A certeza nas Meditações de Descartes

O texto abaixo consiste numa breve comunicação que realizei durante a Oitava Semana de Orientação Filosófica e Acadêmica (VIII SOFIA) da Unifesp. Como tive a oportunidade de atuar na organização de duas edições desse evento, foi bastante agradável poder me apresentar nele este ano.

Basicamente, meu texto expunha algumas problemáticas da História da Filosofia Moderna e da filosofia de René Descates. Como este não é um espaço específico para filósofos, mudei algumas coisas nele visando torná-lo mais acessível aos leitores daqui. Façam um bom proveito.

A certeza nas Meditações de Descartes

1. Introdução

Pretendo realizar aqui exposição parcial de um projeto maior dedicado ao tema da certeza nas Meditações de Descartes e tematizar, a partir dos dois primeiros parágrafos desta obra, em que consistiria a certeza e como ela está ligada ao método da dúvida; mais especificamente, desejo atingir a discussão a respeito da relação entre a certeza e a verdade ao ponderar se ela seria psicológica ou não.

Convém ressaltar que embora esta apresentação aborde o primeiro parágrafo da obra e nele ainda não esteja posto o método da dúvida, não tecerei considerações sobre a existência ou inexistência de uma ideia de certeza quando considerada em separado do método, na verdade, apenas considerarei a certeza a partir de sua ligação com o método.

Quanto à ordem do texto, primeiramente tratarei da motivação apresentada para o meditar, em seguida, da maneira pela qual ele medita, e, por fim, tecerei algumas considerações sobre como esse percurso caracteriza a ideia de certeza, que é o conceito que eu e Descartes desejamos atingir.

2. Uma motivação para meditar

LV287643_NLogo no primeiro parágrafo Descartes diz que: “Há já algum tempo eu me apercebi de que, desde meus primeiros anos, recebera muitas falsas opiniões como verdadeiras” (pág.257). São palavras famosas e é através delas que o filósofo coloca o problema que motiva suas meditações. Ponderemos um pouco a seu respeito.

Sem pretender abordar a diferença entre os conceitos de falsa opinião e de verdade, cumpre no entanto ressaltá-la, quer dizer, cumpre sublinhar que há uma diferença perceptível entre falsa opinião e verdade conquanto já tenham sido confundidas por Descartes; além disso, cumpre dizer que embora o jovem Descartes fizesse tal confusão, o Descartes que escreve as Meditações, por sua vez, percebe existir uma diferença entre ambas e não as confunde. Ele percebe porque já possuiu tanto uma quanto outra.

O filósofo não diz, contudo, como distinguir ambas coisas. Nessa passagem ele tem apenas uma percepção desse engano baseado em sua vivência, e ter uma percepção não é ter uma ciência que distingua falsa opinião e verdade, pois distinguir ambas apenas em função de sua própria vivência de engano é permanecer sujeito ao erro, uma vez que é justamente essa vivência de erro que o filósofo busca superar.

A questão colocada aqui não consiste meramente na posse da verdade (tê-la ou não tê-la), mas em distinguir a verdade da falsa opinião. Descartes não está afirmando que nossas crenças sejam falsas ou verdadeiras porém inquirindo como poderemos distinguir que elas sejam uma ou outra coisa. Trata-se de sair de uma vivência de engano para o conhecimento seguro que permita que saibamos – e não meramente percebamos – o que cada coisa é. É conhecimento das causas do erro e de como reconhecer a verdade sem possibilidade de dúvida ou de erro que serve de motivação para as Meditações.

3. A dúvida como método

A partir da experiência do erro Descartes decide realizar seu projeto filosófico.

Segundo suas palavras, seria preciso se desfazer: “de todas as opiniões a que até então dera crédito, e começar tudo novamente desde os fundamentos” (pág.257). Para tal, ele decide se aplicar com “seriamente e com liberdade” de maneira a duvidar de tudo aquilo que não for indubitável. Assim seria possível conhecer a verdade e atingir a certeza a respeito desse conhecimento.

Aí está a essência de seu método investigativo tal como ele surge nas Meditações. Para melhor entendê-lo abordarei esses dois aspectos implicados nele, a saber, a seriedade e a liberdade. Começarei pela liberdade.

3.1. Dúvida e liberdade

Dado problema colocado por Descartes no primeiro parágrafo, a possibilidade atual do erro e sua indistinção em relação a verdade, segue-se um ato de liberdade por parte dele que consiste na escolha de investigar as causas do problema. Devo ressaltar isso porque perceber o erro e até mesmo postular um modo de vencê-lo não bastaria para que o filósofo meditasse metodicamente a respeito de suas causas, pois, logicamente, nada impediria que Descartes aceitasse conviver com o erro e permanecesse com os enganos que sempre o acompanharam, sendo necessária uma decisão, um ato de vontade em relação ao erro para que ele possa ser desvendado e por fim vencido. É em função disso que Descartes afirma que é preciso não só pensar seriamente mas “com liberdade”, ou seja, com a consciência de que se está empregando a razão voluntariamente para cumprir uma finalidade.

