O significado do ceticismo (texto no Blog cético)

Faz um (bom) tempo que escrevi esse texto, porém foi somente hoje que, por precisar dele para preparar uma aula, me dei conta de que ainda não o tinha divulgado aqui, algo que estou corrigindo agora. Como todo texto feito para blogues de colegas, O significado do ceticismo tem um sentido informativo, buscando se debruçar sobre o conceito de ceticismo — sua origem, seu significado contemporâneo — e está muito ancorado nas ideias do filósofo brasileiro Plínio Smith, discípulo do lendário Osvaldo Porchat.

Junto ao racionalismo moderno, o ceticismo é uma das escolas filosóficas que mais influenciou meu caráter e mesmo não o estudando mais formalmente, jamais deixei de ter seus argumentos e problemas em meu pensamento. Para quem como eu tem interesse nas discussões filosóficas a respeito do conhecimento, creio que conhecer o ceticismo é fundamental e fica aqui minha diminuta contribuição nessa direção. Leia aqui.

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O tempo — Mario Quintana

O despertador é um objeto abjeto.

Nele mora o Tempo. O tempo não pode viver sem

[nós, para não parar.

E todas as manhãs nos chama freneticamente como

um velho paralítico a tocar a campainha atroz.

Nós

é que vamos empurrando, dia a dia, sua cadeira de

[rodas.

Nós, os seus escravos.

Só os poetas

os amantes

os bêbados

podem fugir

por instantes

ao Velho… Mas que raiva impotente dá no Velho

quando encontra crianças a brincar de rodas

e não há outro jeito senão desviar delas a sua

[cadeira de rodas!

Porque elas, simplesmente, o ignoram…

Resenha: O alienado — Cirilo S. Lemos

Faz um tempinho que escrevi uma resenha a respeito do livro O alienado, de Cirilo S. Lemos, mas esqueci de dar notícia dela aqui. Trata-se de uma ficção científica a qual tem diversas semelhanças (influências) com a trilogia clássica de Asimov, sendo bastante interessante por se situar na exata medida entre a escrita inteligente e o entretenimento despretensioso. Meu texto é curtinho, mas serve de promoção crítica da obra. Caso tenham interesse, leiam-no aqui.

Aforismos de fundo de gaveta (VII)

Há conceitos que são como chapeis de burro: aqueles que os utilizam logo são identificados e tratados com aquela condescendência mimoseada aos tolos que os faz até esquecer o ridículo de suas cabeças. Embora o amadurecimento chegue naturalmente para alguns deles e faça com que abandonem seus chapeis e superem a vergonha de terem desfilado publicamente nessa condição, é bem mais comum que sigam imaturos e desavergonhados por longo tempo sem sequer notar o tratamento especial que recebem. Cedo ou tarde, porém, mesmo esses atrasados conseguirão notar aquilo que sempre foi óbvio para todos e deixar sua antiga condição: “Vejam, há quem use chapeis de burro”, dirão como se desvelassem uma profunda metafísica ao apontar aqueles de quem se desvencilham e com quem até pouco tempo se misturavam. Trata-se de algo vergonhoso de ver, certamente, mas ao qual não cumpre dirigir desprezo ou piedade; há esperança mesmo para eles, pois assim como descobriram a burrice, talvez um dia possam descobrir a inteligência.

Aforismos de fundo de gaveta (VI)

O pior daqueles que pensam apenas de forma binária é que a única maneira que encontram para compreender o múltiplo é tentar enquadrá-lo em seu esquema (ainda que ao custo da criação de monstros teóricos). Por isso, quando ele é questionado, não é incomum que essas pessoas retruquem com a questiúncula: “Mas o que é que vamos colocar no lugar?”. Nesses momentos é preciso respirar fundo e controlar a impaciência, ao menos até encontrarmos um modo pacífico e claro de dizer: “Também vamos demolir o lugar”.

Resenha: O babuíno de madame Blavatsky — Peter Washington

Sobre gurus, crentes e charlatães

Tão logo passou a produzir resultados que foram tidos como profícuos até mesmo pelo público leigo, a ciência que sucedeu Newton gradativamente se impôs como o melhor conhecimento disponível ao Ocidente e ofuscou até outras tradições com as quais já se relacionara longamente, como a Religião e a Filosofia,  sendo que as tradições as quais não desejavam ou que não eram capazes de se adequar aos critérios da ciência sem se descaracterizar completamente tiveram que se reinventar para sobreviver, fosse a confrontando ou mesmo a ressignificando.

Ao mesmo tempo em que esse novo saber se restringia cada vez mais a poucos pesquisadores altamente especializados, paradoxalmente, ele foi também impondo ao grande público certa racionalidade laica dependente antes de demonstrações que de crenças particulares a qual é fomentadora daquilo que chamamos hoje de “espaço público”. Diante disso, várias religiões se depararam com a escolha de se restringirem ao espaço privado como meras idiossincrasias, ou de buscarem formas alternativas de permanecerem como conhecimento público, afinal, se era possível curar doenças graves e inventar maquinários revolucionários apenas aplicando “luz natural” na investigação da natureza, que valor teriam as especulações que se voltavam para o místico além da simples satisfação pessoal?

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Pedras e vidraças

1. Lembro que existia um aluno na minha primeira graduação que fazia discursos inflamados a cada oportunidade que encontrava. Pouco importava que o professor estivesse apenas explicando um autor ou uma teoria, ou que o questionamento do rapaz não fizesse sentido naquele contexto, pois ele levantaria a mão do mesmo jeito para se opor ao autor, ao professor, ao capitalismo, sei lá. O fato é que suas falas eram inteiramente vazias e sem qualquer resquício de inteligência, o que ajudava a perceber que eram na verdade um embuste, uma performance para atrair a atenção e fazer com que as pessoas quisessem ter com ele — “que parada de revolução é essa aí que você está falando?”.

Como soubemos depois, esse rapaz entrava e saía de de graduações de humanas “espalhando a palavra”. Diante disso, tentei imaginar quem o financiava e o que ele pretendia com aquilo, mas na época eu não tinha ideia dessas coisas. Foi a primeira vez que vi algo do tipo.

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Religare

1. Capitu não tem descrição física em Dom Casmurro. Bento até se aproxima de apresentar uma no misterioso capítulo trinta e dois, porém percebe que seus sentimentos o fazem fracassar, sendo consequência desse fracasso a moça emergente da descrição ser enevoada, esmaecida, e não passar de uma interpretação de uma personagem literária que, por sua vez, é também a estetização das memórias do narrador derivadas de suas experiências com sua amada.

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Gosto do racionalismo

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A filosofia racionalista tem algo que sempre gostei muito que é sua propensão a levar tudo às últimas consequências.

No mundo do racionalista não há irracionalidade que não mereça uma boa sova da razão, não há hipótese descabida que não possa ser considerada seriamente para que seja revelado o seu descabimento. Essa escola não se contenta em provar suas teses, ela quer demonstrar tim-tim por tim-tim por que é impossível que elas sejam falsas, por isso, não há racionalistas covardes ou inofensivos, todos são radicais e meio excêntricos.

Você pode lhes perguntar: mas será que não estamos todos malucos? E se tudo for um sonho na brisa louca dessa vida? E se deus na verdade estiver zoando com a nossa cara?

Sem dúvida alguma eles terão uma resposta para você. Longa.

Se você perguntasse uma coisa dessas a um agostiniano, ele provavelmente te recomendaria que rezasse. Se perguntasse a um psicanalista, provavelmente acabaria numa camisa de força, e assim por diante com respostas diferentes mas igualmente desanimadoras (estou exagerando, claro).

