Resenha: Máquina de pinball — Clara Averbuck

Literatura não-massificada não-literária

maquina_de_pinball_1Quando soube do livro de Clara Averbuck me pareceu interessante que ele alcançasse certa notoriedade sem que fosse pelos meios que eu conhecia. A meu ver, existiriam alguns modos específicos pelos quais um livro poderia ser reconhecido: ele poderia ter um grande mérito literário e se tornar uma referência cultural duradoura, ganhando sucessivas reedições; ele poderia participar de uma grande estratégia publicitária e ser comprado e massa pelo público; finalmente, por qualquer motivo que fosse, ele poderia adentrar no sistema formal de ensino, sendo comprado e distribuído entre muitos estudantes. Máquina de pinball, entretanto, faz parte de um outro grupo de livros que sem ser motivado pela grande publicidade ou pelo sistema educacional, também não ganha destaque em função da literatura que contém: ninguém lê Clara Averbuck esperando encontrar uma grande escritora ou um grande livro. O inquietante, no entanto, é que nada disso torne menos atrativo ao público.

Assim, senti necessidade de responder algumas questões vindas dessa reflexão: para quem o livro foi escrito? Como ele atrai o público sem depender da propaganda e da literatura? Tais questões cativaram por algum tempo e será especificamente delas que tratarei nesta resenha, mais que do próprio livro como objeto de fruição. Vejamos no que dará.

Narrativa e trama

Máquina de pinball é narrada por Camila, moça de vinte e poucos anos saída do controle dos pais, que passa a viver ociosamente nas grandes cidades enquanto busca divertimento e sonha em ser reconhecida como escritora.

Sua narrativa é frenética e tenta levar o leitor constantemente ao choque, de modo que a cada página somos apresentados a uma nova estripulia juvenil, uma nova bebedeira, uma nova transa, todas acompanhadas de certa necessidade (um tanto infantil, aliás) de justificar tais ações como parte de um estilo de vida. Diz Camila: “preciso de novidade constante” e durante todo o livro há uma busca por vivenciar emoções extremas, por uma forma literária – repleta de violência, palavrões e expressões em língua inglesa – que atinja com força o leitor.

Uma consequência do choque é que os parágrafos são dispostos como unidades que buscam cativar e impactar o leitor, mas que não contribuem necessariamente para a trama, por conta disso, a trajetória de Camila obedece apenas a ordem de seus monólogos e não ganha ritmo nem grande significado ao longo da obra, apenas acontecendo conforme convém ao pensamento.

Uma segunda consequência é que a necessidade constante de apresentar algo novo se torna repetitiva tanto do ponto de vista da técnica literária, que se resume a pouquíssimos recursos que logo enfadam (como o uso abusivo de apostos e de conjunções substituindo vírgulas), quanto do ponto de vista da própria vida de Camila que embora seja apresentada como pretensamente interessante, apenas imita aquela de milhares jovens e adultos do mundo que fazem sexo heterossexual, consumem drogas baratas e apreciam música pop estadunidense.

Seja do ponto de vista narrativo, seja do ponto de vista da própria história da personagem, o choque limita a personagem a uma experiência superficial presa à determinações externas as quais ela estará repetidamente suscetível. Camila não percebe que a interioridade que orgulhosamente apresenta ao leitor não é somente representada pelas bobagens de sua idade (por suas bandas, por seus amores), mas é igualmente delimitada por tais coisas, sendo que quanto mais cita suas preferências por crer que elas expressariam seu eu interior, mais adota uma ideia de individualidade que não vem de si mas de forças que a constituíram de fora: produtos, movimentos culturais, modas, etc. Ela não nota que mesmo figuras decaídas como a do jovem rebelde, do escritor da sarjeta e do adolescente beberão não são meramente estilos de vida, contudo são também símbolos usados por marcas que fazem dinheiro em cima daqueles que acreditam nelas. Há simultaneidade entre estética e marketing.

Depois de terminar o livro soube que ele foi adaptado para o cinema e para o teatro, então pensei no quanto Máquina de pinball favorece releituras dada a sua forma. Como o livro explora superficialmente a literatura como mídia e há bem pouca distância entre a escrita da autora e da narradora, fica simples repensá-lo em outro formato; diferentemente de outros livros que exploram de maneira mais complexa essa distância e tornam difícil repensar o conteúdo em separado do formato. Uma vez que a obra de Clara Averbuck não vai ao fundo da literatura fincar suas raízes lá, ela conserva raízes superficiais que podem ser facilmente realocadas em outros solos tais como o do cinema e do teatro.

