Resenha: Os filósofos – Herculano Pires

Um passeio anacrônico e ingênuo pela vida de alguns filósofos

Fui kardecista 3durante alguns anos e devo muito de minha sanidade aos livros de Kardec e à minha convivência com espíritas no período em que comungava com eles. Por isso, li com interesse Os filósofos e mantive durante boa parte do livro certa consideração pelo autor, primeiramente, por já ter estado “do mesmo lado que ele”, mas também porque espíritas são raros na Filosofia e pouco conhecemos suas ideias. Todos sabem que o catolicismo tem uma história repleta de nomes filosoficamente importantes como Agostinho e Tomás, que o islamismo nos deu Avicena e Averróis, que o judaísmo pariu Avicebron e Maimônides, pensadores que ajudaram a transformar suas respectivas religiões em filosofias e assim tanto enriqueceram uma quanto a outra; o espiritismo, todavia, jamais igualou tal feito e não legou à história quaisquer contribuições filosóficas conhecidas fora das fronteiras dessa religião, uma vez que, mesmo que tenham existido, não tiveram força o bastante para se impor aos não-espíritas e assim alcançar uma relevância que independa de uma concordância com esta fé.

Por isso, se há uma Filosofia Espírita (ou com base no espiritismo) que pretenda ultrapassar os portões dos centros kardecistas, cabe ainda aos filósofos descobri-la ou aos crentes escrevê-la. Como pretendo demonstrar até o fim desta resenha, no que depender do livro de Herculano Pires, meus colegas espíritas tem ainda um longo caminho do portão para fora.

Decepções gerais com o livro

Sendo direto, meu maior interesse nesse autor era conhecer sua própria filosofia mais que sua maneira de enxergar outros pensadores, isto é, o que eu queria mesmo era saber como o autor concebia a união entre Espiritismo e Filosofia; não o modo pelo qual interpretava outros autores. Os filósofos, entretanto, não é uma obra deste gênero e não possui uma proposta articulada sobre a Filosofia Espírita, embora expresse as concepções do autor em vários momentos. Aqui e ali, entre um comentário e outro a respeito de certo personagem, Herculano nos dá algumas pistas sobre sua própria maneira de pensar, entretanto, o que importa mesmo é informar o leitor a respeito da imensa tradição tida pela Filosofia.

Só para introduzir melhor o assunto, acho não é preciso pensar muito para perceber que resumir uma história de dois mil anos num manual para leigos é uma má ideia. Sem querer apelar a argumentos bobos, há motivos práticos para que seja assim: pouca gente consegue dominar suficientemente tantos conhecimentos diferentes e explicá-los adequadamente ao leitor sem “vulgarizar” os filósofos. Além disso, manuais tendem a envelhecer rapidamente conforme as pesquisas recentes apresentam novos pontos de vistas sobre o assunto, o que faz com que o livro seja rapidamente criticado por especialistas. Seria possível argumentar ainda mais, porém qualquer pessoa sabe que, malgrado todas essas coisas e outras mais, nós precisamos de manuais: eles nos dão uma visão panorâmica da área mesmo que não possam ser assumidos como a última palavra sobre o assunto. Muita gente começa a estudar filosofia porque leu “O mundo de Sofia” ou “Os problemas da Filosofia” alguma vez na vida e é ótimo que seja assim.

Bem, voltando agora ao objeto desta resenha, minha grande decepção com Os filósofos foi perceber que o autor não tinha competência para lidar com os problemas suscitados pela obra, porém, mais que isso, que ele sequer notava a existência desses problemas. Várias das teses são propostas como se fossem óbvias e não imensas fontes de disputas, deixando os leitores sem conhecer os vários pontos de vista existentes sobre os temas abordados, inclusive, algumas vezes o autor até recorre à autoridade de outros filósofos sem reapresentar seus argumentos e dizer porque continuam válidos, como se o ato de concordar com posições de pensadores de outrora não fosse também carregado de polêmicas. O que quero dizer é que Herculano é um filósofo muito amador. Não que ele seja ruim por fazer mal História da Filosofia, mas que seu amadorismo como filósofo se reflete na maneira como concebe a História da Filosofia. Foi decepcionante e ao mesmo tempo instigante observar os muitos problemas da obra e ponderar sobre o que significavam, em suma, tentar entender por que o autor errava e por que errava daquelas maneiras, sendo que, ao fim disso tudo, fui levado a concluir que na base de cada posição filosófica defendida pelo autor está uma concepção bem pobre da História da Filosofia. É sobre isso que tentarei discorrer ao longo deste texto.