Diante disso, o racionalismo, com suas manias todas de “substancia”, “realidade formal” e sei lá mais o quê, ainda é uma das escolas mais bacanas de se frequentar. Quando você estiver com questões muito estranhas em sua cabeça e, por um motivo ou por outro, tiver a ideia incomum de procurar um filósofo (vai saber o que você esconde dentro dessa cuca), o racionalista provavelmente sentará contigo para te recomendar um livro ou, quem sabe, te dar uma palestra…

Longa, é claro. Aqui não tem moleza.

A questão é se você está disposto ou não. Ousar saber tem seu preço e, ao menos nessa escola, ele não é barato.

Duas inquietações sobre House of Cards

1. Frank Underwood, um político inescrupuloso em ascensão, é uma pessoa surpreendentemente sem preconceitos. Nas várias frentes em que ataca a política americana, ele se permite conversar com as várias alas do congresso (negra, cristã, liberal, o que for) sem jamais hostilizá-las por representarem quem representam.

Frank simplesmente não liga para quem é o outro e essa falta de preconceito é parte de sua força, pois ter preconceitos significaria não poder conversar com esses grupos, não poder tramar com eles, ou ainda, não poder usá-los em benefício próprio. Com isso, é justamente a falta de escrúpulos do personagem que o torna não preconceituoso, sendo que sua virtude não é propriamente moral mas amoral.

Minha inquietação a respeito disso é a seguinte: considerando apenas relações de poder, aquele que tem moral é o fraco? Em outras palavras, moral é coisa de quem não sabe consegue pegar o que quer? No fim das contas, o preconceito é um tipo de escrúpulo, de moral? (Agora baixinho para ninguém ouvir: a moral é um tipo de preconceito?).

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Aforismos de fundo de gaveta (V)

É com grande facilidade que qualquer um adota a ampliação da educação como valor político, afinal, o amplo apreço dedicado à educação faz com que poucos de nós queiram questioná-la como valor. Mas aquele age assim compreenderá mesmo o que está a defender? Ou crerá que um mundo mais educado é aquele em que todos pensarão como ele? Será que não desconfia que nesse novo mundo seus valorezinhos — pequenos e mesquinhos — serão ainda menos considerados na política, na arte e na academia? Será que ignora completamente que, por meio da educação, emergirá um mundo que nenhum de nós será capaz de compreender e tampouco de aprovar, uma vez que seremos nós e nossos valores que serão ultrapassados por ele?

Suspeito que muitos desses pensem que a única tarefa do futuro será lhes dar razão um dia… Em função disso, aconselho-lhes que, para que continuem seguros, sigam se ajoelhando no altar da Ignorância, sua única e verdadeira deusa. Rezem para que ela nunca falhe.

Sobre certas discussões de hoje

Boa parte das discussões que ocorrem hoje na internet constituem uma disputa que se resolve ao determinar quem estaria incluído ou não na “turma dos legais”, sendo que no lugar da argumentação e da crítica serão as censuras morais as quais tentarão, cada qual à sua maneira, retirar o adversário desse grupo, algo que, para quem está dentro dele, é a máxima punição que se pode infligir a alguém.

Como essas discussões deixam de ser argumentativas, elas se restringem à apologia do próprio ponto de vista e à censura do ponto de vista alheio envolvidas numa carga tal de vaidade e sentimentalismo que, por vezes, até pessoas que tentam refletir seriamente acabam seguindo esse comportamento, passando a ignorar a validade e as consequências dos argumentos em questão para simplesmente considerarem se eles estão ou não de acordo com o que seria “cool” no momento.

Mas é possível identificar e escapar desse tipo de comportamento.

Qualquer argumentação bacaninha dessas cai facilmente diante do seguinte critério: caso tal argumentação seja válida, ela então invalidará o argumento (pensamento, etc.) do outro ou apenas lhe prescreverá um comportamento? Caso ela apenas invalide, então temos aí uma ponderação legítima que se resolve no campo argumentativo, mas caso ela resulte numa prescrição, ou pior, caso ela só seja uma prescrição, caberá perguntar se, afinal, estamos mesmo discutindo ou só exigindo que o outro siga os comportamentos que prezamos.

Tal qual toda chantagem emocional, barganha sentimental, a discussão em torno da possibilidade de se enquadrar ou não num grupo só funciona enquanto a aprovação desse grupo for considerada importante, consequentemente, tão logo ela deixe de ser, estaremos livres para sermos o que quisermos.

Menos legais, é claro, isso nunca mais.

Nota: algo que vai no mesmo sentido de meu pensamento é esse textão do Henrique Guilera.

Despetalar

Sonhamos em nossas infâncias as coisas mais ilógicas e magníficas, parecendo existir uma curta distância entre o querer e o realizar a qual tornava a mera idealização de um sonho quase tão poderosa quanto sua realização.

Assim, é melancólico que os brinquedos que já quisemos, a ida aos lugares antes almejados entre outras coisas dessa sorte não tenham qualquer sentido agora, e que nem mesmo lembremos bem daquilo que desejamos por muito tempo e com muita intensidade, pois é justamente hoje que temos meios para alcançar o que já quisemos.

Mas se os velhos sonhos já não fazem mais sentido, quais seriam então os novos? O que queremos realizar de mais extraordinário atualmente ou mesmo num futuro próximo?

Parece inadequado colocar tal questão e mesmo a palavra sonho, quando aplicada a um adulto, soa como se não tivesse muito cabimento, como se sonhar fosse conservar um resquício de imaturidade de tempos idos.

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Biznes

A verdade não vende.

Ela fica lá, encalhada

jogada atrás das estantes dos best-sellers

embaixo de algum tapete

no canto do fundo de algum armário de cozinha que ninguém limpa por dentro

enrolada dentro do baseado empastelado mais próximo

ou mesmo granulada no meio do pó de sua preferência.

Às vezes, tem até um pessoal que aluga.

Olham bem, fazem o empréstimo, colocam na bolsa e levam pra casa. Tudo certinho.

Mas essas almas inquietas jamais ficam mais do que três dias com as verdades alugadas; chegam aqui sempre com aquelas caras de susto, ainda esbaforidas de tanto que correram pra devolver as verdades.

Eles as devolvem ainda frescas, amarguíssimas, mal tocadas ou sequer retiradas da caixa. Um desperdício.

O dia em que o negócio das verdades der certo ficarei riquíssima, mas não poderei dividir meus lucros com quase ninguém: poucos se mantêm após o consumo regular de verdades.

Mas, sabe como é

nada pessoal,

amizade amizade

biznes à parte.

PS: texto roubado do ótimo A las buenas chicas no les pasa nada. Tenham o bom gosto de ir lá conhecer.

O jogador generoso — Charles Baudelaire

Ontem, no meio da multidão do bulevar, senti-me roçado por um Ser misterioso que sempre quis conhecer e a quem reconheci imediatamente, embora jamais o tivesse visto. Havia, sem dúvida, nele, em relação a mim, um desejo análogo, pois ele me deu uma piscada de olho significativa à qual apressei-me em obedecer. Segui-o atentamente e logo desci atrás dele para uma moradia subterrânea deslumbrante onde brilhava um tal luxo que nenhuma habitação acima em Paris poderia oferecer um exemplo aproximado. Pareceu-me singular que eu já tivesse passado tantas vezes ao lado desse prestigioso esconderijo sem adivinhar a entrada. Reinava ali uma atmosfera delicada, conquanto perturbadora que fazia esquecer quase instantaneamente todos os horrores aborrecidos da vida; respirava-se ali uma sombria beatitude, análoga à que deveriam sentir os comedores de lótus, quando desembarcando em uma ilha encantada, iluminada por clarões de uma eterna tarde, sentiam nascer neles, aos sons adormecedores de melodiosas cascatas, o desejo de nunca mais rever seus lares, suas esposas, seus filhos, e de nunca mais voltar a subir sobre as altas ondas do mar.