Desse aspecto voluntário da dúvida podemos concluir muito daquilo que ela não é. Indicarei três aspectos sob os quais ela não deve ser entendida.

I. Primeiramente, ela não pode ser uma passividade psicológica, seja como espécie de curiosidade que se dissipará por um motivo qualquer, seja como um capricho que decidirá quando ela começará e quando terminará, pois assim como a dúvida move a reflexão, ela também está submetida aos resultados dessa reflexão e não aos desmandes psicológicos de Descartes.

II. Consequentemente, duvidar não é um estado mas a realização de uma ação que, por suas determinações racionais, questiona voluntariamente alguns gêneros do conhecimento (como as sensações ou as matemáticas).

III. Por fim, examinando mais o aspecto voluntário da dúvida podemos perceber que ela não é aquilo que o senso comum entende por dúvida: certa alternância entre alternativas igualmente convincentes1, pois caso duvidar equivalesse à isso, então as alternativas sobre as quais se está em dúvida teriam que ter o mesmo poder persuasivo sobre Descartes, e o percurso meditativo teria que constatar uma equivalência epistêmica entre os vários gêneros do conhecimento, impossibilitando uma decisão sobre eles. Ora, não é isso que Descartes defende. No seu entender as matemáticas são muito mais confiáveis que os juízos baseados nos sentidos, por exemplo, o que nos permite concluir que não é nesse sentido do senso comum que o termo dúvida é empregado.

Dados esses três aspectos sob os quais não devemos entender a dúvida, torna-se possível compreender um pouco mais do sentido desse termo e notar que a dúvida não decorre meramente dos impasses psicológicos do indivíduo Descartes com sua vida, entretanto, considerando que ela não é psicológica mas opera como um movimento racional das reflexões do livro, seguindo uma direção (ou melhor, uma ordem) de questionamentos, então duvidar constitui um procedimento racional que questiona algo – que testa sua capacidade de fundamentar a verdade – em função de uma finalidade, de tal modo que, tão logo a finalidade seja cumprida, desaparece também a duvida.

Creio que seja suficiente para o meu intento o que disse até aqui a respeito da liberdade.

3.2. Dúvida e seriedade

Além desse aspecto voluntário da dúvida que acabei de ressaltar, do empenhar-se “com liberdade”, ela tem também um aspecto epistêmico dado no empenhar-se “com seriedade”.

descartesComo já dito, o método de meditar envolve radicalizar a dúvida até o encontro da verdade, sendo que já no segundo parágrafo Descartes fala em certeza e em indubitabilidade2, em não mais duvidar a partir de algum momento por ter atingido uma verdade a qual não caiba questionar. A ideia defendida aqui é que investigação deve acabar em algum momento porque aquilo que a suscita exige isso – mas como a dúvida metódica pode satisfazer as condições que sua motivação coloca?

De acordo com a maneira pela qual a motivação para meditar é apresentada, como uma decisão a partir da percepção do erro, decorre dela que sem que atingir a certeza a respeito daquilo que investiga, o filósofo permaneceria passível à confusão entre o que é verdadeiro e o que é mera opinião. Por isso, a indubitabilidade é pretendida dentro do método porque sem ela Descartes continuaria percebendo a distinção entre falsidade e verdade, mas permaneceria sem saber como distingui-las e sem saber se estaria atualmente enganado ou não, ou melhor, permaneceria com um saber incerto do qual ainda seria possível duvidar. Inclusive, Descartes afirma em certa passagem (pág.265) que ou a dúvida prova algo certo e termina, ou prova certamente que não há certeza e termina: ambas as possibilidades implicam em certeza.

A certeza, neste caso, está ligada à ideia de indubitabilidade, à possibilidade de eliminar racionalmente todas as razões para se duvidar do conhecimento de algo. Ter certeza não é ter uma confiança psíquica num determinado conhecimento, mas é reconhecer a partir de um conhecimento verdadeiro a impossibilidade de uma dúvida racionalmente orientada em relação a ele.

3.3. Certeza e indubitabilidade

Caso somemos o aspecto volitivo com o aspecto epistêmico da dúvida, o aplicar-se com “seriamente e com liberdade”, perceberemos que o método defendido por Descarte verifica dubitabilidade ou indubitabilidade de determinado gênero do conhecimento, e ao mesmo tempo constrói as condições para o estabelecimento da verdade e da certeza.