O Prefácio e as indefinições conceituais

1 Um dos maiores problemas da obra é a recorrência de indefinições conceituais: Herculano não explica bem os conceitos que usa e deixa o leitor sem entender sua postura num âmbito mais profundo, criando ambiguidades no texto que sumiriam se ele tivesse pensado um pouco melhor. Falta a ele o conhecimento das complicações envolvidas na formulação conceitual, fazendo com que surja daí uma incapacidade de precisar uma postura intelectual coerente, em outras palavras, Herculano não nota que há muitas sutilezas envolvidas no uso dos conceitos, sendo necessário pensar demoradamente sobre eles para bem utilizá-los. Ao explicar no Prefácio o percurso do livro, por exemplo, ele diz: “nosso critério de escolha não foi pessoal, mas histórico, recaindo em nomes que representam períodos” (pág.14), mas a que períodos ele se refere: os históricos ou os filosóficos? Aliás, o que ele entende por cada um deles? A Idade Média, por exemplo, é um período histórico ou filosófico? E o que significaria “representar um período” e qual é o critério elencado para definir isso? A princípio, poderíamos formular uma resposta banal para cada uma dessas questões e preencher tais palavras com o que pensamos que significam, ou seja, podemos simplesmente supor que estamos entendendo o que o autor quer dizer dado aquilo que cremos significar cada um desses termos, entretanto, não estamos tratando de um assunto que possa ser analisado a partir de nosso senso comum sem que isso seja problemático. Quanto se trata de Filosofia não podemos jamais pensar que um autor faz o mesmo uso das palavras que nós, uma vez que essa atividade busca justamente nos retirar de nossas práticas usuais de pensamento e linguagem. Imagine, por exemplo, que alguém comece a Ética de Espinosa crendo que o Deus a quem o filósofo se refere é aquele das religiões, ou que República para Platão é equivalente a “República Federativa do Brasil”. Tanto num caso quanto no outro o leitor colocaria os significados conhecidos desses conceitos em textos que foram escritos muito antes que esses significados fossem criados, por isso, seria induzido ao erro e não entenderia o que esses pensadores propuseram.

O uso dos conceitos de representação e período como o autor faz é pouco detalhado e vai se tornando ainda mais confuso conforme notamos que uma há grande diferença na atribuição de relevância aos diferentes períodos e pensadores. Enquanto dedica um imenso trecho da obra à Antiguidade Clássica e seus filósofos, outros períodos, por sua vez, serão bastante minimizados sem que seja nos seja dada qualquer explicação para tal. Se pensarmos, então, que se trata de um livro que aborda a Filosofia por meio de períodos históricos uma das interpretações possíveis o recorte de Herculano não fará sentido, pois não há motivo para apresentar um número maior de filósofos num período que no outro, que a preocupação não está nos filósofos, mas na História e quem a melhor representa. Atribuir maior ou menor relevância a certas figuras seria algo inútil: importa somente quem melhor explica um tempo, mesmo que seja Diotima e não Platão. Não me parece ser essa a intenção do autor, o que me leva a presumir que ele sustente a ideia de períodos filosóficos em vez de históricos. Se chegarmos a essa conclusão banal, que creio que qualquer um que leia o livro chegará, entretanto, não teremos mesmo assim o suficiente para resolver esse problema conceitual, pois a ideia de período filosófico é também problemática e, para que seja bem utilizada, necessita ser bem desenvolvida. Vou explicar melhor. A denominação de uma época geralmente ocorre depois que ela acaba, pois o presente nunca se conhece muito bem, nem sabe com exatidão em que lugar da história está situado. Os medievais, por exemplo, não se pensavam como intermediários entre a Idade Antiga e Renascimento; não eram “medievais”. Sendo assim, como dizer que um ou outro filósofo é “representativo quanto a certo período” já que essas pessoas não se representavam dentro dessa ideia de período atribuída a si posteriormente por nós que nunca estivemos lá? E mais: todos os filósofos apresentados no livro são aqueles que se colocaram contra o seu próprio tempo por meio de visões inéditas, logo, como eles podem representar o período em que se situam se são justamente aqueles que se colocaram contra ele?

