Sobre as críticas de Rafael Menezes (mais)

Seguem abaixo minhas considerações a respeito do texto de Rafael Menezes, Sobre a resenha do livro Os filósofos.

Acerca disso é preciso dizer Rafael formulou críticas bastante específicas à minha resenha que não poderiam ser respondidas senão de modo específico, por conseguinte, minha resposta ficou bastante longa ao tanger diversos pontos. Apesar disso, tentei reduzi-la ao mínimo: ignorei minúcias que, espero, não farão falta; deixei de redigir uma conclusão mais geral; e uni algumas respostas a críticas diferentes em função da semelhança que mantinham entre si.

No mais, devo acrescentar que: qualquer nova resposta a esse assunto será dada ao pé deste texto ou daquele anterior (aqui), e que nada mais tenha a dizer sobre Herculano Pires que caiba num novo texto. O assunto finda aqui.

Crítica: os critérios históricos de Herculano não seriam problemáticos

Questionei o critério de representação que Herculano elenca para Os filósofos, uma vez que ele produz diversos problemas ao longo do livro por ser pouco desenvolvido e explicado. Respondendo a isso, Rafael reexpõe sinteticamente os filósofos apresentados por Herculano e demonstra como são dadas justificativas para que cada um esteja lá exatamente como está.

Considerações: para refutar o que eu disse, Rafael descreve como os filósofos expostos no livro representam (segundo a ótica de Herculano) o período em que se situam. Suponho que, no seu entender, reapresentar as justificativas de Herculano demonstraria que tais filósofos teriam bons motivos para representar os períodos em que estão. Pois bem. Ocorre que descrever como Herculano entende e expõe cada filósofo representando seu respectivo período não esclarece qual seria o critério de representação que ele elenca para tal, apenas como este estaria sendo aplicado em casos particulares, principalmente, porque Herculano não explicita o que seria “representar” e, ao justificar cada filósofo, apresenta características distintas que os tornariam representativos em seus períodos. Com isso, é mister perguntar: o critério é o mesmo para todos? Se não, por que não são representados outros filósofos que  teriam influenciado muito mais o seu período e os posteriores (já que o critério está na representação deles para com o próprio período)? Se sim, por que os filósofos abordados foram representados por aqueles e não por outros aspectos (ou seja: o que no critério de Herculano torna necessária a aplicação do critério feita por ele)? Caso Herculano tenha bons motivos para entender que cada filósofo represente melhor um período de determinada maneira, terá também nesse critério as razões que excluem as possibilidades que ele não abordou, pois o critério explica porque aquilo que ele abordou está lá e o que não abordou não está.

Meu questionamento, portanto, não dizia respeito à maneira como Herculano aplicava o critério em cada filósofo e fornecia justificativas pontuais para que eles parecessem representar seus períodos, mas à própria coerência interna do critério que fica obscurecida à medida em que surgem diversas maneiras de aplicá-lo sem que isso esclareça qual seria a unidade inicial dele.

Mais adiante, o texto de Rafael retomará essa discussão ao questionar minha crítica de que Herculano não teria motivos para afirmar que as correntes de Mileto e Samos representariam, respectivamente, a liberdade do pensamento em relação as suas origens místicas e o equilíbrio do pensamento. Seu modo de argumentar segue o mesmo: buscar referências do próprio texto de Herculano e demonstrar que tais representações seriam justificadas dentro da maneira como o filósofo os expôs; contudo, embora seja concebível que tais correntes possam ser interpretadas como Herculano interpreta, entender como Herculano os lê não resolve a questão da representação, pois, para que representem algo, será necessário que se esclareça: representar o quê para quem a partir do quê? Um período ou corrente só pode representar algo se representá-lo para alguém (seja para si mesma, seja para outro) e de determinada forma, logo, quando Herculano diz que Mileto e Samos representam a liberdade e outras coisas mais, cumpre que questionemos: eles representam tais coisas para quem? Para os gregos daquelas cidades? Para si mesmos? Unanimemente para a tradição filosófica? Para nós que os estamos estudando pela ótica de Herculano Pires e pelos elementos que ele valoriza? A resposta de Rafael não soluciona esse problema e não reflete sobre o critério de representação, ela simplesmente o adota, o que faz com que minha crítica lhe sobreviva.

