Nota sobre certos leitores de hoje

Faz um tempinho que em minhas aventuras pela internet tenho observado um aumento significativo no número de blogs e vlogs literários. Ler, ao que parece, está na moda, e fico bastante feliz que seja assim.

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Apesar disso, sempre que espio algum desses novos canais sobre literatura, sinto certa inquietação anotar que todos ou quase todos compartilham certas características que dizem respeito não a si mesmos, seus defeitos e qualidades, mas a determinado tipo de leitor que os constituem e a quem se dirigem. Melhor dizendo, inquetam-me algumas coisas nas pessoas que fazem tais canais e naquelas para as quais eles são feitos.

Creio serem três essas características:

1. Grande consumo de livros: de maneira geral, tais canais são feitos por pessoas jovens que leem muitos livros, provavelmente bem mais que seus pais ou que seus colegas de mesma idade. Algumas delas terminavam uma ou duas obras por mês, enquanto outras mais que duas por semana, o que significa rapidez no consumo e acesso a muitos títulos, inclusive em inglês. Mais ainda, vários desses canais recebiam auxílios diretos de editoras, que lhes enviam um número enorme de livros mensalmente, e somando isso com as possibilidades que a internet trouxe no tocante ao acesso a produtos e serviços, tais pessoas adquiriam uma quantidade volumosa de obras mensalmente, procurando especificamente por aquelas edições com trabalhos gráficos mais bacanas, frequentemente mais raros, caros e cobiçados.

2. Leituras direcionadasembora os donos desses canais leiam muito, não faz parte de seus hábitos devorar livros complexos ou que estejam muito longe dos catálogos das grandes editoras. Uma pessoa que termina três livros numa semana provavelmente não tem A náusea ou Tutaméia em sua lista. Há tipos específicos de livros que tais pessoas consomem para que consigam absorvê-los em grande quantidade e rapidamente, sendo eles, sobretudo, lançamentos de escritores populares e aquelas obras que estão atualmente em evidência, seja porque alguém resolveu filmar, porque mercados online estão vendendo em grande quantidade, porque há uma estratégia de marketing no ar, enfim, tanto faz. Achei curioso que tantos desses canais reservassem um espaço para analisar Hunger Games e chegassem mais ou menos à mesma opinião a seu respeito. Não parecia ser coincidência.

3. Análise superficiais: por fim, todos os canais que visitei e que tencionavam analisar livros, inclusive tecendo textos ou vídeos opinativos no formato de resenha, nunca iam muito longe no aprofundamento das obras. Suas análises abordavam, em geral, dois aspectos delas: a história, quer dizer, o desenrolar dos acontecimentos e o papel dos personagens neles; e, além disso, as impressões subjetivas do leitor com o livro, ou seja, se quem analisou o livro gostou dele, a qual personagem dedicou mais afeição e assim por diante. Tais análises eram capazes de reproduzir aquilo que foi lido (a história) e de informar como isso afetava seu ânimo (suas impressões subjetivas), no entanto, raramente observavam qualquer coisa a mais, de modo que, ao abordar uma obra muito complexa, cuja fruição requeira alguma sofisticação na leitura, essas análises se tornavam ainda mais simplórias.

Confesso que demorei um tempo para entender a inquietação que esses canais literários me causavam, tardando um pouco até que eu conseguisse expor para mim mesmo o que estou a escrever agora. Na verdade, só consegui fazer isso após vivenciar uma situação esquisita: recentemente, ao saber que uma colega também acompanhava certa adaptação televisiva de uma obra literária, eu a questionei a respeito dos problemas temáticos que a adaptação levantava dado o seu desdobramento. Minha amiga ouviu-me com atenção mas com um ar estupefato, e nada pôde acrescentar ao que eu dizia. Ficou paralisada e eu também com sua estranha reação. Foi como se eu tivesse cruzado a linha da inconveniência ao fazer algo que ultrapassava a relação que ela mantinha com a obra. Permanecemos uns segundos em silêncio exibindo sorrisos amarelos um para o outro sem nada dizer – desconversei. Melhor mudar de assunto.

Com pesar, percebi naquele momento que minha colega não poderia dizer qualquer coisa sobre a obra porque não a apreciava, propriamente, mas somente a consumia, por isso, mesmo pudesse revê-la muitas vezes, continuaria em silêncio e não entenderia a possibilidade de se discutir e tematizar uma obra de arte. Sua relação com a adaptação não envolvia pensá-la criticamente ou problematizá-la; ela somente se divertia vendo TV, lendo um livro ou indo ao cinema – nada mais.

Foi somente depois desse estranho encontro que passei a repensar esses canais literários e a entender o que neles me incomodava. Como tinha dito, não eram eles, propriamente, que me causavam desconforto, mas algo que eles representavam ou carregavam consigo e que eu não conseguia decifrar, sendo que depois de ter com minha colega ficou mais nítido para mim o seguinte: que tanto ela quanto os canais literários representavam um tipo de leitor atual que é, antes de tudo, um consumidor literário, alguém que lê livros do mesmo modo como paga para assistir ao novo blockbuster sabendo que ele trará diversão sem exigências. Trata-se de uma relação com a obra que envolve e requer a fruição descompromissada e, caso tal fruição venha com alguma mensagem que supostamente valorize a obra e disfarce seu caráter superficial (embalado numa capa bonita), será melhor ainda. Esses leitores são atentos ao que se passa no mercado editorial e cinematográfico, sendo capazes de devorar muitos livros, de muitas páginas e até em idiomas estrangeiros em pouquíssimo tempo, fazendo inveja a muita gente das gerações anteriores; entretanto, são incapazes de julgar a obra senão pela comoção que causam no ânimo e pelo enredo. São informados e mesmo assim superficiais.