Herculano parte de anacronismos para procurar filósofos que representam sua própria visão do passado, produzindo seleções arbitrárias as quais, se não mostram suas preferências enquanto filósofo, então revelam graves lacunas de conhecimento. A passagem de Ibn Khaldun para a Modernidade ignorando todo o período do Renascimento (com eminentes filósofos como Maquiavel, Bruno, Bacon, Da Vinci, Thomas More, Montaigne, Erasmo e muitos outros) é a mais digna de menção, pois contraria o próprio critério do Prefácio que, embora tencione abordar períodos filosóficos, ignora completamente um deles mesmo havendo ali diversos nomes importantes. Outras seleções igualmente arbitrárias se acumulam com o avançar da obra. Aliás, seria possível questionar de que maneira cada filósofo apresentado no livro é representativo para o período em que está sem obter talvez uma resposta satisfatória. Acontece diversas vezes que um capítulo dedicado a certo filósofo tenha que ser usado para explicar outro não abordado diretamente na obra, mas sem o qual aquele não seria compreensível, o que denuncia que Herculano escolhe mal os autores e depois precisa criar reparos apenas para manter de pé seu critério. Por que apresentar como pensador moderno o estranhíssimo Berkeley, filósofo idiossincrático e de concepções extremamente singulares que pouco seguiram adiante, em detrimento de Hobbes, Locke ou qualquer outro que, na Modernidade, tenha produzido uma filosofia que viria ser tão mais associada as virtudes e vícios do período? E como justificar a escolha de um filósofo árabe para representar também a Filosofia Medieval Judaica, aludida superficialmente em seu capítulo? E por que o Helenismo e o Iluminismo merecem ter apenas um filósofo apresentado enquanto a Grécia antiga merece seis deles já que o critério de seleção de autores não diz respeito à importância histórica dos autores, mas a representatividade dos mesmos em relação aos períodos em que se situam? Eis uma chuva de perguntas que poderiam cair sobre Herculano, mas que no fundo nem o molhariam: ele não sabe o suficiente do assunto para perceber no que se meteu.

A indefinição conceitual ocorre por causa da superficialidade do autor que não nota que uma escolha feita sem meditar é uma escolha que leva adiante a leviandade que a suscita. No capítulo a respeito de Pitágoras, por exemplo, contrapondo as correntes filosóficas de Mileto e Samos, ele diz: “Um representa a libertação do pensamento de seus origens míticas, mas o outro representa o equilíbrio do pensamento em relação às exigências sentimentais do Homem.” (pág.22), entretanto, como sustentar esse tipo de afirmação? Cada uma dessas correntes representa os aspectos apontados para quem ou segundo qual interpretação – dada a partir de que elementos – de suas filosofias? Também aqui vigora o conceito de períodos filosóficos, como uma espécie de contexto de consenso entre os filósofos que os ligaria, permitindo com isso uma interpretação histórica livre de disputas já que os pensadores são analisados a partir de uma ideia externa que os homogeniza. Não passa pela cabeça de Herculano que ele deva recompor tais pensadores por meio de seus próprios escritos e conjunturas e só então formular um conceito de período filosófico, partindo dos elementos do período para o conceito e não o contrário.

Escrita e superficialidade – Parte I

Um dos maiores méritos de Herculano está no estilo da escrita: ele aborda os vários filósofos com uma mistura de biografia e exposição filosófica, produzindo um resultado interessante, mas pouco equilibrado. Frequentemente, a explicitação das teses destes são preteridas em relação às descrições biográficas. Abundam as digressões quanto aos contextos nos quais os pensadores estão, porém falta o aprofundamento filosófico que mostraria ao leitor que a Filosofia é, além de rígida e combativa, também controversa e duvidável, em suma, que filósofos falham. São humanos, ora.