Crítica: o paradoxo de Pitágoras é aparente e a relação dos gregos com a religião é conflituosa

Afirmei que Herculano transporta problemas de seu próprio tempo para analisar períodos anteriores (flertando até com a Parapsicologia), e exemplifiquei tal crítica relembrando sua afirmação de que Pitágoras carregaria o suposto paradoxo de ser místico e cientista. Rafael, por sua vez, afirma que o exemplo apontado foi lido erroneamente porque o paradoxo apontado em Pitágoras é apenas aparente e os gregos tinham problemas na relação mística e filosofia.

Considerações: minhas palavras na resenha foram que: “Herculano aponta para um suposto paradoxo na figura de Pitágoras”, ou seja, que ele aponta um paradoxo que é somente suposto, consequentemente, quando Rafael resgata o texto de Herculano para provar que o paradoxo de Pitágoras é meramente aparente, apenas ignora o que já estava estabelecido desde o começo. O que estava em questão na resenha era que a oposição “ciência versus mística” seria mais hodierna que antiga, pois embora os gregos tivessem tantos problemas com sua religião quanto qualquer outro povo, de maneira geral, a relação de exclusão existente entre ela e a ciência não fazia parte de seu pensamento. Apresentar relação entre ciência e religião como paradoxal, mesmo que para dialogar com o senso comum do leitor, seria projetar o atual no passado. Essa era a crítica.

A mentalidade religiosa grega integrava a filosofia grega e o surpreende não é que os filósofos do período pudessem ser críticos da religião, já que seria possível fazer isso mesmo sem filosofia, mas que fossem críticos dela criando um modo de pensar que seria, em alguma medida, consequente com ela, embora profundamente distinto.

Ainda sobre isso, Rafael diz que o flerte de Herculano com “ciências” (haja aspas!) tais como a Parapsicologia e o Espiritismo kardecista visava permitir a interpretação dos feitos extraordinários dos antigos de maneira objetiva, quer dizer, sem classificá-los apenas como crendices e fábulas. Concedo: é uma resposta inteligente, todavia, resta saber por que tal interpretação não possa ser feita pelas ciências, devendo ficar à cargo das “ciências”.

Crítica: a frase “democratizar a cultura” não tem o sentido que atribuí e critiquei

Critiquei que Herculano dissesse que os sofistas pretendiam “democratizar a cultura”, uma vez que eles tinham preocupações em comercializar seu saber e não em espalhá-lo. Quanto a isso, Rafael afirma que para Herculano, “democratizar a cultura” tem um sentido mais próximo de “contribuir para o estabelecimento da democracia grega” ou algo semelhante.

Considerações: essa é a melhor crítica do texto de Rafael. Parece-me uma boa interpretação do texto de Herculano e concordo com ela, por isso, retifico o que disse anteriormente.

Crítica: as relação entre filósofos feitas por Herculano são justificadas

Durante a resenha, critiquei que Herculano fizesse relações muito genéricas entre filósofos de períodos diferentes, e defendi que tais relações somente deveriam ser feitas quando: a) um posterior tenha lido ou sido influenciado por um anterior b) quando alguma outra boa justificativa fosse apresentada. A mera participação numa tradição comum (na Filosofia) não deveria ser um motivo suficiente para relacionar filósofos diferentes num livro histórico. Contrapondo-se a isso, Rafael cita diversos filósofos que teriam sido influenciados por outros e afirma que não há problema nas relações apontadas por Herculano.

Considerações: quando a resposta de Rafael enumera prolixamente diversos filósofos que teriam sido influenciados uns pelos outros, ela ignora que esta foi uma das situações consideradas válidas para estabelecer relações entre filósofos (a). Seguem minhas palavras: “(…) não faz muito sentido ficar associando os antigos aos filósofos posteriores exceto quando o sucessor tenha lido o antecessor diretamente. Assim, os casos de Kant leitor de Hume, Espinosa leitor de Descartes, Nietzsche leitor de Schopenhauer e outros apontados por Rafael estão dentro do próprio critério que elenquei; não servem para criticar minha posição. É evidente que certos filósofos tem ligações diretas uns com os outros e estas precisam ser apontadas, entretanto, o problema consiste em Herculano fazer relações entre pensadores que não relacionados senão pelo fato de que são filósofos.