Havia lá estranhas faces de homens e mulheres marcadas por uma beleza fatal que me parecia ter visto em épocas e em países de que me era impossível lembrar exatamente, e que me inspiravam mais uma fraterna simpatia cio que esse natural medo que nasce ordinariamente do aspecto do desconhecido. Se eu quisesse tentar definir de qualquer maneira a expressão singular de seus olhares, diria que jamais vi olhos brilhando mais energicamente do horror do tédio e do desejo imortal de se sentir viver.

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Resenha: Invasão vertical dos bárbaros — Mario Ferreira dos Santos

Não é difícil entender Mario Ferreira dos Santos…

Ainda que fale em “cristianismo” de forma genérica e polida, é nítida sua preferência pelo catolicismo como religião, instituição e filosofia verdadeira, sendo que diante dessa confissão de fé todas as demais parecem ser incompletas ou simplesmente errôneas, padecendo de uma vontade desviada e de um desconhecimento da verdade que faz com que seus seguidores vivam vidas infelizes das quais são incapazes de se livrar por si mesmos. Por mais que possam ser perdoados, eles merecem antes a palmatória que a clemência.

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Pequena provocação (anti) terapêutica

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1. Certas vertentes da Psicologia pretendem tratar pessoas psiquicamente transtornadas com a técnica da “terapia psicológica”, que consistiria na realização de encontros que promoveriam a fala e a reflexão conjunta acerca daquilo que perturba o paciente. O objetivo dos encontros seria equilibrar a psique do doente e lhe dar subsídios para dissolver alguns de suas perturbações e enfrentar outras.

2. Bem, suponhamos que um paciente melhore de seu transtorno depois de certo tempo fazendo uma terapia psicológica qualquer, supondo também que sua melhora tenha ocorrido em função de eventos paralelos à terapia os quais ele não mencionou ao psicólogo em nenhum momento. Diante de uma situação assim, seria possível ao psicólogo notar que sua terapia não foi responsável pela melhora do paciente? De que maneira?

3. Se o terapeuta puder separar a melhora do paciente da ação de sua terapia, então é possível dizer “se” e “por quais motivos” a terapia funciona bastando separar o que provém da técnica e o que não provém, entretanto, se ele não puder realizar essa separação, então mesmo ocorrendo qualquer melhora no paciente no tempo em que ele é tratado, o psicólogo jamais saberá dizer se ela se deu por conta da terapia ou por outro motivo qualquer, o que torna a técnica terapêutica algo que, em nenhum momento, se pode dizer que funciona ou mesmo que produz qualquer melhora no paciente.

Um adendo: um psicólogo é capaz de montar um esquema bastante razoável da psique de uma pessoa transtornada e, a partir disso, discutir com ela as causas de seus males, suas possibilidades de mudanças e coisas assim. Se o profissional for bom e o paciente estiver mesmo disposto a se repensar e mudar, acho que a terapia pode mesmo “funcionar” a despeito do problema que levantei continuar presente.

Flusser versus Descartes

Este texto é uma pequena consideração a respeito de uma crítica de Vilém Flusser (1920-1991) à filosofia de René Descartes (1596-1650) feita no livro A dúvida.

Ao analisar de forma crítica as afirmações de Flusser pretendo fazer com que este texto também sirva como um esclarecimento a propósito a filosofia de Descartes nos pontos criticados.

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Entrevista — Yara Baumgart

Fruto da magnífica vocação da revista Veja para encontrar figuras trashs entre os endinheirados brasileiros, essa entrevista com a socialite Yara Baumgart é praticamente um clássico da filosofia nacional. Publicada em 2004, ela ficou injustamente sumida nos últimos anos até ser disponibilizada recentemente pela digitalização dos antigos números da revista.

Para todos aqueles que nunca leram essa pérola de nosso jornalismo só posso dizer que os invejo; eu gostaria de poder reler esse texto como se fosse a primeira vez.

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A igreja do diabo — Machado de Assis

Capítulo I — De uma ideia mirífica

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.

Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a ideia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: — Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

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Aforismos de fundo de gaveta (II)

Justiça metafísica. Segundo certa corrente metafísica, todo bem carrega certo pesar ao nascer: ele passa a existir em algum instante temporal específico, inexistindo até o momento de seu surgimento. Disso é possível concluir que todo bem envolve uma ausência de bem ou, em algumas filosofias, um mal — já ao nascer.

Caso venham a considerar isso algum dia, aqueles que tentam restabelecer a justiça finalmente entenderão que sempre partem da pior situação possível, uma vez que no fundamento de todo bem que a justiça pode trazer ou significar há sua ausência. E conquanto ela possa ser compensada, jamais poderá ser desfeita. Por mais bem-vinda que seja, nenhuma justiça futura poderá desfazer sua própria ausência até seu surgimento, consequentemente, o restabelecimento da justiça só poderá ser justo caso se faça não somente para seu presente ou para seu passado, mas, sobretudo, para seu futuro.

Se réfléchir en Adam

MichelangeloPour reconnaître comme la condition humaine est vicieuse et misérable, le péché de Adam toujours m’a fasciné. Son geste nous met dans une situation presque entièrement en lachute, nous condamnant à respirer pour toute la vie le péché et à laisser à nos enfants le même destin malhereux.

Ainsi, il est avec une grande facilité que nous détestons Adam, parce qui nous croyons qu’il aurait pu choisir différemment une fois que nous — en lui regardant en rétrospective — croyons qui nous aurions pu.

Or, mais quelle sottise profonde est celle qui nous fait penser que nous pouvons venger où il a échoué? Pourquoi, en étant un résultat du péché, nous pensons être comme le dieu qui condamne et non comme le pecheur qui commet des erreurs? Par hasard, nous sommes capables de refuser le péché aujourd’hui?

Détester le miroir est seulement une manière insensé d’être en désaccord avec lui et, également, d’échouer miserablement avec lui.

S’il y avait la vérité dans la bible sur ce mythe, dieu aurait felicité son enfant prodigieux:

Trés bien, Adam, tu as correspondu aux attentes de Dieu. Rien de plus!

Mais la bible est religieuse et dit qui nous pouvons fuir notre humanité, que Adam aurait pu ne pas péchér, que nous sommes corrects en lui condamnant et, bien sûr, nous condamner avec lui.

En particulier, je préfère regarder mon ancestral mythologique avec un peu de curiosité et d’admiration. Si un jour je reprendre la prière, je ne vais pas avoir des doutes à lui en parler:

Merci, Adam, pour toute l’humanité que vous m’ai donné.

PS: le texte en portugais.

Susceptibilité

Idées superieures, quelqu’un dit, et quelque chose s’agite dans mon intérieur.

Tout les genres d’idées reçu tout le genre de valeur positive, nous savons bien, mais nous devons convenir qui n’est pas dificile considerer positivement les idées.

Les idées peuvent être erronées, mais elles ne peuvent pas commetre des erreurs, elles peuvent être bonnes ou turpides, mais elles ne pouvent pas juger ce qui est bon ou turpide.

Considèrez vous l’idée de dieux, par exemple: un être omnipotent, omniscient, omniprésent. À partir de ces attributs nous comprenons qu’il est aussi juste, bon, digne d’louange, etc.

Curieusement il est trés facile être supérieur quand il est dieu…

Ah, idées superieures! Quel grandeur a n’être pas susceptible? Quelle valeur a celui que commet pas d’erreur? Ce qui n’ apprend pas en chaque choix le poids de ce qu’il a choisi? Nous souhaitons donner aux choses une valeur d’éternité et les isoler dans un monde en ce qu’elles ne peuvent pas être brisées, mais quelle valeur a ce qu’a toute l’éternité pour être ce qu’il desire? Par hasard, la grandeur n’aura été en chaque nouvelle tentative, nous pouvons poser tout à perdre?

PS: le texte en portugais.