Da maneira como Herculano expõe, cada filósofo aparece como um sábio que traz uma revelação à humanidade e cujo trabalho merece ser reverenciado, quer dizer, aprendido como uma lição da qual temos que nos nutrir bovinamente. Um capim para a alma. Em alguns momentos o leitor se sente como um fiel ouvindo os sermões do padre sobre os santos e as verdades que eles nos revelam. Herculano se infantiliza e infantiliza o leitor (talvez sem perceber) com a visão de que as filosofias seriam um tipo de revelação da verdade partilhada entre pensamentos diferentes, seres superiores a nós a quem precisamos escutar e entender. Como consequência disso, ele raramente critica um filósofo dentro do capítulo em que o aborda, também não problematiza suas posições ou mostra suas incoerências inevitáveis, já que para ele a filosofia é composta de lições ou revelações, em suma, descobertas, e não de expressões singulares de certos indivíduos, portanto, controversas, confusas e até incoerentes, embora eminentemente grandiosas e interessantes. Assim, o leitor nunca é levado a duvidar de qualquer filósofo, quanto a mais a ter a suspeita razoável de que a descrição que Herculano faça deles esteja sendo direcionada por seus próprios dogmas e pressupostos, de maneira a conduzir o leitor a concordar com eles ao final desse percurso. Tudo o que os filósofos dizem soa correto e bom: Descartes “acertou”, Sartre também, aliás, todos os pensadores acertaram ao mesmo tempo (e pasmem!) dizendo coisas absolutamente contraditórias umas em relação as outras… É a essa conclusão bizarra – que o livro nos leva.

No mais, como o autor não se aprofunda nas questões abordadas nem para mostrar que são profundas e instruir o leitor dos motivos da existência de tantas divergências dentro do assunto, ao final do livro não ficamos com dúvidas, mas com a certeza de que a multiplicidade das filosofias não é um sinal do conflito e das diferenças insolúveis entre elas, porém que a multiplicidade é boa e que, cada pensador ao seu modo, chegou à mesma verdade. Por sinal, uma conclusão muito conveniente para um monoteísta…

Escrita e superficialidade – Parte II

Essa superficialidade de exposição tem dois desdobramentos no decorrer da obra que analisarei agora.

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O primeiro é o excesso de afirmações levianas no texto, isto é, de assertivas controversas que não se problematizam, nem percebem os problemas que carregam. Há um trecho (pág.26), por exemplo, em que, sem discriminar os conceitos de Ciência e Filosofia de seu próprio tempo daqueles da Grécia Antiga, Herculano aponta para um suposto paradoxo na figura de Pitágoras: o de ser filósofo e também místico. Tal percepção de quem vê a Filosofia como problemática para o místico, entretanto, não é antiga, mas moderna: ela não faria sentido na cabeça de um grego embora faça na nossa. Herculano leva os pensamentos de sua própria época para os antigos e tenta responder problemas que nem são problemas. Sócrates, por exemplo, era discípulo do deus Apolo e conversava com seu daimon sem se perguntar se isso era loucura ou não. A religião grega, fosse nos seus temas ou nos seus conceitos, impregnava tão fortemente a Filosofia e a Ciência da época que, de modo geral (pois sempre há exceções), não fazia qualquer sentido dizer que um “cientista” tivesse problemas em ser também religioso. Logo, Pitágoras podia fazer “ciência” sendo “místico”: tudo estava imbricado em alguma medida. Sem querer soar arrogante, mas esse é o básico do básico da História da Filosofia. Juro. É estranho que o autor se dedique a comentar esse aparente paradoxo, flertando, inclusive, com a Parapsicologia (que talvez na época ainda não tivesse sido totalmente desacreditada), o que soa como uma apologia gratuita de suas preferências.