Mais adiante, discutindo as relações genéricas que Herculano faz entre Protágoras outros filósofos, Rafael admite não existir uma relação direta entre a filosofia de Protágoras e aquelas posteriores que estão em discussão, exceto por determinadas semelhanças cuja natureza pode existir  apenas porque eles participam da mesma tradição. No seu entender, tais semelhanças, que existem sem que Protágoras tenha formulado as bases nas quais filosofarão seus posteriores e sem que seus posteriores tenham sido influenciados diretamente por Protágoras, seria suficiente para que Herculano os associasse ambos “sem temeridade”. Caso o grego fosse o primeiro a formular determinada ideia, os seus posteriores que tivessem ideias parecidas poderiam ser vinculados historicamente a ele mesmo sem existir uma relação direta entre eles.

A meu ver, há muitas críticas que podem ser feitas a esse modo de pensar e o leitor informado certamente terá as suas próprias, contudo, farei apenas uma: caso, dentro de um livro histórico, o critério de semelhança seja suficiente para associar e comparar pensadores não relacionados diretamente, então quaisquer relações podem ser estabelecidas entre quaisquer personagens desde que determinadas semelhanças sejam elencadas e suas (imensas) diferenças ignoradas. Se podemos isolar toda a diferença que separa Protágoras dos filósofos contemporâneos para assemelhá-los por determinadas ideias, então, podemos fazer o mesmo com qualquer um desde que escolhamos as semelhanças mais adequadas e ocultemos bem as diferenças que os separam. Com isso, criaremos imagens arbitrárias da filosofia que podem até fazer sentido para quem as estabelece, mas nada informam sobre os filósofos relacionados.

Crítica: os céticos não são os únicos investigadores filosóficos, além disso, não é (tão) inapropriado afirmar que Protágoras seja um cético-relativista

Afirmei, em determinado trecho da resenha, que aquele que descobre uma verdade filosófica não pode permanecer cético (que em seu sentido original significa investigador), não existindo então motivos para ler Protágoras como um cético-relativista. Rafael, por seu turno, afirma que os filósofos não-céticos também são investigadores e que a leitura de Protágoras como um cético não é (tão) inapropriada, uma vez que Protágoras seria um crítico do conhecimento.

Considerações: skeptizomai, em grego, significa investigar. Numa acepção geral, os céticos (investigadores) são uma corrente de filósofos que, não tendo uma verdade absoluta, investigam aquelas que lhes aparecem ou que são defendidas por outros filósofos que afirmam tê-las encontrado, os chamados dogmáticos. Eles opõe metodologicamente essa multiplicidade (diaphonia) de opiniões umas às outras a fim de descobrir qual delas seria verdadeira, o que, todavia, faz com que tal conflito lhes apareça como atualmente indecidível, obrigando-os a suspender o juízo a respeito da verdade dessas opiniões. Com efeito, caso um cético, por qualquer motivo que seja, reconheça uma verdade como absoluta, ele deixará de ser um investigador ligado àquela corrente de pensamento, abandonando aquela maneira de filosofar que lhe era própria graças ao tipo de atitude filosófica que praticava. A partir disso, até poderá realizar investigações de outra natureza (com outros métodos, inclusive), mas não será mais um investigador no mesmo sentido em que um cético o é: acompanhado daquele método específico, daqueles objetivos específicos e assim por diante.

A crítica que Rafael faz ignora esse contexto e atribui a mim o entendimento de que investigação seria uma característica apenas da filosofia cética; não da dogmática. Espero que tal exposição seja suficiente para demonstrar que ela carece de sentido.

Já quanto à classificação de Protágoras como cético, convém resgatar que os céticos fizeram uso das posições sofísticas para elaborar suas filosofias, sendo assim, a posição de Protágoras certamente influenciou os céticos e está refletida neles de alguma maneira. Malgrado isso, Protágoras nasceu antes dos céticos, não possui um método cético de filosofar e tampouco suspende o juízo acerca da possibilidade do conhecimento graças a ele, logo, não pode ser considerado um cético (a menos que estejamos discutindo formas bastante particulares de ceticismo, o que não é o caso). Dizer que Protágoras seria um cético relativista é atribuir inadequadamente aquilo que advém de um período posterior àquele que é anterior, um anacronismo.

Crítica: Descartes não sustenta um mero acreditar, nem um pessimismo epistêmico

Na resenha, afirmei que Descartes não poderia ser um filósofo cético porque acreditava ser possível provar a existência de deus racionalmente, por exemplo. Acerca disso, Rafael afirma que não é um mero acreditar que faz com que Descartes desenvolva sua filosofia e que mesmo sua atividade de dúvida não está identificada com qualquer pessimismo epistêmico.

