Não estou entre os grandes

Para quem esqueceu eu relembro: a luta de classes existe! Disse a moça segurando o megafone.

2E quem não sabe disso? Perguntou-me uma amiga em tom de retórica e eu não respondi, mas sorri fingindo que silenciar significava assentimento. Bem dizendo, eu não sabia e nunca soube bem; mesmo quando adotava soluções milagrosas para os problemas do mundo como se minha vida dependesse delas, sempre tive alguma dúvida.

Esquerda, educação, deus: ao meu modo, já acreditei em cada uma dessas coisas com afinco, porém, depois acumulada certa experiência e leitura, não sei mais o que restou dele, de maneira que quando me questionam a respeito, assinto covardemente com a opinião do interlocutor por medo e preguiça de machucar o que é óbvio e sagrado para ele. Foi por isso que sorri e costumo sorrir sempre.

Tenho sido covarde, admito, mas o que importa agora é que não sei mais como explicar o caos do mundo, que duvido do quanto pode o conhecimento e que também não rezo mais: foram-se as certezas, as grandes teorias, a fé e nem mesmo um vazio ficou no lugar – aliás, que lugar? Foi-se até a lembrança de onde ele ficava. Estou tão longe agora…

Muitos daqueles que comungavam comigo, por sua vez, tiveram igualmente suas experiências e leituras: cresceram, multiplicaram-se, encheram-se de deus, em suma, engrandeceram enquanto eu fiquei cada vez menor e mais livre do peso do mundo. Olhando-os daqui da altura de minha pequenez, vejo que conforme se tornam mais robustos não mudam somente o semblante ou o modo de se vestir, mas também descobrem novas palavras e símbolos com os quais são capazes de descrever cada anomalia cotidiana e mesmo a realidade como um todo. Coisa de quem está no alto e enxerga longe. Dada certa altura qualquer banalidade ganhou ampla profundidade sob seus olhos argutos, passando a envolver conceitos tremendamente complexos e tão enormes eles se tornaram que, tendo a cabeça já atingido o firmamento, conseguem ver que quase nada nesse mundo existe sem que esteja ligado a certas nuvens carregadas de verdades absolutas que eu com minha significância creio que jamais conseguirei alcançar, quem dirá aceitar. Eles garantem que um dia elas choverão sobre mim e só posso pedir que me perdoem, pois meu tamanho me impede de ver as coisas como quem está lá em cima. Eu não estou alheio à minha insignificância e reconheço que Deus está com eles e que quando chegar o juízo final e os proletários ressuscitarem, quando Jesus descer dos céus e os mortos enfim se revoltarem contra a burguesia, ou seja lá qual for a verdade que vingará e terei ignorado, certamente estarei dentre a massa de medíocres, à margem da vanguarda e ao pé das escadarias do Olimpo. Definitivamente não estou entre os grandes.

Eu que sou pequensilhoueto e não conheço o sentido profundo da história, não sei se deus existe e nem mesmo se descobrirei algum dia essas coisas todas (talvez nem me importe saber), nesses últimos anos, em vez de devorar gulosamente as verdades todas que me apeteciam, crescer e engrandecer como fizeram meus colegas, acabei perdendo peso, cabelo e ideias (ok, talvez mais cabelos e ideias do que peso) e, sem aprender verdades profundas, sinto que desaprendi muito daquio que tinha como certo e fiquei mais leve de tudo – quem sabe até demasiadamente, talvez até tenha me tornando um alvo mais fácil para as ventanias que nos arrastam quando não sabemos nos firmar tão bem. Nisso eles talvez tenham razão. Mas apesar de tudo o que os gigantes me fazem ver que perdi sempre que os vejo, tenho me sentido feliz estando mais livre dessas coisas e, para ser sincero, é até bom ter meu curso desviado pelos vendavais de vez em quando.

No mais, creio que ser tão diminuto e ter minha cabeça mais perto do chão que do céu me permite ver o quão distante eles ficaram daqui do mundo dos pequeninos, e, cá entre nós, quando olho atentamente a altura que os separa do solo, sinto certa pena imaginando que algum dia poderão descobrir do pior jeito quão terríveis são as dores da queda.

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2 pensamentos sobre “Não estou entre os grandes

  1. Opa, valeu o elogio Mohamad.

    Eu não tenho isso muito bem resolvido comigo mesmo, então não sei bem como reagir sempre.

    Descobri que com algumas pessoas, principalmente certos marxistas, vegetarianos, cristãos e feministas, não existe diálogo, por outro lado, sinto que quando essas pessoas não encontram oposição, elas simplesmente crescem e contaminam as demais, sendo que é preciso combatê-las de vez em quando, nem que seja para fazê-las encontrar um limite.

    Agora eu concordo muito contigo com essa coisa da preguiça, é chato mesmo e nem sempre dá vontade de conversar com o outro porque parece que ele não vai entender, se entender não estar a altura de dialogar e consequentemente não vai conseguir mudar o que pensa. Eu não sei bem qual é a medida do equilíbrio.

  2. “assinto covardemente com a opinião do interlocutor por medo e preguiça de machucar o que é óbvio e sagrado para ele.” – E fala mal do meu Santo Newton para você ver o que eu faço com você! Hahaha!

    Mano, eu também já fui “menos preguiçoso” ao ver coisas das quais discordo, mas hoje me bate uma preguiça tão grande quando eu vejo um infeliz falando merda, e penso em todo o esforço de transpor montanhas que eu teria de fazer para fazê-lo minimamente enxergar a coisa de um jeito “menos errado”, e no final das contas eu sempre me pergunto, “mas todo esse esforço vai valer de quê?” e é nessa pergunta que eu paro… Hahaha!

    Dentro da UNIFESP, por exemplo, eu só converso sobre assuntos mais acadêmicos com o pessoal do grupo do Plínio mesmo… Com o resto não dá não. Muito mais por mim do que por eles… Mas eles tem seu quinhão também. 😀

    Ótimo texto Bruno, uma pena que seja proveitoso apenas por um pequeno punhadinho.

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