O triunfo do cinema

Foto0013Creio que cá no século XXI serei apenas eu a lamentar o triunfo absoluto do cinema como forma de arte. Sou, talvez, o único homem deste século que lê com mais celeridade do que assiste um filme, pois abandono as películas com tédio e é somente com vagar que volto até elas. Aquelas imagens que não precisam de nenhuma conquista, que se entregam como meretrizes e que se exibem a mim sem que eu seja necessário afetam deveras minha fruição… Por sinal, que tipo de arte é essa que prescinde de quem a aprecie? Uma película é desvelada (ou melhor: desvela-se) inteiramente sem que um espectador sequer precise assisti-la, bastando um apertar de botão, um toque frio num instrumento mecânico, que ela se entregará ao vazio. Sua performance automática ocorrerá do começo ao fim – à medida de seu ritmo – sem que venha a se apressar um passo sequer pela vergonha de fazê-lo para ninguém. Consequentemente, tendo o espectador fruído ou não, existindo um espectador ou não que veja o filme, a película encerrará o que propôs fazer no tempo que ela mesma estipula para si.

A literatura, por sua vez, é sempre caprichosa e sofisticada: jamais se entrega facilmente e nem a qualquer um; nunca se desvela sozinha e só faz sentir sua presença caso seja verdadeiramente possuída. Ela precisa ser desnudada com olhares, toques e um extenso uso da imaginação que deve conquistá-la e também ser conquistada por ela. A literatura está para as grandes amantes. Um leitor medíocre não avança além das primeiras páginas da Ética de Espinosa, tampouco entende a necessidade de fazê-lo (apesar disso, certas leituras continuam impenetráveis aos melhores cortejos e não conseguimos conhecer sua natureza complexa e apaixonante. Dessas não fruímos, mas aprendemos com ela uma lição: é a literatura que escolhe seus amantes; não o contrário); ao passo que um espectador medíocre não precisa sequer estar acordado para acompanhar O sétimo selo inteiramente.

Por tudo isso, creio que não seria leviano afirmar que o triunfo cinema seja também o triunfo dos preguiçosos e dos feios, daqueles que não agradam mas querem ser falsamente agradados, daqueles que são rejeitados por estarem aquém de quem desejam possuir, dos que pagarão por quem fingirá diante deles como fingiria diante de quaisquer outros. Cinema é meretrício: ele existe a partir da fruição de quem nada tem que devolver ao amante e só quer lhe exigir, sendo que é pela falta de relação, pelo isolamento da obra quanto ao espectador, que triunfa o cinema.

Sua vitória atesta o quão somos feios e preguiçosos, amantes terríveis que só podem possuir uma arte que se alimenta de nosso vazio.

PS: não sei se acredito nessas coisas todas… Trata-se apenas da extrapolação literária de certo incômodo que tenho com o cinema.

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6 pensamentos sobre “O triunfo do cinema

  1. Pingback: Ao invés do inverso, quatro anos | Ao invés do inverso

  2. Achei o blog e o post completamente por acaso, talvez o comentário não seja lido, mas como amante das artes em geral, sinto que é meu dever defender o cinema.

    É verdade que o cinema é uma forma mais “automática” que a literatura, que acontece para o espectador e não com ele. Contudo, o cinema que apenas acontece é vazio e falha em sua função artística, é a interpretação que o faz arte. Assim como é a interpretação que faz da literatura arte. Qualquer um pode passar os olhos pelas palavras de Dostoiévski, qualquer um pode passar os olhos pelas imagens de Buñuel; nesse sentido, qualquer um também pode encarar um quadro de Degas ou deixar que seus ouvidos captem as emissões sonoras de uma composição de Stravinsky. Creio que a parte em que você diz que não é necessário estar acordado para ver O Sétimo Selo tenha sido um exagero, até porque quem dorme não assisti o filme, da mesma forma que não lê – se o filme passa ou não enquanto isso, não importa; o livro também, desde que é comprado, já vem com todas as suas páginas e eu posso muito bem folhear sem receber o conteúdo. Quando não há uma conexão emocional entre a arte e o seu espectador, o ato de estar presente enquanto ela passa perde a importância. As coisas (filmes, livros, quadros etc.) apenas são, o sentido é responsabilidade de quem vê.

    Vale apontar também que há mediocridade, e até coisa pior, na literatura como em qualquer outra forma de arte, tanto de leitores como escritores. Você escreve como se a maioria dos preguiçosos se dessem o trabalho de sentar em frente à uma hora e meia de imagens que acontecem quando filmadas por Godard e, portanto, o triunfo do cinema fosse devido a eles, quando é bem verdade que os preguiçosos gostam bem mais de um Paulo Coelho. Falando em Godard, posso até citar um exemplo pessoal recente quando assisti o seu Ave Maria (1985). As imagens aconteciam, mas se eu não estivesse atento, pensante, não faria ideia do que estava acontecendo. Posso até dizer que, mesmo estando tão atento quanto eu estaria lendo um livro, ainda não consegui interpretar todos os seus significados. É um filme misterioso, provocativo, filosófico, mas apenas para os que se mantiveram acordados enquanto ele se apresentava.

