Meu medo do inferno

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Algumas pessoas ficam estarrecidas quando ouvem que não acredito em deuses. Creio que se trata de uma reação curiosa, principalmente porque  pelo que sei  eles também nunca acreditaram em mim. Somos ateus uns dos outros e, tenho fé, temos vivido bem assim.

No inferno, porém, eu sempre acreditei.

Não foi por acaso que as provas da existência de deus e a Suma Teológica atormentaram meu espírito cético durante os anos de graduação fazendo com que a danação sempre pairasse no meu horizonte, lembrando que eu poderia estar errado e que a verdade poderia, um dia, vir se vingar de mim. Nem todo fogo, nem toda fumaça ou gritos fizeram com que o inferno parecesse menos nítido: tratava-se de uma realidade inconfundível e inescapável.

Certa vez, uma psicóloga (ou psiquiatra?) até perguntou: mas quem foi que te contou do inferno? Respondi que não sabia e, bem dizendo, mesmo hoje continuo sem saber. Acho que não foi ninguém em particular, mas que apenas aprendi uma palavra cotidiana que, com o tempo, foi significando coisas diferentes e terríveis para mim.

Na infância, minha ideia de inferno era que Deus fosse católico como os papas e os inquisidores, figuras sumamente temíveis, no entanto eu temia também que a Bíblia tivesse razão e que a razão do mundo coubesse num único livro cruel e assustador. Isso me atormentou por muito tempo e fez com que eu sempre temesse escolher o lado errado da religião, mesmo que no fim das contas eu considerasse todos os lados certos um tanto horripilantes.

À medida em que cresci, o inferno passou a ter significados distintos os quais sempre expressavam o temor daquilo que é definitivo, o medo de pagar em absoluto pela vida, como as pessoas que são presas sem que tenham culpa, ou os fetos que crescem disformes porque os pais carregam doenças que ignoram. Acho que a danação me causou um imenso medo de errar, gerando certa hesitação e certa covardia diante das escolhas da vida, que nenhum bem tem feito. Com isso, nos meus vinte e seis anos creio que a melancolia é o sentimento mais verdadeiro que já experimentei – depois dela, o tédio, tenho certeza.

Voltando à danação, os deuses, como tinha dito, nunca acreditaram muito em mim. De todos aqueles que cultuei, nenhum jamais esteve interessado o suficiente no meu ser para dar as caras e dizer que existia, passar aqui em casa num mês sombrio e impedir a vida de ser um arrastar pesaroso do berço à tumba, sendo assim, parei de rezar e acho que isso matou todos, ao menos dentro de mim. Um lugar a menos para que passeiem.

Vi deuses morrerem e fiquei mais laico, porém o inferno continuou comigo por muitos anos, ainda que sem Lúcifer, sem espíritos e sem religião. Encontrei outras formas de mantê-lo vivo enquanto ele me aquecia.

Apesar disso, tenho sentido que suas chamas estão cessando e inflamado menos minha alma, que sua fumaça se dissipa e permite que eu veja melhor quem eu sou por detrás da escuridão que ela causa. Tenho pensado que, talvez, quando as nuvens negras desanuviarem por completo e nada mais cobrir meus olhos e poluir meu pulmão, verei se o que fiz da vida tem sido assim tão definitivo ou não. Se a danação é inevitável ou somente um modo de viver, um modo em que tenho frequentemente vivido. Sinto que estou prestes a perder o meu medo do inferno e que, quando esse dia chegar, talvez eu possa dizer que vivo minha vida como um ser humano digno e não que, nas chamas que atravessei, apenas queimei como carvão.

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