Individualidade e identificação

Expressindividuality

Uma característica importante em Máquina de pinball é a construção da individualidade de Camila através de sua ligação com produtos da cultura tais como certas bebidas, bandas de rock e assim por diante, como se tal individualidade pretendesse se expressar através daquilo com o qual se associa. O raciocínio é o seguinte: eu Camila gosto de coisas legais como x, y e caso você goste delas vai transferir o afeto que tem por elas para mim.

Em se tratando disso, a obra está repleta de citações que dialogam com a cultura do leitor e criam certa familiaridade entre ele e a personagem por meio de referências que são conhecidas mas que ninguém esperaria encontrar num livro. As próprias tomadas de posição da personagens e desejos que ela expressa causam isso, sendo que certa sensação de: “Ah, eu também…” é bastante comum com a obra.

A partir disso, surgem pitadas de feminismo aqui e ali, pitacos sobre relacionamentos, divagações sobre o que é ser mulher, certo antiacademicismo e outras coisas que, quase sempre, aparecem de uma maneira mais simbólica que teórica, quer dizer, não é que Camila seja profunda, talentosa ou interessante, mas que ela (e o leitor) se identifica com símbolos que fazem com que se sinta como tal.

clarah1Para esse processo de identificação e de formação de individualidade funcionar, todavia, é necessário que ele seja superficial, uma vez que a própria personagem não tem muito escondido debaixo desses símbolos e que, ademais, ele não apareça como tal, porém esconda do leitor sua opacidade e apareça de uma maneira mais visceral e cativante,  como uma filosofia de vida. Nesse sentido, Camila reafirmará constantemente que aquilo que ela é e que escolhe ser todos os dias é fruto de seu modo singular de viver e da experiência consequente dele, por conseguinte, quando a personagem aborda seus gostos e preferências ela o faz ressaltando neles aquilo que convém com seu próprio modo de ser e viver, uma ação que serve tanto de elogio daquilo que ela gosta quanto de elogio de si mesma como apreciadora daquelas coisas. Do mesmo modo, quando Camila reclama de determinada normalidade da qual acredita não participar, essa reclamação não constitui uma crítica ponderada ao modo de viver dos outros, porém um autoelogio disfarçado ao seu próprio modo de vida que seria diferente e mais interessante que aquele criticado.

Em função disso a personagem busca constantemente se convencer e nos convencer de certa ideia que tem de si mesma, fazendo com que a narrativa fique tão ensimesmada que, às vezes, é difícil acreditar na narradora. Como ela nunca demonstra interesse por outras pessoas senão no sentido passageiro de transar com elas, além disso, como as falas de outros personagens tem pouco peso no livro e servem somente para ilustrar a própria ideia que a protagonista tem deles, fica difícil, por exemplo, acreditar que ela tenha quaisquer amigos. Cabe perguntar: Camila repara em alguém mais além de si mesma e dos amantes que mantém? Tenho a impressão que não. Também é pouco convincente sonho da personagem de se tornar escritora já que a literatura parece apenas outro símbolo com o qual ela se representa, e igualmente porque o único assunto que ocupa recorrentemente o mundo interior da personagem é ela mesma. Camila escreverá um livro sobre sobre o quê? Sobre si mesma então? Não é preciso responder.

Livro aberto ao público

Faz pouco tempo que a editora Rocco montou um reality show em que o espectador pôde acompanhar online o processo de escrita do livro de Vinícius Campos. Todo o palco estava lá: câmeras, o prazo de um mês, um objetivo, um escritor que é também apresentador de TV conhecido do público e assim por diante.

A partir disso, coloco a seguinte questão: o que atrairia o público ao programa? Arrisco responder que certamente não seriam os méritos literários de Vinícius ou a qualidade daquele livro em particular que ainda seria escrito, entretanto certo aspecto externo, algo que não estaria no livro enquanto considerado separadamente da circunstância que o suscitou. Nesse sentido tal livro é não-literário por princípio.