Sinceramente, apenas tomei consciência desse fenômeno bem recentemente e não sei de onde ele surge e desde quando está ocorrendo. Creio que é simples traçar paralelos com outros acontecimentos relativamente recentes, como a ascensão absoluta da internet, da indústria do cinema, a diminuição da pobreza e expansão de certos estamentos médios da sociedade brasileira e de sua cultura, a situação da educação no Brasil, a expansão do ensino superior, e outras coisas que vocês podem adivinhar.

Uma reação óbvia diante dele seria lamentar os descaminhos da juventude e todas essas coisas que são coerentes com a minha idade e pessimismo, no entanto, creio que há aspectos bastante positivos no fato de que alguns jovens estão lendo muito, mesmo que não tenham mantido uma relação tão crítica com as obras que acessem. Pessoalmente, prefiro observar como as coisas se dão e tentar entendê-las a me preocupar em aprová-las ou condená-las tomando como critério o meu próprio relacionamento com a literatura. Que venha o futuro.

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6 pensamentos sobre “Nota sobre certos leitores de hoje

  1. Tema muito interessante, o advento dos auto intitulados booktubers também chamou minha atenção. Sinceramente? Creio que se trata única e exclusivamente de imaturidade no consumo, aliada à influência das editoras. Eu acredito que não basta ler qualquer coisa, nem de qualquer jeito, mas também acredito que maturidade literária é algo que se constrói ao longo da vida; é só ver os vídeos da galera que já passou dos trinta (e eles existem!) eles mostram releituras que os tocaram de forma diferente nessa nova fase da vida, ou, como a literatura adolescente “X” não tem mais identidade consigo… Tem muita gente, também, lendo e se cobrando de ler os clássicos, lendo e não entendendo e partilhando isso, o que gera um belo debate nos comentários ou em vídeos resposta. Acho que a troca de ídéias proporcionada por esse ambiente contribui para que mais gente leia e se questione sobre suas leituras, é um movimento super positivo. É um começo. A vertente do mercado sempre irá existir e além de lançamentos questionáveis, existe sim uma boa nova safra de bons escritores, além do que estão sempre relançando clássicos já em domínio público (eles fazem dinheiro, as pessoas ganham acesso, é o mundo em que vivemos). A internet, também, possibilita que não se compre livro nenhum, pois se encontra tudo disponível for free. Você pode ler de graça ou muito barato em ebook e comprar depois o livro físico, SE quiser. Sejamos menos avarentos e menos mesquinhos, não é porque é uma realidade diferente que ela é ruim; me alegro de ver esse movimento em torno de livros. Esse é um universo ainda muito pequeno, meus caros, não se enganem. Espero que isso cresça e floresça muito ainda. O Brasil continua sendo um país no qual ainda pouco se lê.
    Parabéns pelo blog!!

    • Eu concordo por inteiro, inclusive com seu otimismo em não lamentar essa geração atual.

      Lembro que em parte o que acabou motivando este texto foi um vídeo em que a autora analisou um o “Assim falou Zaratustra” e fez um vídeo completamente vazio, pobre mesmo. Fiquei um pouco constrangido e, ao mesmo tempo, curioso quanto ao motivo pelo qual ela não conseguiu tirar nada do livro, embora fosse até formada em letras.

      É um pouco o que estamos discutindo: um marketing forte das editoras sobre livros vazios, um tipo de leitor em parte formado para leituras superficiais e cujo compartilhamento da própria experiência supera em importância a própria experiência, quer dizer, bate-se a foto do quadro antes de se perder tempo o olhando, fala-se sobre o livro mesmo sem pensar muito a respeito.

      Eu sinceramente não sei muito bem como avaliar essas coisas, tenho a impressão de que tenho muitos preconceitos “sociológicos” e tendo a enquadrar as pessoas no que eu acho que deveria ser um modelo ideal de leitura, então busco mais analisar que criticar. Simplesmente não sei.

  2. Pingback: Nova resenha (no Café com Tripas) | Ao invés do inverso

  3. extremamente de acordo com teu ponto de vista sobre a nova ” remessa” de ledores. as editoras, assim digo, são na maioria das vezes, as causadoras dessa nova ordem literária, impedindo que leitores comprem livros não pelo conteudo interno, mas pela capa bonita, o que vai proporcionar uma boa visão em sua estante. eu acredito que de alguma forma, essa onda de best-sellers possam até formar novos leitores, mas como em alguns trechos do teu artigo, creio que não serão criticos o sufciente para compreender a mensagem real do livro.

    • É, todos queremos que as pessoas, de uma maneira geral, leiam mais… mas a que custo? Ler, seja lá o que for, sem contudo poder se separar do objeto literário para criticá-lo parece contrariar aquilo que a arte pode proporcionar para a formação do indivíduo.

      Eu ainda não sei como avaliar bem isso.

  4. Pingback: Resenha: Máquina de pinball – Clara Averbuck | Ao invés do inverso

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