Aforismos de fundo de gaveta (I)

Sobre a gramática da política. Qualquer um que pretenda colocar uma espécie de ponto final na história se põe como o melhor ou mais capaz que os demais, meras vírgulas, como se os períodos da história convergissem para seu surgimento e nenhum outro pudesse surgir posteriormente e ultrapassá-lo para dar continuidade à narrativa. Assim, qualquer forma de ponto final histórico carrega uma arrogância de origem, sendo uma espécie de grito para o futuro: — Bons como eu vocês jamais serão.

As mulheres e a filosofia — Curta-metragem

Lançado faz alguns anos pela ótima Jambeiro filmes, esse curta-metragem surgiu antes do feminismo ficar tão em moda quanto nos últimos anos, por isso, não está envolvido pela necessidade de se reportar a qualquer grupo ou de reafirmar teses e palavras próprias à militância, podendo expor discursos de pessoas reais que não querem representar quem quer que seja, nem pregar nada a ninguém.

Particularmente, eu o acho aconchegante e interessante, principalmente por sua despretensão e por seu formato dialético. Fica aqui para quem tiver interesse.

Pequena teoria sobre ecos sociais

1. Em alguma medida todo intelectual expressa sua origem social: ao ser branco ou negro, age e pensa como branco ou negro, ao receber tantos salários mínimos de pagamento, age e pensa como alguém que vive com essa quantia em dinheiro e assim por diante. Como bem sabemos, nossa origem social nos delimita de vários modos ao colocar palavras em nossas bocas, gestos em nossos corpos e pensamentos em nossas cabeças.

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Espanquemos os pobres! — Charles Baudelaire

Durante quinze dias confinei-me em meu quarto e me cerquei de livros que estavam na moda naqueles tempos (há dezesseis ou dezessete anos); quero falar de livros em que se trata da arte de tornar os povos felizes, sábios e ricos em vinte e quatro horas. Tinha eu digerido engolido, quero dizer todas as elucubrações de todos os empresários da felicidade pública dos que aconselham a todos os pobres a se fazerem escravos e dos que persuadiam que eles são reis destronados. Ninguém acharia surpreendente que eu entrasse então em um estado de espírito vizinho da vertigem ou da estupidez.

Pareceu-me, somente, que eu sentisse, confinado, no fundo do meu intelecto, o germe obscuro de uma ideia superior a todas as fórmulas de curandeiras que eu, recentemente, vira, folheando no dicionário. Mas isso só era a ideia de uma ideia, algo de infinitamente vago.

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Foucault, aquele filósofo…

Um colega da pós-graduação (que não vejo faz muito tempo, aliás) me contou essa história.

Durante as primeiras semanas de sua graduação em Filosofia, seu professor fazia uma introdução à filosofia de Michel Foucault, apresentando de maneira geral as ideias do filósofo para mais tarde especificar o objeto de estudo curso dentro desse panorama.

Num dado momento, porém, um aluno qualquer levantou a mão pedindo a palavra. O professor a concedeu de imediato e o rapaz então questionou:

Professor, esse Foucault é aquele filósofo que era extremamente homossexual?

Calculer le désir

Il est inhabituel que nos désirs soient bien au-delà-de nos classes sociales ou de nos possibilités immédiates de vie. Même le désir, malgrée son aura irrationelle, enroule quelque calcul, principalement la soustraction.

Par exemple: le laid n’attend pas avoir la plus belle. Il est certain qu’il la désire, ardemment, mais elle ne fera pas partie de ses plans, mais seulement de ses rêves, et un moment donné il réveillera d’eux. “Laissez les belles femmes pour les hommes sans imagination”, Proust aurait dit et il n’aurais pas mal dit, en raison de la impossibilité d’avoir ce qu’il desire, le laid le aurait appuyé.

Devant les nombreuses possibilités que nous percevons, avec le temps, qu’elles ont eté jamais possibles, qu’ils étaient seulement visibles, nous choisissons des objectifs chaque fois plus petits et nous faisons semblant qu’il est très facille et naturel faire cette sélection, que nous n’ayont jamais souhaité sinon le peu de choses que nous avons conquis. Nous souhaitons sembler heureux avec nos morceaux, avec nos miettes, comme des renards que suivent en disant aux raisins: “vous etês verts, vous etês verts”…

Mais les impossibilités ne nous laissent pas définitivement, elles restent devant nous comme une vitrage que nous pouvons regarder mais jamais toucher. Si nous la regardons avec un peu d’attention, nous percevons que son réflexe évoque des doutes sur nos sourires calculés et sur notre entêtement en disant qui oui, nous sommes heureux.

PS: le texte en portugais.

Certa ingenuidade filosófica

Por vezes, o aluno de filosofia entra no curso com uma ingenuidade curiosa: ele assiste aulas de Filosofia da Ciência, Teoria do Conhecimento, Lógica, e fica profundamente enfadado com a dimensão da teoria e com aquele palavreado complicado que ela requer. Daí, ele se dirige às aulas de Filosofia Política ou Estética procurando o “real” ali, aguardando ansiosamente o momento em que estudará a “sociedade”, o “seu tempo” e coisas assim.

Afinal, quem não sabe que a Filosofia Política fala da “realidade”, não é mesmo? O que pode ser mais objetivo e menos teórico que a “luta de classes”?

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Pequena provocação (a)teológica

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1. Teoricamente, deus tudo sabe: qualquer ação sua sempre causa exatamente o que ele desejou que causasse, uma vez que seu conhecimento do futuro e do resultado de suas ações permite que elas se deem com exatidão.

Diferentemente dele, nós desconhecemos quase tudo: agimos sem saber qual será o resultado de nossa ação, por isso, erramos frequentemente em nossas tentativas e carregamos incertezas em tudo o que fazemos.

2. Mas se deus tudo sabe, então há algo que ele não sabe: como é não saber. Deus não sabe como é agir sem conhecimento, tal como um mortal, pois tem todo o conhecimento a seu dispor. Sempre que conhece, conhece absolutamente, logo, mesmo que conhecesse a ignorância, conheceria do ponto de vista de quem sabe tudo a respeito dela e não do ponto de vista de quem a experimenta “por dentro”.

Por sinal, mesmo que quisesse experimentar a ignorância enxergando por meio de nossos olhos, como se eles fossem seus óculos, por exemplo, ainda estaria enxergando a partir de sua onisciência e, consequentemente, ainda estaria sabendo de tudo em vez de experimentar a ignorância. Deus, se existir, é incapaz de entender a condição humana justamente porque é incapaz de experimentar a ignorância que a acompanha.

3. Disso se segue que ou o conceito de onisciência é contraditório, ou que deus não é onisciente. Ou que eu fiz algum raciocínio errado aí atrás, é claro.

Que venham as refutações.

Duas notinhas sobre esse texto: a primeira é que a tirinha magnífica que o ilustra vem do ótimo Um sábado qualquer; já a segunda é que minha amiga Victória Fajardo (também filósofa) lhe fez uma objeção interessante que eu gostaria que constasse aqui: ela considerou que Jesus, ao ser um deus que se fez humano e que perdeu sua temporariamente sua onisciência, poderia experimentar a ignorância. Eu concordo com ela, entretanto, acrescento que se depois de sua morte Jesus voltasse a ser onisciente, então o problema voltaria e mesmo quando pensasse em sua própria experiência de ignorância ele estaria incapacitado de experimentá-la.

Chronique de 5 de octobre de 1885 – Machado de Assis

Vous n’imaginez pas oú je suis allé le vendredi. Les lecteurs mal saivaient à peine où j’ai été vendredi. Voilá: j’ai été dans la salle de la fédération spiritiste brésilienne où j’ai ecouté la conférence que le monsieur M. F. Figueira sur le spiritisme.

Je sais que cela est une nouveauté pour les lecteurs, n’est non plus pour la fédération, qui ne m’a vu pas et ni m’a pas invité; mais il est allé cela a été ce qui m’a converti à la doctrine; il a allé ça a été ce cas imprevú de entrer là, rester, écouter et sortir sans que personne ne s’en apperçoivent.

