Sobre as críticas de Rafael Menezes

Seguem abaixo algumas considerações a respeito das críticas de Rafael Menezes, em seu texto Sobre a resenha do livro Os filósofos (para saber mais clique aqui).

Por uma questão de tempo e disponibilidade, produzi um texto bastante sintético que resume a argumentação de Rafael em quatro pontos principais. Como método de exposição, reconstruí inicialmente suas críticas e, em seguida, apresentei minhas considerações a cada uma delas. Ao término disso, fiz um balanço dos dizeres de Rafael como um todo.

Crítica: que eu escreveria contra Herculano Pires

Rafael comete um equívoco por princípio: ele afirma que eu escreveria contra Herculano Pires, colocando-me contraposto ao indivíduo Herculano e sua história. Em certa passagem ele até insinua que caluniei o filósofo e condenei sua obra como um todo a partir da análise do livro.

Considerações: jamais pretendi que minha resenha fosse contrária a Herculano Pires, uma vez não analisei sua pessoa, mas uma obra sua e as concepções expostas nela. Consequentemente, as oposições feitas no texto são atinentes a pensamentos e não a um indivíduo. Do mesmo modo, estou considerando neste momento as críticas de Rafael Menzes contra meu texto e, até mesmo, escrevendo contra elas, porém nada tenho a dizer contra o indivíduo Rafael. Trata-se de uma discussão de ideias e nada mais.

Crítica: que eu desvalorizaria aquilo que está fora da história oficial da filosofia

Comecei minha resenha afirmando que o espiritismo não se impôs não-espíritas como filosofia, ou seja, que os pensadores do espiritismo, independentemente de seus méritos, não se tornaram importantes para os filósofos fora do espiritismo, enquanto outras religiões, no entanto, produziram filósofos bastante influentes na história do pensamento. A exemplo disso, um único indivíduo como Descartes, um católico convicto, transformou profundamente a maneira como o ocidente fazia filosofia ainda em seu próprio século. O espiritismo, por sua vez, mesmo tendo mais de cem anos de vida e vários pensadores, sequer é conhecido por sua filosofia, muito menos por qualquer filósofo seu.

Desse modo de pensar, Rafael extraiu uma curiosa conclusão a meu respeito: que eu entenderia que estar fora da historiografia oficial – ou seja, daquilo que comumente nos referimos ao tratar de história da filosofia – seria um demérito para aquele que está marginalizado, de maneira que pensadores que não constem nos currículos universitários ou não sejam expostos nos grandes manuais, não mereceriam uma leitura detida de suas obras. Herculano Pires, como podem imaginar, seria um caso destes.

Considerações: a isso devo responder que caso eu endossasse uma filosofia da história como essa, que dividisse os filósofos conforme sua participação num certo senso comum histórico, então eu não teria motivos sequer para ler Herculano justamente porque ele não integra a história oficial. Mais ainda, também não teria motivos para escrever uma resenha que considerasse tão seriamente um livro seu.

O fato de que Herculano esteja fora da filosofia oficial nada diz a respeito do valor de sua obra: nem que ela seja boa, nem que ela seja ruim. Por conseguinte, meus julgamentos acerca de seu livro foram fundamentados em suas próprias palavras e não num critério histórico externo ao livro. Eu não critico Herculano por ele estar fora da história oficial, eu o critico por seus argumentos, por seu modo de pensar, pela pobreza intelectual que seu livro atesta.

Crítica: que eu analisaria a contribuição filosófica do espiritismo por um único livro

Em minha resenha fiz uma provocação: no que dependesse do livro de Herculano, os espíritas não conseguiriam obter reconhecimento filosófico fora da religião.

Rafael, por seu turno, afirma que tal provocação seria injustificada na medida em que submeteria toda a filosofia espírita ao julgamento de um único livro.

Considerações: creio que nesse ponto ele tem toda razão, pois ainda que Herculano seja um autor considerado representativo da filosofia espírita, colocar sua obra como critério para julgar toda uma corrente de pensamento (mesmo em tom de galhofa) é um exagero tolo.