    Pode ser até que seja melhor se dedicar a apreciação de apenas uma arte, afinal cada uma delas é vasta o suficiente para ocupar mais que toda a existência de um indivíduo. Eu, pessoalmente, acredito que todas as formas de arte estão conectadas e se comunicam o tempo todo por meio de influências e referências. Apreciar um pouco de tudo é um malabarismo de insatisfação eterna, mas foi o que me aconteceu. Acredito na arte – em todas as suas formas e expressões – como uma amante livre, pra fazer uso da sua própria metáfora, e a acompanham aqueles que são capazes e ao mesmo tempo ninguém a domina. Uma ingrata, canalha, libertina, musa, divina, que te vicia sem nunca te deixar satisfeito. Antes que eu escreva um livro, vou encerrar por aqui, até porque, no fim das contas, é tudo uma questão de gosto..

    • Oi, Raphael,

      Sinta-se confortável para comentar sempre, eu só demoro para ler por conta dos encargos normais da vida ou porque estou considerando uma boa maneira de responder.

      Acho que você tem razão e que é aquilo que vem de dentro do sujeito que acaba fazendo a arte ser arte. O principal problema do texto, pensando aqui, é tentar apontar algo no cinema que supostamente não existiria na literatura e que, em função disso, a tornaria uma arte menos passiva, mais construída pela interioridade do espectador.

      Apesar disso, embora o texto seja sobre o cinema como arte e, nesse sentido, seja inválido pelos motivos apontados, fico pensando se ele não continuaria válido se pensarmos no triunfo do cinema como produto de massa, pois nesse sentido os motivos que fazem do cinema um produto de sucesso são distintos daqueles que fazem o mesmo com a literatura.

      O que você acha?

      • Sei como é, demorei pra responder pelos mesmos motivos.

        Concordo que o triunfo do cinema como mídia é devido a popularidade como produto de massa. Sim, é um mercado milionário. Mas o cinema não é visto como arte por causa de Armageddon ou Titanic. Nomes como Bergman, Truffaut, Kubrick (que dependeu da literatura durante toda a carreira), Godard, Glauber Rocha etc. Pra mencionar nomes atuais e ativos: Jim Jarmusch, Wong Kar-Wai, Paolo Sorrentino (cujo A Grande Beleza é meio que uma declaração de amor à arte em tempos de superficialidade). Esses e vários outros são os cineastas que exigem a participação do espectador, que tornam a interpretação do filme um ato ativo e interior.

        E qual arte, afinal, não se tornou um produto de massa de sucesso? A literatura com certeza se tornou. Falemos do hoje, já que a literatura é uma arte muito mais antiga que o cinema e uma comparação temporal não seria cabível. Paulo Coelho, Nicholas Sparks, incontáveis livros juvenis que poderiam ser fundidos em um mesmo autor sem nome, Danielle Steel (golpe baixo citar livros de banca, mas eles existem e vendem mais que Nabokov, isso é fato). Eu poderia passar a vida citando autores sem nenhum talento ou valor artístico aqui, ainda a literatura é uma arte. Porque no meio desse lixo (e, repito, vou citar nomes contemporâneos por uma questão de justiça) às vezes surge um David Foster Wallace, um Sérgio Sant’anna, um Roberto Bolaño (e agora eu reparo que dois dos meus nomes contemporâneos estão mortos), um Antonio Lobo Antunes, Thomas Pynchon, Karl Ove Knausgaard (cuja série Minha Luta eu não estou conseguindo largar) e tantos outros. Se voltarmos na história, sim, a literatura tem muito mais importância, com isso eu não vou discutir. Talvez até possa ser considerada uma forma superior de arte, apesar de eu achar o termo “mais sofisticada” um pouco mais preciso. Mas o cinema não deixa de ser arte por isso.

        • Sim, concordo com a validade artística e com o fato de que ambas as artes acabam comportando desde seu surgimento uma quantidade enorme de porcaria e coisas sublimes, ao mesmo tempo.

          Agora o que não sei bem é se dá para dizer que os mesmos motivos que tem o cinema para triunfar como produto, tem também a literatura. É claro que ambos triunfaram como produto, que ambos jactam produtos da mesma qualidade (bons, ruins, o que for), mas os motivos para que tenham triunfado dessa forma são os mesmos para ambos?

          Nesse ponto eu realmente não sei.

          • Ah, motivos eu acho que são sempre os mesmos: dinheiro e gosto popular.
            Vale lembrar que na era de ouro do romance, popularidade e qualidade andavam lado a lado. Talvez porque o povo fosse mais atento, com menos distrações o tempo todo, então Balzac, Stendhal, Charles Dickens e todos aqueles russos conseguiram criar seus romances monumentais e exemplares até hoje e ao mesmo tempo ganhar dinheiro. O cinema teve esse tempo – uma “era de ouro” – também, com Eisenstein, John Huston, Billy Wilder. Não é uma arte que é diferente da outra – quer dizer, é diferente, mas eu acho que a essa altura você entendeu o que eu quis dizer -, é o povo que fez a arte se transformar e só um meio de entretenimento. Hoje mais que nunca, o artista, independente do meio, está atado a grandes produções, a ponto que poucos conseguem manter algum controle criativo. Aí é mais lucrativo ao artista largar a arte e aprender a amar o dinheiro. Uns não fazem e estão aí, né?, dando um jeito.

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