Infelizmente, esse é somente um exemplo de leviandade, sendo que um leitor com alguma cultura filosófica terá muitas oportunidades de, durante o texto, questionar outras afirmações como essa. O filósofo faz várias asserções graves que necessitariam de boa justificativa e que, no entanto, são afirmadas com pouca ênfase, como se fossem banais, o que dá a impressão de que ele espera que seu público compartilhe várias de suas concepções ou que, ao menos, não seja preciso argumentar muito para convencê-lo delas. Quanto mais avancei na leitora de Os filósofos mais vi aumentada a impressão de que esse livro parece ter sido escrito não propriamente para o público leigo em Filosofia, mas para o público kardecista leigo em Filosofia, que além de não ter meios para se contrapor ao que é dito pelo autor, há de concordar facilmente com muitas de suas concepções. Se essa obra fosse uma espécie de leitura espírita a respeito da História da Filosofia, os problemas que apresentei aqui estariam justificados em parte ou, ao menos, seriam explicáveis por conta da adoção de pressupostos kardecistas no ato de filosofar, contudo não é essa a proposta do livro: ele foi feito para o público leigo em geral, sendo assim, está sujeito à críticas quanto aos problemas que suscita já que visa esclarecer um público não especializado a respeito de um assunto.

*

Ain8da sobre afirmações problemáticas, no capítulo sobre Protágoras Herculano produz três tipos delas:

I. faz relações entre filósofos que precisariam de grandes justificativas para que fossem afirmadas seguramente, como aquelas entre Protágoras e Sartre.

II. faz relações entre filósofos que nada acrescentam ao leitor tamanha a distância entre os pensadores e a generalidade da relação apontada (como Protágoras e Bergson por meio da questão do vitalismo, que, diferentemente do que ele aponta, tem origem no Espinosa e não no grego).

A respeito de II convém lembrar que a Grécia antiga criou a Filosofia, o que implica que todo o mundo filosófico posterior deriva dela e que todos os pensadores posteriores possuem relações com os velhos gregos. Com efeito, não faz muito sentido ficar associando os antigos aos filósofos posteriores exceto quando o sucessor tenha lido o antecessor diretamente, ou quando haja algum bom motivo para ligá-los (o que pede justificação, é claro), pois, do contrário, serão feitas relações que até podem ter sentido, mas são absolutamente banais. Habernas pode ser ligado à Sócrates, Descartes pode ser ligado à Sócrates, Sade, Santo Agostinho, Jean Meslier ou qualquer outro pode ser ligado à Sócrates: todos são filósofos e, de um jeito ou de outro, foram influenciados por Sócrates. A questão está em mostrar por que motivo seria relevante fazer uma associação entre esses filósofos que não seja pela mera participação numa tradição comum. Herculano cai nesse tipo de armadilha algumas vezes, fazendo essas associações banais, talvez não por ingenuidade, mas para tentar mostrar a fecundidade dos pensadores que explora a qual se revelaria por razão de sua influência na posterioridade, por sinal, algo que também poderia ser questionado, pois que importa que pessoas tenham lido e sido influenciadas por Protágoras? O pensamento de alguém é melhor pelo reconhecimento que teve dos demais? Não me parece defensável.

III. Finalmente, Herculano expressa frases infelizes que ou sugerem ideias erradas ou são anacrônicas.

Um exemplo de erro seria quando, no capítulo sobre Protágoras, o autor diz que o sofista pretende democratizar a cultura. Tal alegação soa bastante estranha se recordarmos que tais pessoas compunham uma classe profissional que vende conhecimento e cultura não como fins em si mesmos, porém como formas de fazer com que os compradores se projetassem na vida pública, quer dizer, os sofistas usavam o conhecimento como meio para algo. Não quero assumir aqui o partido dos socráticos, entretanto é preciso apontar que os sofistas não estavam assim tão preocupados em “democratizar” qualquer saber caso “democratizar” signifique algo como “espalhar cultura entre as pessoas”, na verdade, eles tencionavam lucrar ensinando seus alunos a vencerem disputas e se projetarem bem na vida pública e não simplesmente amar o saber.

Agora quanto às ideias anacrônicas, elas surgem vez e outra jogando o leitor para fora do livro tamanho o problema que suscitam. São frases como: “O ceticismo de Protágoras encontra em Sócrates seu verdadeiro sentido”. De arrepiar.