Particularmente, desconheço a matemática envolvida no caso, no entanto duvido que o livro de Vinícius tenha vendido em quantidades absurdas ou mesmo em números insignificantes. Acredito que ele ganhou sua notoriedade sem se tornar o novo Crepúsculo mesmo porque, conquanto tivesse em torno de si toda uma rede que o divulgasse, não contou porém com uma gigantesca estratégia publicitária que inflasse suas vendas. Tratava-se de algo mais modesto: atingir um público em particular o qual, tendo acesso a certos meios e adorando certos símbolos envolvidos na obra, desejou adquiri-la por se reconhecer nela independentemente dos méritos literários pudesse descobrir. Nesse sentido tal livro é não-massificado, ele não existe como um produto vendido em massa.

maquina1Não pretendo defender com isso que ele seja inócuo, mas apontar que não cabe pensá-lo separadamente dos símbolos com os quais dialoga e que seus leitores procurarão e projetarão nele, ademais, que não cabe pensá-lo sem considerar a imagem que o autor representa diante do público. Vinícius é um apresentador de televisão de programas juvenis, consequentemente, seu livro deve tocar a juventude porque ela é vivida pelo público e, principalmente, porque ela representa um valor para tal público. Por isso seu livro pôde alcançar alguma notoriedade mesmo sem estar ligado a uma vultuosa estratégia de marketing, e ao mesmo tempo sem ter um mérito literário significativo, bastando que represente os símbolos que são valores para determinado público, e é claro, que seja notado por ele a partir dessa imagem encarnada pelo autor. Assim é possível escrever uma literatura não-literária e ao mesmo tempo não-massificada, digamos assim, alcançado notoriedade com ela.

Como vocês já devem imaginar, creio que tal circunstancia seja análoga a de Máquina de pinball.

A respeito do aspecto externo da obra, convém dizer que ainda que Clara Averbuck nunca tenha tido acesso a uma editora que promovesse seu livro ou a um programa em que pudesse atingir um público e ser reconhecida por ele, ela sempre escreveu na internet de uma maneira geral e foi notada por isso, ganhando assim uma identidade pública que é trasmitida ao livro como um valor externo a ele. E é essa identidade que a permite escrever um livro cuja notoriedade independa de uma grande iniciativa comercial, um livro não-massificado.

Já sobre o aspecto interno da obra, retomo que grande parte daquilo que a protagonista expressa serve como uma espécie de simbologia que pretende se articular com a identidade do leitor, consequentemente, o feminismo que puder ser encontrado em Camila não constituirá uma posição teórica ou política mas um símbolo que expressa liberdade sexual, o rock não será meramente um estilo musical amado pela protagonista mas a expressão de uma atitude crítica em relação ao mundo e assim por diante. São esses vários símbolos espalhados pela obra que, fazendo parte do imaginário comum de certo público, constróem sua identificação com o leitor de Máquina de pinball assim como a temática teen do livro de Vinícius Campos fazia o mesmo com seus espectadores. Tais fatores independem da qualidade literária dos livros e permitem que eles pratiquem uma espécie de literatura “não-literária não massificada”.

A partir disso posso retomar as questões iniciais desta resenha: afinal, quem é o público de Clara Averbuck? A quem este livro está aberto?

Considerando que Clara é uma escritora e não uma publicitária, suponho que ela só tivesse uma ideia geral do assunto ao escrever, então, terei apenas uma resposta geral para oferecer: o público de Máquina de pinball é aquele identificado com o que é jovem, isto é, com a busca de expressões definitivas de sua individualidade, e que vê nos símbolos usados pela autora uma maneira de encontrar (talvez até realizar) isso.

Que concluir da obra?

Pessoalmente, o livro de Clara Averbuck não me agradou; considero-o comum e amador. Por mais que sua escrita seja simples e direta, produzindo momentos de humanidade e franqueza, a narradora não vê o quanto aquilo que faz (na vida e na literatura) é repetitivo e entediante, algo que torna a obra cada vez mais difícil de aguentar apesar das poucas páginas.

Creio que talvez por nunca ter sido capaz de ler de outro modo que não fosse procurando pela literatura no livro, é que me pareceu interessante pensar Máquina de pinball considerando a relação entre o livro e o leitor, em vez de analisar os méritos literários do livro dos quais, aliás, duvido. Foi o que tentei fazer aqui. Julguem o resultado pelo conteúdo, por favor.

PS: já escrevi sobre a relação leitor e livro aqui.

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Um pensamento sobre “Resenha: Máquina de pinball — Clara Averbuck

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