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Quem pode falar sobre discriminação social? (texto no Blog cético)

Publiquei no Blog cético um texto sobre discriminação social e ciências humanas intitulado Quem pode falar sobre discriminação social?. Fazendo um breve resumo de seu conteúdo, o texto enfrenta o argumento de que somente pessoas discriminadas podem identificar discriminação e fazer ciência acerca da discriminação, um assunto bem popular atualmente que pode interessar os leitores deste espaço. Vocês podem conferir o texto aqui.

Athéisme, symboles, gestes

Pour le bien et pour le mal, l’athéisme assassine des symboles et, par conséquence, il assassine aussi la relation affective qui se créait avec eux. Le monde du athée n’a plus de son, de couleurs ou de dieux, mais seulement des vibrations, des spectres de lumière et le vieux “je” en parlant avec lui-même. Tout les sens inventifs que la foi donnait aux choses les plus banales — avec une naiveté sincère ou simplement ignorant — se défont dans l’esprit de l’athée. La superstition et les mystères sont eliminé, parce que sont expliqués les tonnerres, la peste et même la mort.

Ainsi, le vieux geste de saluer la photo d’un mort, par exemple, qui reliait une personne à son quotidien d’une manière profonde à faire que même une photo puisse contenir une vie entière, il reste entièrement destitué de signification. Quand le mort reste hors d’atteinte parce que la médicine et le bon sens disent que personne ne vit au-dela de sa mort, la salutation perd sa symbologie et devient quelque chose de soi pour soi. D’ailleurs, quelque chose un peu ridicule.

La même chose arrive avec beaucoup d’autres symboles et gestes…

Ainsi, je me pose une question: nous, les modernes, les post-modernes, utilisez le mot que vous aurez désiré, nous vivrons sans symboles? Nous percevrons “ce qui est par ce qu’il est”?

Je ne sais pas.

Mais quand je vois quelqu’un faire le signe de la croix devant une église ou quelque chose comme ça, je ne sais comment ne pas me inquiéter avec son geste. Et douter un peau des gains de la perte de la foi.

PS: le texte en portugais.

Resenha (no Café com Tripas): Morela — Edgar Allan Poe

Escrevi recentemente uma resenha do conto Morela, de Edgar Allan Poe, no Café com Tripas. Ainda que o tom daquele blogue difira significativamente do tom desse aqui, a análise do conto é séria e a reflexão é válida o bastante para ser divulgada aqui.

O texto participa do desafio #12MesesDePoe, em que os blogues participantes resenham, a cada novo mês, um conto do poeta inglês.

Vocês podem conferir meu texto aqui.

As forças naturais desconhecidas (trecho) — Camille Flammarion

Por conta de minhas leituras de O babuíno de madame Blavatsky, de Peter Washington, e de algumas meditações recentes a propósito de temas religiosos, decidi compartilhar aqui um velho achado do excelente Obras psicografadas: um capítulo do livro As forças naturais desconhecidas, de Camille Flammarion, astrônomo francês contemporâneo de Kardec que tinha muito a dizer acerca das pesquisas do sobrenatural no século dezenove e das próprias pesquisas do fundador do espiritismo. Aliás, muito mesmo, o capítulo é enorme. Para quem tem gosto pela história da ciência e da religião, no entanto, creio que ele seja bem interessante e possa servir como uma boa fonte para investigações futuras.

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Emancipar o Outro

Foi durante a graduação o período que mais convivi com grupos que pretendiam, de variadas formas, emancipar o Outro. Apesar de muitos deles me serem inteiramente novos, notei que repetiam mais ou menos um mesmo discurso: alegavam conhecer os problemas das pessoas, ofereciam-se para carregar seus fardos e lhes emancipar dos males do mundo, além disso, exigiam para tanto o cumprimento de uma mesma condição, a saber, que o Outro deixasse sua condição de Outro e se juntasse a eles.

Na eventualidade de que tal cooptação não ocorresse, no entanto, instaurar-se-ia dali por diante uma distinção valorativa entre aqueles internos ao grupo dos emancipadores (que seriam positivamente valorados) e aqueles externos a ele (que seriam negativamente valorados), decorrendo daí uma curiosa “hierarquia da emancipação” e, a depender de cada caso, “grupo dentro de grupos” e “hierarquias dentro de hierarquias”.

Confesso que tive meus momentos com essa gente: conheci pessoas, apoiei e desapoiei ideologias, identidades e tendências, decepcionei-me cedo com alguns e tarde com outros por meio de variados graus de sabedoria e burrice de minha parte, contudo, quase todos me decepcionaram e não consigo esconder minha careta sempre que encontro alguém com muitos ideais assim.

Para ser franco, encoleriza-me que eles pensem no Outro como sendo esse animal selvagem que precisa ser espancado até virar doméstico — só estando cativo é que pode ser livre, só sendo submisso é que merece compaixão. A jaula da emancipação, asseguram-me, têm cores amáveis, ideologias bonitas e, sobretudo, companhia, muita companhia.

Por conta disso, suspeito que seja qual for o belo nome que tais pessoas inventem para si a fim se unirem e seja qual for a pureza moral das intenções que aleguem possuir, elas jamais deixarão de afiar suas garras antes de saírem de casa, pois podem precisar ferir quem não quiser ser emancipado. Aparentemente, emancipar o Outro é um processo violento em que, dilacerando-lhe a cara, esculpimos seu rosto para parecer mais com o nosso. Ao fim, nós contemplaremos no espelho mais ou menos a mesma face: a de um monstro.

Espelhar-se em Adão

MichelangeloPor reconhecer como a condição humana é viciosa e miserável, o pecado de Adão sempre me fascinou. Seu ato nos coloca numa situação quase inteiramente decaída, condenando-nos a respirar por toda vida o pecado e a legar aos nossos filhos o mesmo destino infeliz.

Por causa disso, é com grande facilidade que passamos a odiar Adão, crendo que ele poderia ter escolhido diferentemente porque nós — olhando-o em retrospectiva — acreditamos que poderíamos.

Ora, mas que tolice profunda é essa que nos faz pensar que poderíamos vingar naquilo que ele fracassou? Por que, sendo fruto do pecado, pensamos ser como o deus que condena e não como o pecador que erra? Por acaso somos capazes de recusar o pecado hoje?

Odiar o espelho que é Adão é apenas um modo tolo de discordar dele e, igualmente, de fracassar miseravelmente com ele.

Caso existisse verdade na bíblia a respeito desse mito, deus teria felicitado seu filho prodigioso:

Muito bem, Adão. Pecaste: correspondeste às expectativas do próprio Deus. E nada pode ser maior!

Mas a bíblia envereda pela religião e diz que podemos fugir à nossa humanidade, que Adão poderia não ter pecado, que estamos corretos em condená-lo e, é claro, em nos condenarmos com ele.

Particularmente, prefiro contemplar meu ancestral mitológico com alguma curiosidade e admiração. Se um dia voltar a rezar, não terei dúvidas em lhe dizer:

— Obrigado, Adão, por toda a humanidade que me deste.

Resenha (no Café com Tripas): O último adeus – Cynthia Hand

Publiquei no Café com Tripas uma resenha do livro O último adeus, de Cynthia Hand.

A primeira vista, a obra está dentro do nicho de entretenimento para jovens adultos (YA) e não interessaria os leitores daqui, apesar disso, para escrever a seu respeito tive que ponderar bastante sobre a relação entre interpretação textual e crítica literária, um assunto o qual já abordei diversas vezes neste espaço (como nessa resenha e nesse texto) e pode interessar aqueles que o frequentam.

O tom utilizado lá é consideravelmente diferente do que uso aqui, porém, o conteúdo preserva o mesmo cuidado que procuro ter com os textos deste blogue. Confiram neste link.