Isso ocorre da seguinte maneira: conforme medita, Descartes é levado a conhecer que as razões que o levam a duvidar de certos gêneros não invalidam outros, que precisarão de uma análise própria, por conseguinte, como cada passo da dúvida apresenta um limite que ela não é capaz de questionar, então mesmo anteriormente a afirmação da primeira verdade encontrada por Descartes ele jamais está na completa incerteza, pois sempre há algo que escapa as razões atuais de duvidar e sobre o qual ainda é preciso meditar. Ainda que o gênero do conhecimento sobre o qual medita atualmente se mostre inválido dada a aplicação da dúvida, tal invalidade não elimina a possibilidade de encontrar a certeza em outros gêneros. Através desse movimento argumentativo são construídas as condições pelas quais será possível afirmar alguma verdade, sendo que o método é desconstrutor na medida em que mostra porque certos gêneros do conhecimento não podem fundamentar a verdade, mas é igualmente propositivo na medida em que apresenta os critérios que deveriam fundamentá-la. Os argumentos contra os sentidos, por exemplo, mostram que a verdade não poderá se basear numa certeza sensível, tanto invalidando os sentidos como fundamento da verdade, quanto apresentando que a verdade não pode estar fundamentada nos sentidos por conta das fragilidades desvendadas pelos argumentos apresentados contra eles.

4. Algumas conclusões sobre a certeza

Creio que tenho agora elementos suficientes para responder as questões que coloquei ao iniciar este texto, a saber, como a certeza se liga ao método, o se sua ligação com a verdade é psicológica ou não e, por fim, o que é a certeza que Descartes pretende atingir. Tentarei respondê-las respectivamente nessa ordem.

Levando em conta as considerações feitas sobre a motivação da dúvida (item 2) estabeleci que o meditar parte da vivência do erro e depois da decisão de se meditar metodicamente sobre ela para vencê-lo. Mais tarde, defendi que a indubitabilidade surge por meio da constatação de que sem ela seria possível incorrer novamente no erro, pois sem que a verdade fosse indubitável, Descartes jamais poderia deixar a incerteza e jamais poderia estar certo de que não estaria incorrendo atualmente no erro (item 3.2.). Disso podemos concluir que a certeza é alcançada como uma exigência de se perseguir integralmente um percurso método, servindo como um modo de cumprir a finalidade posta pelo autor ao fornecer a condição que ele precisa cumprir para deixar de duvidar. Aí está a relação entre certeza e método.

Além dessa relação problematizei igualmente a ligação com a verdade e perguntei se a certeza seria apenas um estado psíquico ou se existiria alguma relação de outra natureza entre ela e a verdade. Responderei isso agora.

Como já dissemos antes (item 3.1.), a dúvida é um procedimento racional, uma ação de quem por sua própria liberdade se põe a duvidar metodicamente para cumprir uma finalidade. Ela não é uma simples imobilidade psíquica diante de alternativas, mas um ato racionalmente meditado, de sorte que quem se afirma logo que um gênero de conhecimento é questionado não é a incerteza imobilizante, mas a razão questionadora que leva a dúvida adiante. Como consequência disso, a dúvida só pode avançar até onde a razão a permite porque duvidar é ter razões para duvidar, e ou a verdade pretendida não é racional e existiriam razões para se duvidar dela, um absurdo3, ou a verdade é racional e não há razões para duvidar dela, sendo que a dúvida deve se esgotar ao encontrar, em algum ponto do meditar, a verdade com e na própria razão. Duvidar racionalmente da própria razão seria um contrassenso, talvez loucura… Se a dúvida pudesse prosseguir para além da razão e questioná-la, então a razão não poderia ser suporte de racionalidade e nem mesmo a dúvida que a questionasse seria racional, mais um absurdo. O fim da dúvida deve coincidir, portanto, com o reconhecimento da racionalidade para a qual não é possível apresentar motivos de dúvidas, perante a qual a certeza mais profunda, engendrada pelo próprio meditar que conhece a verdade, é estabelecida. Aí está a relação entre certeza e verdade, e ela não é psicológica mas filosófica e ontológica.

Por fim, considerando que a certeza não pode ser um mero conforto psicológico, ou uma segurança diante das crenças em que confiamos, mas que surge a partir do conhecimento indubitável, então devo concluir que ela é o reconhecimento racional de que não há nenhuma razão para questionar algo, surgindo por meio de uma racionalidade que encontra a si mesma quando elevada ao seu limite. É essa certeza que Descartes buscou nas Meditações, e é em função dela que foi construída sua investigação filosófica, que pretendo ter melhor esclarecido aqui.

5. Notas

1 Não há nenhuma ideia de curiosidade atrelada à dúvida, por exemplo.

2 Diz Descartes que: “a razão já me persuade de que não devo menos cuidadosamente impedir-me de dar crédito às coisas que não são inteiramente certas e indubitáveis, do que às que nos parecem manifestamente ser falsas”. Meditações, pág.258.

3 Este é o contexto do argumento do deus enganador: posso conceber uma causa que seja irracional? Posso conceber um mundo que seja irracional?

6. Bibliografia

DESCARTES, RENÉ. Meditações, In: Descartes, Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

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