Nota sobre uma opinião de Luiz Felipe Pondé

Ao contrário de muitos de meus colegas, não tenho qualquer rejeição particular pelo filósofo Luiz Felipe Pondé. Não que eu não entenda porque há tanto ódio em relação a ele, eu entendo bem, porém, pessoalmente, consigo separar em seus discursos aquilo que considero aceitável daquilo que considero inaceitável. Com isso, não sinto necessidade de desprezá-lo, reverenciá-lo ou de deixar de ouvir o que ele tem a dizer.

Hoje, no entanto, eu gostaria de fazer uma crítica a certa opinião que Pondé tem repetido em algumas de suas palestras e textos. Trata-se do entendimento de que o ateísmo seja uma concepção óbvia de mundo. Segundo o filósofo, não seria preciso pensar muito para chegar a conclusão de que deus não existe, sendo assim, esta não seria uma posição intelectualmente refinada: basta pensar um pouquinho e concluiremos que o mundo é ruim, que a vida não tem qualquer sentido e – voilà – que provavelmente nenhum deus olha por nós.

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Creio que o que há de mais controverso nesse discurso seja a crença de que com o teísmo a coisa seria diferente, ou seja, de que a posição teísta requeriria certo refinamento intelectual, não sendo assim tão óbvia. Essa é a tese que Pondé parece aceitar e que desejo recusar aqui.

Minha opinião é que tanto o ateísmo quanto o teísmo podem ser concepções de mundo óbvias ou refinadas dependendo da maneira como são adotadas. Tanto é possível ser teísta quanto ateísta de maneira pedestre e alheia às implicações envolvidas nessas posições. A exemplo disso, poderei ser ateu apenas porque não penso muito no assunto e vivo minha vida sem considerar questões existenciais, mas igualmente por ter nascido na China ou na Finlândia; tal como poderei ser teísta apenas porque cresci numa família religiosa ou porque todos dizem que deus existe e não duvido disso. Em ambos os casos aceitarei as crenças que me circundam sem refletir muito.

Sendo impiedoso com o mundo, eu palpitaria que esse é o caso da maioria das pessoas: ignorantes de si – é fácil aceitar as crenças que estão ao nosso redor sem refletir sobre elas e construirmos a nós mesmos somente por meio do que o mundo nos dá.

Assim, creio que essa obviedade que Pondé atribui unicamente ao ateísmo não está nessa crença, como ele parece defender, mas na maneira pela qual tal crença pode ser adotada pelo indivíduo e entendida como parte de sua cosmovisão, melhor dizendo, ela está na relação que temos com a crença. 

Qualquer pensamento pode ser fruto de um juízo superficial e óbvio. O ateísmo não é uma tese automaticamente óbvia, principalmente num mundo dominado pelos três grandes monoteísmos que influenciam toda a cultura e não dão espaço para que ninguém se distancie deles. Óbvio é somente uma coisa aparentemente evidente sobre o qual nunca pensamos, sejam os deuses, os astronautas, os homens ou, até mesmo, certas posições filosóficas.

Uma notinha: historicamente, o ateísmo é uma posição tão pouco óbvia que só foi concebida tal como hoje conhecemos lá na Europa do século XVII. Quem a registrou pela primeira vez o termo nessa conotação moderna e assumiu para si o título de ateu foi ninguém menos que um padre. Jean Meslier (1664-1729), essa figura estranhíssima, fazia missas durante o dia e durante as noites anotava seus pensamentos sombrios a respeito do cristianismo, dizendo como este era nada mais que uma estrutura de poder erguida sobre a submissão dos fiéis. Antes do padre o termo “ateu” poderia significar protestante, infiel e muitas outras coisas, mas não necessariamente um negador de todos os deuses, como hoje entendemos. Aliás, caso alguém queira aprofundar essa discussão, conheço dois bons livros a respeito: um deles ainda não li, mas está na minha lista, digamos assim; chama-se O problema da incredulidade no século XVI, do historiador Lucien Febvre; já outro eu li, reli e recomendo, ele foi escrito por um filósofo pelo qual tenho muita afeição e felizmente pude conhecer pessoalmente, o Paulo Jonas de Lima Piva; chama-se Ateísmo e revolta; nele o filósofo explora a trajetória e as ideias do padre ateu, tentando explicar como ele se encaixava (ou não) dentro de seu período e como suas ideias foram revolucionárias na época.