Crônica de 5 de outubro de 1885 — Machado de Assis

Mal adivinham os leitores onde estive sexta-feira. Lá vai; estive na sala da Federação Espírita Brasileira, onde ouvi a conferência que fez o Sr. M. F. Figueira sobre o espiritismo.

Sei que isto, que é uma novidade para os leitores, não o é menos para própria Federação, que me não viu, nem me convidou; mas foi isto mesmo que me converteu à doutrina, foi este caso inesperado de lá entrar, ficar, ouvir e sair, sem que ninguém desse pela coisa.

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Um cético na Cabala — Luiz Felipe Pondé

Que tal ir aos Jardins, em São Paulo, tomar um café gostoso, falar da última viagem ao Vietnã e assistir a uma aula de cabala no Kabbalah Centre da Madonna? Definitivamente um luxo: ver e ser visto, posar de espiritualizado e “aprender” a fazer Deus trabalhar para você. Tudo de bom, não?

Você não precisa disso? Duvido. Você não tem medo da vida? Não minta. Pouco importa se compramos uma saída para o medo no Amex, se andamos de metrô ou de BMW, se frequentamos igrejas evangélicas ou aprendemos palavras mágicas em hebraico ou sânscrito, se trazemos as marcas da idade num rosto envelhecido ou as escondemos atrás da pele esticada. Pouco importa – todos nós temos medo da vida.

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Analyse critique: La visite de la vielle dame — Friedrich Dürrenmatt

La valeur des valeurs morales

Dürrenmatt est un écrivain superficiel. En lisant ses oeuvres nous, nous trouvons personnages qui ne sont pas psycologiquement complexes, et aussi une écriture qui n’impressione pas avec cette tecnhique et avec cette érudition qui se fait respecter nécessairement. Cette superficialité, néanmoins, ne s’oppose pas à ce qui est profond; elle se superpose à lui: “Qui a observé le monde en profondeur perçoit combien de sagesse il y a dans le fait que les hommes soient superficiels. C’est son instinct de conservation qui leur apprend à être inconstants, légers et faux”, Nietzsche a dit. Alors, Dürrenmatt est un écrivain de superficie, des peaux qui cachent des abimes et des tumeurs, il écrit sur ce qui apparaît et sur ce qui se dissimule dans cet apparaître.

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Ateísmo, símbolos, gestos…

Para o bem e para o mal, o ateísmo assassina símbolos e, como consequência disso, assassina também a relação de afeto que se construía com eles. É que o mundo do ateu não tem mais sons, cores ou deuses, só vibrações, espectros de luz e o velho “eu” falando consigo mesmo. Todos aqueles significados inventivos que a fé cedia às coisas mais banais – fosse com uma ingenuidade sincera ou simplesmente ignorante – desvanecem da mente do ateu. Elimina-se toda superstição e mistério, explicam-se os trovões, as pragas e até a morte.

Desse modo, o velho gesto de cumprimentar a foto de um falecido, por exemplo, que atrelava uma pessoa ao seu cotidiano de maneira profunda ao fazer com que até um retrato pudesse conter uma vida inteira, fica inteiramente destituído de sentido. Quando o morto se torna inalcançável porque a medicina e o bom senso dizem que nada se estende além de sua morte, o cumprimentar perde seu aspecto simbólico e se torna algo de si para si. Algo um tanto ridículo, aliás.

O mesmo se dá com infinitos outros símbolo e gestos…

Daí, coloco-me a questão: nós, modernos, pós-modernos, usem o termo que quiserem, viveremos sem símbolos? Teremos um cotidiano despido de mistérios? Amaremos e odiaremos as coisas sem mediações simbólicas? Perceberemos “o que é pelo que é”?

Sei lá.

Mas quando vejo alguém a fazer o sinal da cruz diante de uma igreja ou coisa do tipo, não tenho como não me inquietar com seu gesto. E duvidar um pouco dos ganhos da perda da fé.

PS: traduzi esse texto para o francês aqui.

Calcular o desejo

É incomum que nossas metas estejam muito além de nossas classes sociais ou de nossas possibilidades imediatas de vida. Mesmo o desejo, a despeito de sua aura irracional, envolve algum cálculo, principalmente subtração.

Por exemplo: o feio não espera ter a mais bela. É certo que ele a deseja, ardentemente, mas ela não fará parte de suas metas, somente de seus sonhos, e em algum momento ele acordará deles. “Deixe as mulheres belas para os homens sem imaginação”, diria Proust e não diria mal. Na impossibilidade de ter o que deseja, o feio o endossaria.

Diante das inúmeras possibilidades as quais vamos descobrindo que nunca foram possíveis, que eram somente visíveis, selecionamos metas cada vez menores e fingimos que é fácil e natural fazer tal seleção, e que nunca desejaríamos outras coisas senão aquelas poucas que conquistamos. Queremos parecer contentes com nossos bocados, com nossos farelos, como raposas que seguem dizendo às uvas: “estão verdes, estão verdes”…

Mas as impossibilidades jamais nos deixam definitivamente, elas permanecem diante de nós como uma vidraça que podemos olhar sem jamais tocar. Se a observamos com atenção, veremos que seu reflexo ainda levanta alguma suspeita a respeito de nossos sorrisos calculados e de nossa teimosia em dizer que sim, somos felizes.

PS: fiz uma  versão francesa desse texto aqui e fiz mais algumas reflexões no mesmo sentido desse texto aqui.

Suscetibilidade

Ideias superiores, alguém diz, e algo se agita dentro de mim.

Ideias de todo tipo recebem todo tipo de valor positivo, bem sabemos, mas convenhamos que não é difícil ser positivamente valorado quando se é uma ideia, não?

Ideias podem estar erradas, mas não podem errar, podem ser boas ou torpes, mas não podem julgar o que é bom ou torpe.

Considerem a ideia de deus, por exemplo: um ser onipotente, onipresente e onisciente. Desses atributos se depreende também que ele é justo, bom, digno de louvor, etc.

É curioso que seja tão fácil ser superior quando se é deus…

Ah, ideias superiores! Que grandeza há em não ser suscetível? Que valor há naquilo que não erra, que não descobre a cada escolha o peso do que escolheu? Queremos dar valor de eternidade às coisas, isolando as ideias num mundo em que elas não podem ser trincadas, mas que valor tem aquilo que possui todo o tempo para ser o que quiser ser? Acaso a grandeza não estaria em, a cada nova tentativa, poder pôr tudo a perder?

PS: fiz uma  versão francesa desse texto aqui.

Blogues (falecidos) que ainda leio

Nos céus nebulosos da internet nem sempre é fácil encontrar conteúdos de qualidade, mais ainda, nem sempre aqueles raros santuários que abrigam tais conteúdos recebem visibilidade suficiente para que consigam sobreviver. Como diz aquela música do Legião: “é tão estranho, os bons morrem jovens”, aliás, Renato Russo que o diga.

Pensando nisso, decidi listar aqui alguns blogues que, mesmo não sendo mais atualizados, continuam recebendo minha visita e minhas preces para que jamais saiam do ar. Por razões que tentarei explicar logo mais eu sou grato a cada um deles por terem contribuído significativamente para minha formação com conteúdos de qualidade. Quer eles voltem ou não a ativa um dia, continuarei com minhas preces. Daqui por diante, façam também as de vocês.

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Desconstrução

hqdefaultUm tiranossauro de lego. Corpulento, ameaçador. Dentes coloridos que devorariam eu e você.

Alguém diz: — É preciso desconstruir nossos tiranossauros.

Sinto que devo concordar. Façamos isso então.

Retiremos seus dentes e ele não assustará mais, depois a longa cauda parar evitar surpresas.

O que restará? Um tronco, braços, pernas, uma estrutura — um homem? Ou será mulher? Qualquer coisa masculina ou feminina?

Claro que não.

