Sobre o furto de livros

Uma das coisas mais deploráveis que descobri na universidade foi o quão comumente alunos furtam livros. Seja em bibliotecas universitárias, de bairro ou mesmo em feiras de livros e outros eventos assim, é frequente que universitários em grupo ou individualmente surrupiem livros de todos os tipos e valores, que serão lidos, trocados ou vendidos mais tarde.

Nunca me passou pela cabeça que encontrar em sebos, vez e outra, obras que tivessem carimbos de bibliotecas poderia significar algo mais que uma ou outra pessoa esquecida, que mudou de cidade e não a devolveu no tempo certo, vendendo-a mais tarde. Não pensei que as pessoas pudessem furtar livros do mesmo modo que furtam outros artigos, inclusive criando técnicas diversas para fazê-lo.

O que mais me espantou em relação a isso, entretanto, não foi tanto o furto ou a sofisticação técnica envolvida nele (ouvir conversas sobre como fazer melhor, etc.), mas o fato de que os ladrões possuíam mil justificativas para seus atos e não tinham muito constrangimento em declará-las publicamente. Todos aqueles que conheci que confessavam, de uma maneira mais ou menos aberta, furtar, afirmavam ter motivos para tal, o que supostamente faria com que o furto fosse justo e (vejam só) até filantropo. Em geral, alegava-se que o livro seria melhor aproveitado agora que estava com pessoas que realmente o leriam e que poderia ser repassado a quem estivesse ao redor delas, ao passo que, no cárcere da biblioteca, só restaria à obra apodrecer numa estante solitária sem encontrar um leitor sequer. Estou omitindo, é claro, aquelas desculpas que envolviam menções ao capitalismo, ao lucro dos empresários, à corrupção do governo e à opressão do proletariado… Essas eu fiz questão de esquecer, são demais para mim.

imagesA biblioteca de minha universidade tem grades, muitas grades. Todas as manhãs as barras de ferro estão lá antepostas entre as pessoas e os passarinhos – eu as odeio, todas elas, e suspeito que a maioria das pessoas, aquelas que não gostam de viver enjauladas e não dão motivos para que queiram prendê-las, as odeiem tanto quanto eu. Mas pouco importam os nossos muxoxos: sem as grades os livros voam janela à fora….

A meu ver, furtar livros é cretinice, apenas cretinice. Só isso: cretinice. E pouco importa que ela esteja travestida com uma justificativa imbecil porque, na verdade, tal justificação só existe para disfarçar a má fé que envolve o ato.

Apesar disso, para aqueles que pensam poder justificar isso, apresento três argumentos contrários a essa posição; mas aviso logo que não se enganem muito com eles, pois tais argumentos são tão falsos quanto as opiniões bobocas que embasam o furto de livros, no fundo, não acredito neles, em nenhum deles; acredito que ladrões de livros são cretinos; os argumentos apenas ilustram isso.

1. Primeiramente, porque livros são um bens de uso coletivo, úteis a muitas pessoas, tal como um orelhão ou uma ambulância, logo, o furto lesa não somente um indivíduo ou grupo pequeno, como é o caso do furto de bens privados, mas um grande grupo (todos os leitores da biblioteca), que sai prejudicado pela perda do acesso ao bem. Bem dizendo, aquele que furta conhece apenas sua própria motivação ao furtar, apenas os motivos que tem para praticar o roubo, e quando torna um bem público um bem privado, não sabe quais os usos as outras pessoas fariam daquela obra. Há livros que tem prefácios com observações importantíssimas, ou com notas valiosas no correr das páginas as quais ajudam deveras o leitor, sendo que, frequentemente, as pessoas procuram não só por um título específico, mas por uma edição específica de determinado título. E ela não estará lá… O ladrão ignora isso, ele supervaloriza suas necessidades em detrimento daquelas dos demais.

2. Segundamente, porque alguém paga a conta pelo livro que foi levado embora e, no mais das vezes, não serão pessoas que mereçam isso. Se o livro for de biblioteca, pior ainda, pois a cobrança cai sobre os contribuintes (incluindo o próprio ladrão, caso a biblioteca seja pública ou da própria universidade privada onde ele estuda) e sobre os pobres dos funcionários locais, que tem que explicar o sumiço da obra e até se responsabilizar por ele (em feiras de livros, por exemplo). Não será apenas o caso de comprar a obra novamente, porém de explicar por que o furto foi possível e como será minimizado o número de ocorrências semelhantes, sendo que minimizar comumente significa cercear a liberdade dos frequentadores a fim de evitar novos espertinhos.

3. Finalmente, porque mesmo que, depois de furtado, o livro seja emprestado para várias pessoas e cumpra sua função de ser lido, ele ainda estará sendo acessado somente por aqueles poucos que conhecem seu novo dono. Bem dizendo, o critério de empréstimo é completamente arbitrário, partindo daquele que o roubou e não tendo nenhuma legitimidade perante as demais pessoas que contribuíram (com impostos, mensalidades ou com trabalho) para que o livro estivesse disponível a todos. Roubar livros é crime, as bibliotecas são locais de acesso coletivo, feiras de livros comerciam produtos que pertencem as empresas: nada disso é respeitado por um ladrão, ele apenas institui sua vontade sobre os demais baseado em seus próprios motivos subjetivos, atropelando aquilo que é instituído pelo coletivo apenas porque ele, o ladrão, quis assim.

Cretinice, apenas isso.

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2 pensamentos sobre “Sobre o furto de livros

  1. De fato é uma atitude absurda, imoral. Uma privatização de bem público. Sua postagem serve como mote para que eu conte algo que presenciei, tempos atrás: estava no ônibus, entretido com meus pensamentos. Em certo momento olho para os bancos do lado da porta e deparo com um homem com dois livros em cima da mochila, eram os dois volumes dos Irmãos Karamazov, da Editora 34. O sujeito falou alguma coisa pelo celular e depois passou a descascar, cuidadosamente, a fita adesiva e a etiqueta de identificação dos livros. Como estava extremamente concentrado na tarefa, não percebeu que estava sendo observado, de modo que fiquei olhando por uns 2 ou 3 minutos. De súbito, nossos olhares se cruzam por ínfimos segundos e viro o rosto. Percebo que sujeito fez uma cara de poucos amigos, tipo “o que é que está olhando?”, mas só ficou nisso e prosseguiu com sua atividade. Chega meu ponto e desço.
    Senti vontade de intervir de alguma forma, mas como o sujeito não era dos mais simpáticos, não estava disposto a bater boca e ouvir impropérios. Fico imaginando qual seria a justificativa injustificável do homem: alguma dívida, uma despesa de emergência ou apenas para consumo próprio? Teria consciência do ato lamentável que estava praticando, um roubo (mesmo que ele não tenha furtado o livro, estava sendo conivente)? Será que tinha filhos em idade escolar? Valeu a pena financeiramente? Tudo isso passou por minha cabeça.
    É o que tenho a dizer, no momento, sobre o assunto.

    • Acho que eu também não saberia o que fazer….

      O que mais me irrita, acho, é quando a pessoa sabe que está fazendo algo que ela mesma tem motivos para condenar, para não fazer, e mesmo assim encontra justificativas artificiais para manter sua atitude porque esta a beneficia.

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