Para além da crítica de Rafael, todavia, tenho um motivo mais forte para recusar minha maneira anterior de pensar, que consiste em perceber mais claramente que, embora Herculano Pires seja um autor espírita, Os filósofos não pretende ser uma leitura espírita da História da Filosofia. Relendo minha resenha, percebo que fiz um uso contraditório desse fato conforme usei a “laicidade” do livro como razão para considerá-lo como um manual como qualquer outro e, ao mesmo tempo, usei a religiosidade do autor como critério para julgar a filosofia espírita. Erro meu.

Crítica: não se deve exigir tanto de um manual de Filosofia

Fiz algumas considerações durante minha resenha sobre certas características problemáticas dos manuais de filosofia. Afirmei que eles resumem períodos enormes de tempo, abordam assuntos complexos sinteticamente e que, conquanto carreguem dificuldades inerentes ao seu gênero, são úteis por iniciarem novos leitores no assunto

A respeito disso, Rafael afirma que Os filósofos seria um manual despretensioso, mais literato que acadêmico, sendo que eu não poderia ser tão severo com ele e lhe dirigir tantas críticas, já que suas “deficiências necessárias” são atinentes ao seu gênero e não ao seu autor. Sendo assim, caso as explicações que exigi de Herculano fossem feitas, elas transformariam Os filósofos num tratado e destruiriam seu caráter de manual.

Considerações: as “deficiências necessárias” que Rafael menciona como pertencentes ao gênero dos manuais não são nem deficiências, nem mesmo deficiências necessárias, mas características intrínsecas de todo manual, dificuldades com as quais todo autor do gênero terá que lidar ao escrever. Tratar sinteticamente de muitas coisas, aí está o desafio dos manuais; fazer isso com inteligência e responsabilidade, aí está o desafio dos autores.

Ser superficial em vez de sintético, ser amador em vez de responsável, não são características dos manuais de filosofia, mas de Herculano Pires. Os problemas de Os filósofos não provém de se gênero, mas de seu autor, com efeito, eu não exigi que o livro fosse escrito em outro gênero, mas que fosse bem escrito no próprio gênero em que estava. Meus questionamentos não solicitavam o mero aprofundamento textual das questões abordadas no livro, como se eu quisesse saber mais sobre certos assuntos e seu autor não tivesse satisfeito minha curiosidade; na verdade, solicitei que Herculano conhecesse o assunto que abordou e não fosse tão leviano ao tratar dele.

Palavras finais

Sinteticamente, as críticas de Rafael são estas que expus ou são de tal modo que dependem destas para fundamentá-las. Com isso, é notável que seu texto ignora grande parte da resenha, até mesmo certas passagens que embasam minhas conclusões a respeito do livro de Herculano como um todo. Rafael somente considera aquilo que diz respeito aos aspectos mais gerais de minha crítica e que poderia ser entendido pela própria leitura da resenha ou com alguma cultura prévia, porém evita discutir os casos específicos que fundamentavam tais críticas ao mostrar os problemas específicos de Herculano.

É curioso que ele proceda assim porque se tivessem sido desmontadas as críticas específicas que fiz ao livro, as críticas mais gerais que são consequentes delas estariam invalidadas. Sou capaz de supor um motivo simples para o seu modo de proceder, contudo espero estar enganado ao afirmá-lo: embora possa conhecer os textos de Herculano Pires, Rafael desconhece o livro em especial que estou tratando, por conseguinte, embora queira recusar minhas conclusões, não está apto a discutir os argumentos que as sustentam. Como já disse, afirmando isso eu espero estar equivocado, pois seria uma leviandade tremenda, de uma espécie que nem o amador Herculano Pires cometeria, discutir a interpretação correta de um livro sem o ler.

Para terminar, devo dizer que mesmo que Rafael responda esse texto, eu não tenho muito mais o que falar acerca de Herculano Pires e não pretendo continuar a discussão produzindo outro texto. As críticas que me foram feitas pouco mudaram o que penso a respeito do assunto e não imagino que as novas serão muito melhores, portanto, caso alguma resposta me seja dada, reservarei a ela uma nota ao pé deste texto. Duvido que seja insuficiente.

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3 pensamentos sobre “Sobre as críticas de Rafael Menezes

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