Desconstruamos também homem, mulher, masculino, feminino e o que mais restar depois disso. Nenhuma estrutura prévia, por mais bacana que seja, estará protegida do desmonte. Retiremos os braços, as pernas, ossos, pulmões, tudo.

O chão ficará uma bagunça: partes por todo lado e nenhuma estrutura que possamos reconhecer.

O que sobra? As peças. E a lembrança das coisas que um dia foram construídas por elas.

Daí, poderemos até inventar de remontar essas estruturas ou mesmo de construir outras mais, contudo, uma vez que a desconstrução tenha sido feita (e uma vez na vida já basta) saberemos que qualquer futura construção será resultado do arbítrio de quem a fez. É tão fácil construir um dinossauro quanto um homem, mas ambos são igualmente desmontáveis. É só lego.

Hoje muitos de nós querem jogar esse jogo, há inúmeras mãos ávidas por desconstruir tiranossauros. Pois bem, desconstruam, acho ótimo, mas seria bom que considerassem que a desconstrução, se bem feita, não protege ou enseja estruturas, pois aquilo que sobra também é desfeito e assim por diante até atingirmos a dureza dos tijolos. Querem mesmo brincar? Brinquem então, mas ao final do jogo seus próprios brinquedos também serão peças, a menos, é claro, que se queira parar antes do fim para proteger alguns deles. Nesse caso, por uma questão de honestidade, vocês terão que deixar de falar em desconstrução. E pular fora do jogo.

PS: este texto nasceu dessa reflexão do Valter Magnaroli.

A cor da consciência

Sala de espera do consultório psiquiátrico, alguns dias antes do feriado da consciência negra.

Minha namorada esperava sua consulta e minha chegada quando uma moça, também negra, sentou-se ao seu lado e puxou assunto. Era militante. Conversaram sobre movimentos sociais, o problema do racismo no Brasil, as lutas por direitos igualitários e outros assuntos assim.

Ao fim do papo, a moça lhe entregou um panfleto e a convidou para participar de um evento político naquele feriado, ao que ela agradeceu e, em sua ingenuidade para com as pessoas, perguntou:

Meu namorado é branco, mas tem muita consciência negra, ele também pode ir?

A reação foi imediata: a mulher deixou de sorrir e sem dizer mais nenhuma palavra arrancou subitamente o panfleto de suas mãos. Depois se levantou e foi sentar em outro banco. Longe. Virava-se de vez em quando para lançar olhares de ódio.

Não fomos ao evento.

Análise do conceito de “dívida histórica”

Creio que aqueles que utilizam o conceito de “dívida histórica” dos brancos para com os negros, desejando com isso defender certas leis e políticas públicas atualmente, não percebem o monstro metafísico que estão a alimentar. Particularmente, entendo que esse conceito é irracional e desnecessário para a defesa de qualquer posição política de hoje.

Por meio deste meu pequeno texto tentarei mostrar por quê.

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Resenha: Sem filhos — Corinne Maier

Sobre o custo de gerar filhos

Em vários sentidos e contextos a gravidez constitui motivo de comemoração: os avós se felicitam pela própria continuidade, as mães exibem suas barrigas como troféus e os pais são parabenizados pelo sexo bem feito. Todos querem cumprimentar quem trouxe um facho de luz a este mundo sombrio e conferir com seus próprios olhos a novidade que nasce. Ter filhos é uma maneira de se integrar socialmente e se ligar a um valor, um rastro de otimismo e fé no futuro que tem seu ápice no nascimento da criança, por isso, poucas posturas são mais polêmicas que o questionar desse valor e há poucas pessoas mais ostracizadas que aquelas que decidiram não procriar.

Deus ordenou que Noé povoasse o mundo e sua voz ecoa até hoje. Convém questioná-la?

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Análise de um argumento “pró-aborto” (Parte I)

Este texto é uma incursão num tema sobre o qual não tenho posições muito firmes, a legalização do aborto. Apresentarei nele um argumento comumente utilizado para defender a discriminalização do aborto e, em seguida, discutirei qual é sua eficácia, quais são suas premissas e assim por diante.

Minha pretensão não é fazer apologias de qualquer tipo, mas analisar filosoficamente o funcionamento desse argumento e demonstrar quais são suas pressuposições e como ele, dependendo da maneira como for formulado, acaba permitindo a defesa de teses bem diversas daquelas que seus utilizadores pretendem.

Suponho que caso os raciocínios colocados aqui não contenham falhas, então eles poderão ser úteis tanto para criticar argumentos como esse quanto para melhorá-los, sendo nesse sentido que este texto pode contribuir para o debate em torno do assunto.

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O cobrador que lia Heidegger — Samir Thomaz

Nem só de Zíbia Gasparetto e Paulo Coelho vivem os leitores dos coletivos urbanos de São Paulo. Com todo o respeito aos leitores da escriba espírita e do glorioso “mago”, talvez a dupla brasileira mais lida hoje no país, mas não é todo dia que, ao transpor a catraca do ônibus, deparamos com o cobrador lendo uma obra de Heidegger.

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Resenha: O moleque Ricardo — José Lins do Rego

O encontro do engenho com a cidade

Faz pouco mais de um ano que iniciei um projeto pessoal com a literatura brasileira, e decidi ler sucessivamente autores do modernismo nacional em direção aos períodos mais antigos. O plano seria conhecer três livros de três escritores dessa corrente literária e depois passar à próxima, aliás, algo que estou prestes a fazer.

Entre os vários autores que li durante esse percurso, José Lins do Rego foi decerto uma de minhas melhores descobertas, sendo simples dizer por quê: é por ser delicioso o que ele escreve e o modo como escreve.  Resumindo suas virtudes do melhor modo que posso, José Lins apresenta ao seu leitor um Brasil que não mais existe e faz isso por meio de uma literatura que não somos mais capazes de praticar. Ele traz um olhar único sobre o Brasil que faz com que mesmo uma obra como O moleque Ricardo,que não está entre seus maiores acertos como artista, contenha qualidades que não estão em poder de nenhum escritor hodierno repetir.

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Complexo de vira-latas — Nelson Rodrigues

Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto:

— Não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?

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Resenha: Parque Industrial — Patrícia Galvão

Literatura e militância

Há uma maneira popular de se falar da obra de Patrícia Galvão que consiste em se evitar falar da obra de Patrícia Galvão e apenas ressaltar o folclore em torno da autora, ficando subentendido que aquilo que ela escreveu foi tão rico quanto aquilo que viveu.

Particularmente, considero que isso rebaixa a obra por colocar seu valor fora de si, deixando intocado qualquer mérito próprio que ela possa ter, e foi pensando nisso que planejei esta resenha: pretendo me contrapôr a essa análise que parte das circunstâncias da obra para julgar seu valor e analisar Parque industrial a partir dos méritos próprios à literatura que ela apresenta.

Como método de exposição dessa análise decidi brincar um pouco com o marxismo da autora e escrevi este texto na forma de um confrontamento dialético de ideias. Apresentarei sucessivamente as virtudes do livro (Por Pagu) e seus problemas (Contra Pagu), por fim, terminarei com uma síntese de tudo (Sintetizando Pagu).

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O papagaio depressivo — Luis Fernando Veríssimo

 Compraram o papagaio com a garantia que era um papagaio falador. Não calava a boca. Ia ser divertido. Não há nada mais engraçado do que que um papagaio certo? Aquela voz safada, aquele ar gozador. Mas este papagaio era diferente.

No momento em que chegou em casa, o papagaio rodeado pelas crianças. Dali a pouco um dos garotos foi perguntar ao pai:

— O quê?

O Papagaio estava citando Kierkegaard para as crianças. Algo sobre a insignificância do Ser diante do Nada. E fazendo a ressalva que, ao contrário de kierkegaard, ele não encontrava a resposta numa racionalização da cosmogonia cristã. O pai mandou as crianças se afastassem e encarou o papagaio.

