Resenha: A visita da velha senhora — Friedrich Dürrenmatt

S> O valor dos valores morais

Dürrenmatt é um escritor superficial. Lendo suas obras encontramos personagens que não são psicologicamente densos e uma maneira de escrever que não impressiona com aquela técnica e com aquela erudição que se fazem respeitar necessariamente. Tal superficialidade, no entanto, não está contraposta ao que é profundo, mas sobreposta a ele: “Quem observou o mundo em profundidade percebe quanta sabedoria existe no fato de os homens serem superficiais. É seu instinto de conservação que lhes ensina a ser volúveis, ligeiros e falsos”1, diria Nietzsche. Nesse sentido, Dürrenmatt é um escritor de superfície, das peles que escondem abismos e tumores. Ele escreve sobre o que aparece e sobre o que é dissimulado nesse aparecer.

1962A visita da velha senhora, pequena obra prima do pessimismo, explora de maneira sofisticada tal superficialidade. Na peça, os personagens são menos importantes por conta de suas personalidades e mais importantes em função de suas ações dentro de um contexto. Quase nenhum deles parece singular demais para não existir ou age de uma maneira muito distinta das pessoas que conhecemos ou que poderíamos conhecer – na verdade, poderíamos substituí-los por rostos familiares com pouquíssimo prejuízo, de tal modo que mesmo naquilo que tem de mais inverossímil a obra carrega certa familiaridade, certo pessimismo franco e desinibido que não nos surpreende, pois está profundamente enraizado na alma podre que vive em cada um de nós.

Enredo

A peça tem um enredo simples: a milionária Zachanassian (pronuncia-se Zahanassian) oferece um bilhão aos cidadãos de sua decadente cidade natal (Gullen) para que matem Ill (prouncia-se Schill), homem que a abandonou na juventude e, durante um julgamento, pagou para que falsários que depusessem contra ela e assim ele não precisasse assumir a paternidade de sua filha.

A barganha é solicitada publicamente: em vez contratar alguém para matar ou ferir seu antigo amante, Zachanassian faz uma proposta a toda a cidade, sendo que a vingança abarcará aquela sociedade como um todo e fará com que ela sujem as mãos em vez da protagonista. Zachanassian não quer que seu antigo amante seja julgado legalmente pelo mal que lhe fez, ou mesmo que o sistema jurídico de Gullen a repare por ter permitido a injustiça em seu interior, bem dizendo, ela deseja que o conjunto das pessoas de Gullen obedeçam ao seu desejo… em troca de dinheiro. Uma justiça comprada – justa?

Moral e justiça

Dürrenmatt é fascinado pelo tema da justiça e em A visita velha senhora (mas igualmente em O juiz e seu carrasco) o conceito é abordado tanto numa acepção moral quanto numa acepção jurídica de uma maneira bem instigante.

A princípio, podemos entender a justiça como um valor o qual daria legitimidade para que certas pessoas determinassem a vida de outras ou de uma coletividade em que elas mesmas se incluem. Desta maneira, alguns são punidos por comportamentos considerados inadequados perante o conjunto da sociedade, e aqueles que não cometem tais comportamentos são considerados merecedores de julgar quem os comete. O valor da justiça cria uma hierarquia que legitima que certas ações sejam possíveis para uma instância dessa hierarquia, mas não para a outra: o não-criminoso, o não-imoral julga o criminoso e o imoral, mas não é julgados por eles.

Além desse sentido valorativo ou moral, entretanto, também podemos entender a justiça como uma instituição, um centro de poder instituído e preservado pela sociedade para manter e aplicar esses valores de justiça defendidos por ela, como a polícia, as leis e os tribunais. Uma vez que as instituições dependem dos valores sociais (como o de justiça), segue-se disso que caso tais valores mudem as instituições que os mantém também mudarão.

A_VISITA_DA_VELHA_SENHORA_1266977309PBasicamente, o que a peça de Dürrenmatt faz é perscrutar em que estaria fundamentada a justiça como valor (e, por conseguinte, a justiça como instituição que lhe é consequente). Ela questiona como formamos nossos juízos acerca da justiça e em que estão assentadas as instituições que defendem nossas conclusões.

A exemplo disso, Ill percebe determinadas mudanças nos moradores de Gullen, cada vez mais gastadores e otimistas com o dinheiro que virá (embora acreditem que a situação se resolverá sem violência) e passa a sentir que o dinheiro vai vencer a moral. Para o desespero do personagem, eles não parecem notar que, sutilmente, acostumam-se a ideia do crime do mesmo modo como se acostumam com um sapato novo e com mais dinheiro no bolso. Isso faz com que Ill recorra à polícia, depois à política e por fim à religião para tentar sobreviver, entretanto, todas essas instâncias estão convictas dos valores da cidade e acreditam que ninguém o matará… Será que não enxergam o que acontece?

Na peça, o valor moral é, por um lado, a consequência de uma maneira de ver e viver que se adapta de acordo com a conjuntura e com a conveniência, um conjunto de crenças que organizam o mundo a partir dele mesmo, os valores iniciais dos cidadãos; e, por outro, é igualmente uma reação aos desmandos da realidade, uma maneira de justificar suas próprias ações perante a possibilidade (ou necessidade) de fazê-las, a moral transformada pelo dinheiro e pela conjuntura.