*

O segundo desdobramento vindo da superficialidade da exposição é a falta de indicações bibliográficas (como notas de rodapé) ao longo do texto. Essa ausência, que poderia ser surpreendente num manual de filosofia da década de sessenta, não tem qualquer justificativa relevante na obra, mostrando-se menos como um recurso para tornar o texto mais acessível e sem interrupções, que como um indício de que as fontes consultadas pelo autor – em geral, dois ou três livros sobre cada filósofo são poucas e adivinháveis (aliás, o manual clássico de Bertrand Russel é copiado até os ossos e sequer consta na bibliografia; francamente, nem precisava). Para dar um exemplo de como é possível acertar onde Herculano erra, cito a infame Contra história da filosofia (o “manual de filosofia” de Michel Onfray), obra que é interessantíssima justamente por conta dessa ausência de notas e formalidades. São dadas muitas informações na descrição de cada filósofo, sempre organizadas na forma de uma narrativa pessoal do próprio autor a respeito de sua visão da filosofia, o que tanto nos faz perguntar a propósito da fidelidade do texto às informações históricas quanto nos ressalta que deveríamos sustentar a mesma suspeita em relação aos pensadores que fazem longas notas ao pé do mais simples comentário, ou seja, com notas ou sem notas, a descrição de um autor sobre a história da filosofia é sempre parcial e interessada, logo, questione sempre e não se iluda com a formalidade das notas. Esse tipo de conclusão rica e interessante surge todo o tempo no texto Onfray, mas jamais no de Herculano. Indo mais longe, em Os filósofos a ausência de notas acaba se tornando banal porque, ao contrário de Onfray, Herculano não tem muitas informações a dar, muitas polêmicas a (propositalmente) se meter ou grandes investigações a promover. Não sentimos falta de notas explicativas ou referências porque sua exposição jamais deixa de ser pedestre e tola, ela reflete o limite de próprio conhecimento do autor, por isso, não há nada mais para exigir dele.

Repetições descritivas

Expandindo um pouco mais esse assunto, em Os filósofos há algumas concepções espalhadas pela obra que explicitam a maneira pela qual o autor pensa a Filosofia. Entre muitas escolhi apenas algumas que se repetem bastante, vejamos:

a) quando deseja elogiar um autor Herculano o compara com Jesus ou aproxima seu pensamento do cristianismo. No fundo, é como se ele dissesse: esse cara é tão bacana que é até meio cristão.

Um problema nisso consiste no fato de que Herculano elogia os autores de quem gosta vestindo-os com suas próprias referências e transformando-os em algo diferente deles mesmos, melhor dizendo, ele não consegue ver o que um autor tem de bom em si mesmo e que talvez produzisse conflito com suas próprias posições, mas só reconhece as qualidades do outro na medida em que crê que elas possam ser reposicionadas para reforçar seu próprio ponto de vista. Ele valoriza no outro somente aquilo que é conforme com o que ele mesmo pensa. Por óbvio, trata-se de uma posição radicalmente dogmática, que crê que os outros não enxergaram suficientemente algo que só ele e alguns escolhidos viram. Como Herculano gosta deveras dos autores que aborda no livro, haverá por toda obra um tom boboca de quem está “desculpando” esses filósofos por não terem tido sabedoria suficiente para serem cristãos.


b)
há uma constante preocupação em mostrar que é possível, segundo certa ótica de leitura, afastar os filósofos do materialismo e do ceticismo, incorporando-os numa visão mais mística do mundo, como se essas duas correntes fossem problemas que devessem ser evitados (e para um religioso, de fato, são) e não teorias legítimas.

Esse ponto produz dois problemas.

Primeiramente, a seleção de filósofos abordados ignora diversos pensadores que poderiam ameaçar diretamente a visão de mundo do autor, como os céticos, os materialistas do século dezoito, Hobbes, Nietzsche e outros que combateram não apenas os excessos da religião, mas em especial aqueles do cristianismo. Chega a ser engraçado, inicialmente, abrir o índice e notar que todos os catorze pensadores abordados na obra são dogmáticos (no sentido pirrônico do termo: quem tem uma teoria acerca da verdade do mundo) e somente dois são ateus, para, em seguida, confrontar a frase do prefácio que afirma: “nosso critério de escolha não foi pessoal”. Ora, é claro que foi!