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10 pensamentos sobre “Nota sobre uma opinião de Luiz Felipe Pondé

  1. Pondé parece ser um intelectual e a foto da matéria evidencia bem isso. Para esses, enche o ego dizer que é ateu e não importa os poucos fundamentos que tenham, só não devem declarar seu ateísmo como afirmação de sua intelectualidade quando estiverem concorrendo a cargo político como fez FHC. Neste caso dependem de Deus e precisam negar essa posição para alcançar seus objetivos. Quanto a Pondé, ele pode continuar afirmando sua intelectualidade por meio dessa convicção tola, pois o que ele parece desejar é estar bem na foto.

    • Eu confesso que tenho certa curiosidade pelo “Pondé filósofo”, pois esse que aparece na mídia ficou cativo de certo público de jornal. As palestras mais recentes deles são bem dificeis de assistir; estão ocas de conteúdo.

  2. O ateísmo só foi concebido no século XVII d.C.? “Diz o tolo em seu coração: Deus não existe!”. Salmos 53:1 escrito no máximo no século III a.C. Demonstra que já existiam pessoas que tinham uma posição ateísta positiva.
    “Da minha parte, sou ateu porque Deus não existe”….kkkk é a argumentação mais engraçada que já ouvi, do tipo “é porque é”, é como dizer “da minha parte sou teísta porque Deus existe”…kkikk

    • Acho que a própria existência do termo ateu já indica isso. Na grécia antiga há vários usos para o termo, por exemplo, e isso poderia sugerir que algum deles é o que conhecemos ou que o termo comportasse o conceito como o entendemos, mas o que quis passar no texto foi o registro do termo numa conotação específica, esse sim, só lá no Meslier e dependende de certo arcabouço filosófico que ele defendia.

  3. Acredito que o professor Pondé não é completamente sincero quando diz que a crença de Deus é apenas “mais refinada”, ou “menos óbvia”, enfim, que sua posição a respeito deste assunto é decorrente de uma preferência estética. Crer em Deus, ou não, pode ser vazio de consequências necessárias, mas, não adotar uma doutrina, como o faz o professor Pondé. Ele é Católico, e assim sua crença tem as consequências necessárias do catolicismo,porém de uma forma blindada. Basta lembrar que, como disse acima, não é decorrente de uma concepção do que seja real, ou não, mas de uma suposição estética, talvez retórica. Isto me cheira à relativismo absoluto, o que me parece intelectualmente desonesto.
    De minha parte, sou ateu por que Deus não existe.

      • Eu não saberia opiniar sobre essa parte de sinceridade…

        Quando comecei a ler o Pondé ele ainda se dizia ateu, inclusive, foi uma das coisas que achei mais legal nele: estudar assuntos religiosos e ter a total independência para ter uma posição discordante em relação a eles. Atualmente, ele se coloca como se tivesse um teísmo meio fraco, meio estético, sei lá, o que o torna bem menos interessante: é só outro teísta estudando o teísmo. Talvez com o tempo ele tenha se convencendo daquilo que lia, mas conhece bem demais os problemas de defender um teísmo filosófico e teme ser interpretado como um crente apenas; por isso não assumiria uma posição muito forte nesse sentido.

      • Acho que ele está fazendo uma definição, Felipe. Ele poderia ter dito “sou ateu porque não acredito na possibilidade de transcendência”, por exemplo, o que seria ateísmo também, mas numa definição bem diferente e com consequências diferentes também.

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