Considerações: de minha parte, jamais pretendi defender que Descartes desenvolveu seu projeto filosófico a partir de um mero acreditar, portanto, afirmei textualmente que: “ele acreditava ser possível provar a existência de Deus racionalmente, quer dizer, que provava Deus com o uso da razão, o que talvez tenha escapado à leitura de Rafael e gerado sua crítica.

Quanto ao pessimismo epistêmico, de fato, Descartes não era um pessimista epistêmico e lamento que meu texto tenha feito Rafael discutir isso. Creio que fui ambíguo nesse ponto e dei margem para má interpretação. No máximo, forçando o sentido do termo, talvez fosse possível afirmar que o filósofo sustentasse uma posição pessimista em relação aos gêneros de conhecimento que dependam fundamentalmente das percepções sensíveis (como a biologia, a medicina e outras ciências), uma vez que eles não são completamente fundados na razão e as certezas que temos a seu respeito são limitadas, porém eu jamais me comprometeria com uma afirmação dessas.

Crítica: a oposição à escolástica é uma constante fundamental moderna

Em minha resenha ressaltei que a relação dos autores modernos com a metafísica tradicional não era simplesmente uma relação de crítica para com ela. Assinalei que a ideia de crítica da tradição como constante fundamental não cabia naquilo que Herculano pretendia dizer, e que, para vários filósofos modernos, tal atribuição talvez não funcionasse ou funcionasse de um modo tão singular que não poderia ser generalizado como característica fundamental do período. A respeito disso, Rafael afirma que os modernos pensaram de maneira distinta dos escolásticos, o que implicaria num pensamento contrário à metafísica tradicional sustentada por eles. Ele cita alguns exemplos para reforçar sua posição.

Considerações: ao citar o exemplos que cita, Rafael pretende extrapolar aquilo que é comum a certos filósofos modernos – a crítica à metafísica tradicional – para o todo deles. Não lhe ocorre que os filósofos modernos possam adotar conceitos distintos de seus antecessores, que implicarão em teses distintas (ou até contrárias) em relação àquelas que eles sustentaram, sem que coloquem a si mesmos como opositores e críticos diretos dessa metafísica tradicional. Como exemplo disso, podemos relembrar que, embora o cartesianismo seja um movimento cujo início seja profundamente crítico da tradição escolástica, ele terá também sua cota de filósofos que tentarão conciliar Descartes e Agostinho, um moderno e um metafísico tradicional.

Crítica: Herculano leu mesmo Descartes e não comete exageros quanto à Espinosa

Depois de criticar a sentença em que Herculano diz que: “Descartes se contentara com a descoberta do cogito, dando por resolvido o problema do Ser e do Mundo”, fiquei indignado e afirmei que ele talvez não tivesse lido uma linha sequer do francês, mais tarde, critiquei a afirmação em que Herculano afirma que Espinosa aceita o dogma cartesiano (o cogito), procurando apenas aperfeiçoá-lo. Respondendo às minhas críticas, Rafael selecionou trechos do capítulo de Herculano sobre Descartes para provar que sim, o francês foi lido, e classificou minha afirmação sobre Espinosa como insuficientemente refletida, reexpondo um excerto do livro de Herculano em que ele explica o que pensa do holandês.

Considerações: lamento que não tenha ficado suficientemente claro que afirmar que Herculano não leu Descartes foi apenas retórico de minha parte, posto que creio ser evidente que Herculano leu (mal) René Descartes antes de escrever bobagens a seu respeito. Curiosamente, porém, a crítica de valoriza minha retórica (minha afirmação de que Herculano não teria lido Descartes), mas não aquilo que a origina (a crítica que lhe dirigi), atacando aquilo não tem importância argumentativa no texto e ignorando o erro medonho de Herculano que ressaltei e critiquei. Qual seria a resposta de Rafael à minha crítica? Ele não diz.