Finalmente, o tratamento dispensado aos filósofos faz com que Herculano suprima o que neles poderia ameaçá-lo e mantenha somente o que é inofensivo. Nenhum dos pensadores propõe perguntas desconcertantes ao leitor, embora elas pudessem surgir da boca de Protágoras ou Descartes com imensa facilidade e mostrar ao leitor que a filosofia é ácida e ameaçadora a todos, sobretudo aos filósofos. Herculano evita o desconcerto e prefere a exposição que não afeta nem ao leitor nem a ele mesmo, portanto, não filosofa, apenas pensa aqui e ali coisas que não destoam uma nota sequer dos dogmas e preconceitos que de antemão se possui. Inclusive, quando vai explicar Marx, compara-o com os profetas judeus e Jesus Cristo e afirma que seu materialismo e ateísmo constituem mera contingência histórica… Uma completa perversão do filósofo alemão que só serve serve para atenuar o espanto do leitor carola diante dos caminhos do pensar, consolando-o com a bobagem de que, apesar dos conflitos do pensamento, eles não precisam temer: suas crenças são seguras e estão certas. Podem continuar sendo como sempre foram.

Erros

2

Além dos problemas que citei até agora há certos pontos nos quais Herculano não se expressa mal ou é vítima de seu método, mas simplesmente erra. E erra feio. Há inúmeros pequenos equívocos que não merecem um longo comentário e, no entanto, acumulam-se aos montes no correr do livro produzindo uma sensação gradativa de desconfiança em relação à validade da obra. Devo dizer também que não sou apto a julgar sua avaliação de muitos filósofos, então suponho que devo ter deixado muita coisa escapar, sobretudo, nos capítulos que não citei. Quem souber, que aponte.

Os erros que considerei mais graves foram quatro:

I. No capítulo sobre Protágoras Herculano diz que o sofista sustenta “um ceticismo relativista” o que parece um erro num primeiro momento, no entanto também num segundo e num terceiro. É difícil não torcer o nariz para essa afirmação. Protágoras não era um cético, mas um dogmático. Ele sustenta uma tese a respeito da realidade do mundo, sobre o que as coisas são, foram e sempre serão; um cético, por sua vez, nunca endossaria esse tipo de afirmação, pois se o fizesse não poderia continuar cético (investigador) e teria encontrado a verdade a respeito do mundo. Por que procurar aquilo que já se encontrou?

Suponho que o que esteja em questão aqui seja a equiparação semântica entre pessimismo epistêmico (desconfiança quanto à possibilidade de conhecer) e ceticismo, o que não é correto, já que vários filósofos sustentam diversas maneiras de pessimismo epistêmico sem que, por isso, sejam considerados céticos (Feyrabend, por exemplo). Na afirmação de Herculano vigora uma noção frouxa de ceticismo, como que um sinônimo para descrente ou desconfiado que é usada livremente, contudo, essas características podem ser atribuídas a qualquer filósofo de qualquer corrente e em qualquer tempo. Todo filósofo é descrente ou desconfiado em relação à muitas coisas, inclusive, várias das quais são consideradas como verdades evidentes por outros filósofos. Os céticos caracterizam por um corpo teórico próprio e não só por sua desconfiança em relação ao conhecimento. Descartes, por exemplo, era um pensador tão desconfiado que seu método de filosofar passou a ser conhecido como “o método da dúvida” e nem por isso pode ser considerado um cético. Bem do oposto! Ele acreditava ser possível provar a existência de deus racionalmente, entre outras coisas igualmente complicadas. Por isso, essa denominação de “ceticismo relativista” aplicada à Protágoras revela um anacronismo de Herculano, ela projeta noções surgidas em momentos posteriores àqueles em que o pensador analisado se encontra.

II. Outro erro é a generalização apressada oriunda desse método de tomar um filósofo como representação dos demais. Por vezes, Herculano supõe consensos descabidos entre pensadores de um mesmo período que até poderiam valer para um ou dois, mas não para o grupo todo. No capítulo sobre Kant, por exemplo, ele diz: “Kant conseguiu enfeixar em seu método as constantes fundamentais do pensamento moderno, que, a partir da revolução cartesiana, se opunha ao dogmatismo escolástico e a toda a metafísica tradicional” (pág.225). Ora, Leibnitz já chamava nossa atenção para a existência de muitas verdades nos escritos dos escolásticos, Pascal foi profundamente influenciado por Santo Agostinho e mesmo Espinosa, personagem para quem talvez essa frase funcionasse por promover uma verdadeira guerra contra a metafísica tradicional, não deixa de ser influenciado por Ockham e Maimônides, ambos medievais e “metafísicos tradicionais”, digamos assim. Como sustentar que a oposição ao dogmatismo escolástico e a toda metafísica tradicional é uma constante fundamental da modernidade?

