Voltar à escola

Ao voltar ao ensino médio público para cumprir os estágios de minha graduação notei que, curiosamente, aquela seria  a minha primeira oportunidade de observar os alunos sem que eu mesmo estivesse nessa posição de aluno, logo, seria possível tomar certo distanciamento crítico da discência e mais que fazer anotações para cumprir meus deveres, eu também poderia pensar sobre mim mesmo na condição de ex-aluno do ensino médio e atual aluno do ensino superior. Na verdade, essa experiência acabou sendo bem mais que apenas um reencontro com certa realidade e a escrita de alguns relatórios baseados nela. Voltar à escola me tocou bastante e mudou um pouco minha percepção sobre a universidade e o papel que ela exerce na educação, além de bagunçar meus sentimentos naqueles meses.

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Acompanhar o que fazem os alunos na escola pública e, sobretudo, o que é feito deles no correr dos anos (quiçá, da vida), fez com que eu pensasse no quanto me custou e o quanto me custa ainda hoje ter tido a educação que tive. Retornar àquele local e reviver o que propositalmente esqueci não foi agradável, sendo que passei certo tempo meditando enquanto projetava meu próprio passado naqueles alunos – quem há de querer ser professor atualmente? Eu poderia ter me perguntado, mas seria bobagem; as pessoas me perguntavam isso o tempo todo desde que decidi ser professor e não era uma questão que incomodasse. Não pensei nisso. Pensei numa coisa bem mais pessoal: quem há de querer ser pai ou mãe hoje em dia? Quem vai arcar com o peso de ter o futuro de outra pessoa em suas mãos e então delegá-lo à escola pública?

Quanto ao ensino médio, creio que seus problemas não estão somente na má gestão governamental ou naquilo que impede os alunos de aprenderem, como ter uma origem social a qual a escola não sabe lidar, por exemplo. Bem dizendo, pagando-se mal o professor e reprimindo suas manifestações, trancafiando os alunos na escola como bestas, fazendo-se indicações políticas para cargos em que a competência deveria imperar, entre outras coisas, produz-se em algum momento desse percurso um modelo falho de escola que não deveria ser frequentado por ninguém, todavia, quando essa política é mantida por muito tempo e com a intensidade adequada, produz-se algo bem mais profundo que isso, a saber, uma educação que alimenta os seus próprios problemas. De uma maneira que jamais poderei entender, a escola pública funciona – e funciona bem – apesar de todos os exemplos diários do contrário; ela só não educa, sua função deixou de ser essa faz muito tempo. Para que ela serve atualmente? Confesso que não sei, entretanto, ao agir como age, tal qual uma espécie de morta-viva ansiosa por devorar o cérebro dos professores e dos alunos para transformá-los em aberrações iguais a si mesma, a escola funciona muito bem: docentes e discentes passam a reproduzir tudo o que torna essa instituição nefasta, sendo que os primeiros param de ensinar e os segundos de estudar.

calvin-hq-personagem1Por sinal, lembro que minha primeira aula de Física foi aos dezenove anos, bem depois de ter terminado a escola – lugar onde físico algum queria pisar – e que bem antes disso eu já tinha desistido de aprender a matemática que aquela disciplina requeria, pois de nada me servia. Aliás, não há qualquer coisa extraordinária nisso: todos nós vivenciamos histórias assim e sou apenas outro clichê, mais um aluno que apesar da escola não se saiu tão mal assim.

Deste modo, ao conviver novamente com alunos e professores do ensino médio, eu quis dizer algo àquelas pessoas que as possibilitasse ter alguma ideia discordante em relação aos seus próprios destinos, alguma palavra mágica como deus, revolução ou abracadabra, que lhes desse um futuro brilhante ou uma esperança de um dia encontrá-lo, mas eu não disse nada. Francamente, não tinha o que dizer. Essa é minha derrota hoje.

Passados muitos anos, livros e fantasias depois da adolescência, sinto que, mais que um elfo na Terra Média, um jedi combatendo o império ou qualquer coisa com que já sonhei acordado por aí, eu gostaria de ter sido um aluno melhor, um estudante mais desafiado pela escola e pela vida, pois ser adulto e poder ver tudo o que vivi sendo reencenado por outros, como uma espécie de peça sombria do Tempo, me angustia profundamente porque sei exatamente o que vem depois. Aonde eles pensam que vão… Eu já estive lá.

Mas não pude dizer nada a eles. Nenhuma palavra encorajadora, nenhum caminho alternativo. Não posso evitar o que é feito na escola pública mesmo tendo certo amor por tentar e fracassar. Certas coisas são maiores que eu e meus sonhos estúpidos.

Infelizmente, voltar à escola teve um gostinho de fracasso e não era só com a minha vida.

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2 pensamentos sobre “Voltar à escola

  1. Gostei de ler sobre sua experiência. Esse é realmente um dos problemas mais difíceis que temos que enfrentar. Temos que descobrir como fazer isso, mas não acredito que isso possa ser superado sem uma ação política coletiva, ou seja uma ação comunitária e de solidariedade.

    • Oi, Gabriel, eu tendo a concordar com você, mas sempre oscilo entre dois extremos: acho que quando olho demais para uma ação coletiva, acabo deixando um pouco de lado o fato de que muito pode ser feito num âmbito mais pessoal. Uma das coisas que me surpreendi nessa visita de estágio foi que os professores e diretores não viam que era possível fazer muito apenas mudando sua atitude. É claro que não dá para jogar sobre si tanta responsabilidade que isso te faça mal, ou que extrapole suas atividades a ponto de você fazer aquilo que o Estado deveria prover; talvez seja preciso encontrar algum equilíbrio aí que eu ainda não sei bem como atingir.

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