mecânico de suas mentes ocorria somente quando alguém tentava estimulá-las, por mais estranho que seja. Aos olhos da docente, porém, os alunos pareciam indisciplinados e tagarelas, falando um bocado sem dizer nada, por isso, ela os corrigia impacientemente e com certa rispidez, como se quisesse salvá-los antes que o mundo os punisse por sua estupidez; entretanto, aos olhos deles, a professora parecia ignorar as bravas tentativas que faziam de desenvolver um raciocínio complexo, afinal, eles estavam tentando e, ainda que no meio de sentenças desajeitadas, até diziam uma e outra palavra bonita. Ou assim pensavam.

Há uma dignidade invisível nas ações de ambos: um esforço genuíno para compreender e ser compreendido pelo outro apesar de tudo o que nos separa. Foi o que me fez, naquele dia, voltar para casa pensando na fala da menina e continuar lembrando dela ainda hoje.

“Sócrates era inimigo das pessoa da sociedade”…

Quem diria? Que bela frase.

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