III. Novamente no capítulo sobre Kant, logo no parágrafo seguinte ao que citei, Herculano diz: “Descartes se contentara com a descoberta do cogito, dando por resolvido o problema do Ser e do Mundo”. Um absurdo completo! A partir de que elementos se apoia esse tipo de assertiva? Herculano não diz, apenas supõe essa tolice talvez sem sequer ter lido uma linha do francês, pois se o fizesse veria que a descoberta do cogito nas Meditações ocorre na Meditação Segunda dentro de uma obra que possui seis meditações, ou seja, o cogito está logo no primeiro terço da obra, havendo ainda dois terços de questões metafísicas e epistemológicas por desbravar e resolver, incluindo-se aí o problema do Ser e do Mundo. O cogito não resolve o problema do mundo exterior e nada esclarece sobre a existência de outras verdades; ele é a primeira verdade e um ponto de partida metafísico para a descobertas de outras que talvez existam. O que ele prova é que é possível descobrir alguma verdade ainda que tudo o que saibamos do mundo esteja errado, ainda que nem exista um mundo, por isso, se há ou não outras verdades, é preciso investigar e descobrir. Para isso existem as outras meditações.

IV. Na mesma frase ele ainda diz: “Espinosa aceitara o dogma cartesiano [o cogito], procurando apenas aperfeiçoá-lo”. Nesse momento eu quis fechar o livro. Sério. Afirmar que Espinosa “aceitou o dogma cartesiano” pede pelo menos umas quinze páginas de explicação para que não constitua um erro bizarro. Mais: dizer em seguida que o holandês apenas criou uma filosofia cartesiana aperfeiçoada é uma bobagem tão magnífica que nem merece uma resposta filosófica, pois não se trata de uma proposição filosófica, mas de uma leviandade do autor.

Se eu não me engano, Herculano Pires teve o privilégio de estudar na USP com o Livio Teixeira – com o Lívio Teixeira! Depois disso, a USP deveria fazer um herém para Herculano igual àquele que os judeus fizeram para o Espinosa: maldito seja de dia, maldito seja de noite…

Meu juízo sobre Os filósofos


Sinceramente, não sei quais foram os contributos de Herculano para o espiritismo, no entanto, para a filosofia a julgar unicamente por esse livro eles inexistem. Os filósofos é um trabalho nem medíocre, nem desatualizado, mas lamentável, fruto de incontáveis enganos e que não deveria existir e ser comercializado, pois espalha a desinformação entre o público leigo e lhe dá a impressão de o esclarecer imparcialmente (“nosso critério não foi pessoal”) a respeito de um assunto que agrega visões profundamente comprometidas, enquanto, na verdade, apenas o conduz por incontáveis erros à visão de mundo do autor. Ninguém, nem mesmo um espírita que concorde integralmente com o autor, merece ser iludido por uma obra de divulgação ruim. Que eu seja a última pessoa no mundo a ler este livro.


PS 1: antes que alguém reclame aqui e diga que não posso julgar criticamente o livro uma vez que Herculano está mesmo preocupado em evangeliz… ops, em atingir as massas e que pouco lhe importa ser cuidadoso ou profundo, tenho que dizer o óbvio: a finalidade do livro não deve servir como desculpa para que não apontemos seus problemas meramente porque o público leigo a quem ele se dirige não é capaz de tal, além disso, não deve servir também para que concedamos a Herculano licença para falar o que quiser sobre o assunto sem assumir qualquer responsabilidade por isso. Um autor é responsável por suas ideias e tem que ser acusado delas – é o que espero ter feito aqui. Obviamente, isso vale para mim também: acusem-me.

PS 2: eu sei dos problemas envolvidos nos termos “kardecista” e “espírita”. Usei para facilitar o entendimento do leitor. Por favor, não me atazanem com essas bobagens.


Pires, Herculano. Os filósofos, São Paulo: FEESP, 2001.

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4 pensamentos sobre “Resenha: Os filósofos – Herculano Pires

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