Sobre Espinosa, tenho um problema para interpretar às críticas que Rafael me faz porque, quando ele me classifica como histérico, não está respondendo o questionamento que fiz, mais ainda, quando ele meramente reexpõe o texto de Herculano, também não. Talvez, ao fazer o que faz, ele pretenda sugerir que o excerto que reexpõe explique o que parece ser erro no trecho que critiquei, ou que o trecho que critiquei é uma síntese do trecho reexposto. Tanto para um caso como para o outro, seria preciso que Rafael argumentasse como aquilo que critiquei em Herculano seria somente um erro aparente passível de ser resolvido à luz do excerto que ele reapresenta, todavia, como ele não faz isso, sua crítica não me atinge e não tenho o que responder.

Crítica: Herculano problematiza os filósofos que aborda e não infantiliza seus leitores

Critiquei Herculano em alguns aspectos relacionados ao seu estilo literário e modo de filosofar, afirmando que ele pouco problematiza os filósofos abordados, que seu uso das referências bibliográficas é menos um recurso de estilo e mais um limite pessoal, sendo o resultado disso a infantilização de seus leitores; ao passo que Rafael defende que Herculano problematiza os filósofos expostos, sendo a fluência do estilo o critério adotado para escrever sem notas de rodapé e sem “adendos eruditos”.

Considerações: acerca da problematização dos filósofos, nota-se facilmente que Herculano mostra sim algumas interpretações possíveis para uma mesma filosofia e, por vezes, até apresenta filósofos como contrários uns aos outros, todavia, o problema consiste no fato dessa exposição ser circunstancial e superficial, não envolvendo o leitor nesse embate de maneira a fazê-lo questionar as posições dos filósofos e as suas próprias. Mesmo quando Herculano usa referências bibliográficas, faz isso de maneira a reforçar e complementar seu próprio ponto de vista sobre o assunto; não para mostrar problemas das filosofias expostas ou para apontar como um problema de interpretação complexa poderia ser solucionado pela leitura de outro livro. Com efeito, os filósofos soam sempre coerentes consigo mesmos nos capítulos em que são expostos e o saldo geral da obra é uma grande confluência das posições filosóficas, como se todas expressassem a verdade de alguma maneira e não existisse um conflito, mas apenas uma multiplicidade de visões. No fundo, sequer  parecer existir sentido na existência de várias filosofias já que todas são, de alguma maneira, a expressão da verdade.

Tal forma de expressar a História da Filosofia impossibilita o próprio interesse do leitor em conhecer mais detalhadamente o assunto e pensar por si mesmo a propósito dele, pois como o próprio texto não apresenta qualquer sutileza (que poderia constar numa nota de rodapé ou no apontar de uma bibliografia que expanda certos problemas interpretativos) ou qualquer grande problema na interpretação dos filósofos, a obra se encerra em si mesma: não por ser coerente, mas por ser tola e pobre.

Já quanto ao modo pelo qual Herculano escreve, ressalto que a fluência de um texto não tem relação com as indicações bibliográficas colocadas nele (sejam notas de rodapé ou índices de qualquer tipo), nem mesmo com a terminologia específica, tampouco com a profundidade do mesmo, tal qual Rafael sugere. Desde que o autor realize bem o trabalho de escrever, respeitando o tempo de aprendizado do leitor, mesmo assuntos bastante complicados podem ser abordados com simplicidade  e sem leviandade  num texto. Em Os filósofos, todavia, a ausência de notas serve para conferir certa liberdade ao estilo de Herculano e mascarar que ele é incapaz de produzir um livro com densidade filosófica. As notas não fazem falta porque a pouca cultura do autor se esgota nas linhas pobres do livro e não há nada além daquilo que se possa exigir dele.

Por sinal, nem mesmo os leitores de Herculano escapam disso: eles não são estimulados a desconfiar de suas próprias crenças, sendo catequizados numa concepção infantil de Filosofia. A exemplo disso, o próprio Rafael entendeu minha resenha filosófica como caluniosa e perseguidora da pessoa de Herculano Pires. Em seus textos, ele se refere ao filósofo como aquele que tem “ternura na voz”, um “estilo elegante”, o “rigor de pensamento”, ao passo que eu sou o típico “rapazinho universitário ansioso”, aquele que “aprendeu a pensar após muito esforço e apesar de tudo”, que “grita como um adolescente”, sofre de uma “patologia” e outras coisas igualmente constrangedoras. Todas essas afirmações foram retiradas do próprio texto de Rafael; eu não as inventei apenas para envergonhá-lo. Elas denotam, por si mesmas, como ele já exemplifica o leitor infantilizado a que estou me referindo.

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