É comum que queiramos ou precisemos fazer coisas horríveis, mas como fazê-las sem permitir que todos considerem aceitável fazer a mim o que fiz ao outro? Como estar isento daquilo que pratico? Como receber o montante da milionária e ao mesmo tempo matar sem ser preso ou hostilizado tal qual um pária? Na trama, ninguém deseja matar Ill e pagar sozinho o preço desse ato, tampouco o próprio Ill aceita se suicidar para fazer o mesmo, o que obriga que a totalidade da sociedade cuide gradativamente de permitir tal ação por meio da abertura de uma exceção na moral vigente. Apesar disso, embora tal permissividade ocorra em função do assassinato, ela comporta somente esse assassinato (como uma exceção), de maneira que tal crime continua sendo tão proibido como era antes. A transformação conforme a necessidade ou conforme a conjuntura parece ser o movimento natural da moral.

Trata-se de uma sugestão sombria feita pelo autor: se a moral é elástica e pode ser modificada para abarcar o que a contraria mas que nos é conveniente, então ela está sempre à serviço da conjuntura e construir valores é um modo de justificar nossas circunstâncias perante nós mesmos. Valores como a justiça existiriam como uma espécie de capuz sobreposto às motivações e às ações que cada um pratica como convém. Sendo assim, permitir o assassinato não destrói a moral porque aqueles que pretendem matar não querem ser criminosos, nem mesmo assassinos perante os outros, e por que estes outros precisam de criminosos e assassinos que matem por eles, consequentemente, precisam de uma moral que aceite assassinos e criminosos, que determine em que circunstâncias suas ações serão legítimas. Precisamos de uma moral porque, vivendo em sociedade, sempre precisaremos de uma justificativa para fazer ao outro o que não queremos que nos façam. A exceção é a essência da moral.

Pessimismo

Ao apresentar todo esse pessimismo em A visita da velha senhora, Dürrenmatt não está defendendo uma proposta política, porém descrevendo o que ele pensa que seja a essência do mundo social.

lox_Durrenmatt_23-0_726059aA esse respeito, sua ótica difere, por exemplo, daquela de Bertold Brecht, que pratica um teatro bastante próximo do seu, mas que defende uma proposta política revolucionária que não faz qualquer sentido na ótica de Dürrenmatt. Ainda que ambos os autores façam certo desmonte das relações sociais e morais em suas obras, enquanto Brecht quebra a naturalidade do nosso estado de coisas para demonstrar sua fragilidade, sua convencionalidade, e assim defender seu caráter histórico e transformável (o que o levará à política), Dürrenmatt pretende demonstrar o movimento que faz existir esse estado de coisas e os modos pelos quais justificamos que ele exista (o que o levará à filosofia). Por isso, o teatro de Dürrenmatt não é chocante no mesmo sentido em que é aquele de Brecht, pois enquanto Brecht desfaz as ilusões de que nos alimentamos e desnuda sua arbitrariedade e possível transformação, Dürrenmatt sempre as mantém vivas enquanto ri delas por serem apenas isso: ilusões, enganos que podem viver inclusive nos novos modelos sociais, sejam mais ou menos revolucionários. Não há redenção, altruísmo ou revolução que que nos salve da humanidade.

Mesmo os personagens de A visita da velha senhora não exibem qualquer consciência individual ou coletiva que os faça – como um grupo ou sozinhos – mudar sua realidade imediata. Exceto por Zachanassian, que tem dinheiro suficiente para não se sujeitar a qualquer imperativo social, e por Ill, que está atemorizado pela possibilidade de morrer, todos os outros são arrastados pelas determinações da circunstância, possuindo apenas a liberdade de se iludirem como puderem. Apenas o casal tem direito à personalidade, a um modo de agir que lhes seja próprio e que interfira nos rumos da trama; só eles conseguem conversar francamente a propósito da morte e do destino que aguarda cada um… Mas Ill não tem dinheiro ou poder para mudar nada – liberdade para quê então?

Nessa peça extraordinária, Dürrenmatt parte de uma perspectiva que não respeita as ilusões que cada um conta para si a fim de suportar a vida. Ele frequenta aqueles mesmos abismos que frequentaram Machado de Assis, Lars Von Trier e tantos outros que conseguem enxergar o mundo através de um pessimismo tão radical, mas tão radical, que os possibilita fazer arte acerca de tudo o que existe – seja belo ou horrendo – com a maior naturalidade e a maior indiferença, justamente porque foram ultrapassadas todas as perspectivas de salvação.

Quem aprecia o que estes monstros produzem pode até se iludir e acreditar que em suas obras há espaço para redenção, que nem tudo é tão negro assim e que, apesar dos pesares pesando tanto, sempre há esperança para o que é humano… Bem, talvez esses até tenham certa razão e eu esteja mesmo exagerando, porém hoje o mundo parece apenas sombrio, violento e perdido. Caso o futuro traga alguma esperança e prove meu engano, ficarei feliz em seguir todos vocês para um mundo melhor, mas hoje, meus caros, aceito sem ressalvas a presença de Dürrenmatt e endosso que as esperanças que vocês carregam são apenas ilusões: só há abismo e o respiro antes da queda. Inspirem bem forte antes de se jogar.

1Nietzsche, Friedrich. Para além do bem e do mal, seção 59.

PS: fiz uma tradução desse texto para o francês aqui.

Anúncios

Um pensamento sobre “Resenha: A visita da velha senhora — Friedrich Dürrenmatt

  1. Pingback: Analyse critique: La visite de la vielle dame — Friedrich Dürrenmatt | Ao invés do inverso

Ouse dizer o que pensa

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s