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Duas reflexões sobre Olhai os lírios do campo

À semelhança do que fiz com Enterrem meu coração na curva do rio, em vez de resenhar Olhai os lírios do campo decidi escrever alguns pensamentos suscitados pelo livro.

Sobre o conteúdo desses pensamentos, devo advertir que não estou pretendendo fazer uma descrição fidedigna da obra, mas a situando em minha subjetividade e fazendo com que dialogue com ela.

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Resenha: Y: O último homem — Brian C. Vaughan e Pia Guerra

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A humanidade emasculada

A premissa de Y: O último homem é bastante simples: uma infecção misteriosa eliminou subitamente todos os mamíferos machos do planeta, exceto pelo ilusionista Yorick Brown e seu macaco de estimação Ampersand, sendo o destino deles e do resto do mundo aquilo que a história pretende nos apresentar.

Participando daquele conjunto de obras que situa seus acontecimentos no fim do mundo, essa HQ foge um pouco das velhas discussões acerca da sobrevivência humana em situações extremas para tocar temas atualíssimos como relações de gênero e machismo. Ao narrar a vida de personagens impossibilitados de assumir as mentalidades socialmente estabelecidas para seus sexos, conquanto dialoguem constantemente com elas e com os discursos que as legitimam, Y: O último homem nos apresenta uma trama rica e inteligentemente situada na história contemporânea, suscitando tanto questões quanto à condição social do homem e da mulher quanto à política ocidental recente e seus extremismos medonhos.

A despeito desse panorama que a envolve, a obra não se torna uma discussão teórica travestida de narrativa, mas uma história sobre pessoas, aliás, uma boa história repleta de elementos interessantes.

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Análise: Descartes e a psicologia da dúvida — Olavo de Carvalho

Dedico estas reflexões ao meu amigo Marcelo Ronconi.

Este texto integra uma série que tem por objetivo analisar parágrafo por parágrafo alguns artigos de filosofia que dizem respeito aos meus interesses de pesquisa e meditação pessoal. Abordarei nele a primeira parte de Descartes e a psicologia da dúvida, texto de Olavo de Carvalho que busca apresentar e refutar alguns pressupostos da filosofia cartesiana.

Antes de passarmos à análise do artigo, entretanto, convém dizer que, dada a quantidade de equívocos que ele contém e do esforço requerido para desfazê-los, depois de apresentar os problemas da interpretação de Olavo eu não exporei ao leitor qual seria a maneira correta de interpretar Descartes, além disso, que pelos mesmos motivos eu não analisarei a segunda parte do artigo.

Para aqueles que desejarem conhecer adequadamente a questão, todavia, eu indico a leitura do primeiro capítulo livro de Enéias Forlin O papel da dúvida metafísica no processo de constituição do cogito (Humanitas, 2004).

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“A que vulgarmente chamamos Brasil”

Antes de fixar o nome que tem hoje nosso país recebeu diversos outros. Um dos primeiros foi Terra de Santa Cruz (ou Vera Cruz), como todos sabem, porém muitos outros foram utilizados nos vários documentos que deram notícia de sua existência.

Ainda no século em que foi descoberto, alguns cronistas insistiram nesse nome original por conta da acepção religiosa que ele carregava. Terra de Santa Cruz conferia ao novo lugar uma finalidade excelsa que parecia ser mais conforme aos planos de deus. Como uma forma de fortalecer a nomenclatura e fazê-la vingar escreveram até mesmo uma História da província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil.

Eis um título curioso para um livro.

Ele nos faz notar que Brasil (grafado também como Bracir, Bersil, Bresilge, Bracil e outros) era o nome vulgar que sublinhava os interesses mesquinhos dos homens e remetia à mundanidade e à corporeidade da terra.

De certa forma a palavra feria a finalidade superior que os cronistas queriam lhe conferir e aí estava a importância do nome: ele decretava a razão de ser daquela terra. Ela serviria às finalidades de deus ou do diabo?

Queriam os cronistas que servisse às de deus e por isso insistiram na Terra de Santa Cruz. Botaram o nome na capa do livro e tudo. Acho que ninguém leu.

A despeito desse nobre objetivo, aqueles que colonizaram o Brasil jamais deixaram de buscar no país a corporeidade de seus recursos e a materialidade daquilo que ele pôde oferecer para fins de enriquecimento pessoal, ainda que a expensas dos povos que viviam aqui.

O divino age de maneiras misteriosas…

Onde estariam agora as cruzes santas e as finalidades superiores? Fugiram com as caravelas pelo mar sem fim.

Bem, mas e os índios? Foram ter com deus.

Ficamos apenas nós com o nome de uma mercadoria para designar um drama, um país.

Mas e o deus das cruzes santas aonde foi? Onde estará deus?

Águas passadas, amigos, águas passadas…

PS: este texto foi inteiramente baseado no artigo O nome do Brasil, de Laura de Mello e Souza.

Quase fábula

Uma amiga. Contava-me  sobre um rapaz:

Gosto dele mas não é bonito, dizia.

(Aliás, bonita ela também não era, digo eu, mas bastava que fosse bela aos olhos dele).

O rapaz tinha um jeito simpático que a agradava, apesar do corpo e do rosto desventurados.

Que fazer então? Ela me perguntou. A questão era mais difícil do que parece.

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Análise: O sentido de uma filosofia brasileira — Márcio Nicodemos

Faz algum tempo que tenho desejado iniciar algumas análises de artigos que, por seu tamanho diminuto e por sua argumentação pouco densa, podem ser escritas com celeridade e sem tanto esforço quanto as resenhas de livros. Os assuntos de tais artigos, além de servirem como contributos aos meus interesses de pesquisa e meditação pessoal, também realizam discussões interessantes para o formato do blogue.

Tendo isso em mente, separei alguns deles para abordar daqui por diante. Começarei com o texto de Márcio Nicodemos, O sentido de uma filosofia brasileira, um texto de graduação que discute o tema da filosofia brasileira e que, embora apresente equívocos que um filósofo mais maduro não cometeria, possuindo pouca importância para a filosofia num sentido amplo e pouco valor para a própria produção acadêmica daquele que o teceu, apresenta um tema interessante e contém algumas boas ideias que merecem ser avaliadas seriamente.

Como método de abordagem, exporei primeiramente a argumentação do autor na ordem em que aparece e em seguida tecerei comentários a acerca dela, buscando criticá-la a partir dos próprios problemas dessa argumentação e não de minhas posições pessoais sobre o assunto. Para evitar uma análise demasiadamente longa, também evitarei analisar o texto em seu aspecto estilístico e em sua organização mais geral, como costumo fazer com os livros, e restringirei minha análise à argumentação principal do texto.

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Ler Paulo Freire

Ainda sobre A educação e o processo de mudança social, diz Paulo Freire na introdução:

Comecemos por pensar sobre nós mesmos e tratemos de encontrar, na natureza do homem, algo que possa constituir o núcleo fundamental onde se sustente o processo de educação.

Qual seria este núcleo captável a partir de nossa própria experiência existencial?

Este núcleo seria o inacabamento ou a inconclusão do homem.

O cão e a árvore também são inacabados, mas o homem se sabe inacabado e por isso se educa. Não haveria educação se o homem fosse um ser acabado. O homem pergunta-se: quem sou eu? de onde venho? onde posso estar? O homem pode refletir e colocar-se num determinado momento, numa certa realidade: é um ser na busca constante de ser mais e, como pode fazer esta auto-reflexão, pode descobrir-se como um ser inacabado, que está em constante busca. Eis aqui a raiz da educação.

A educação é uma resposta da finitude da infinitude. A educação é possível para o homem, porque este é inacabado e sabe-se inacabado. Isto leva-o à sua perfeição.

Freire, Paulo. Educação e mudança, pág.27-28. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

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Nota sobre Machado e a escravidão

MACHADOAcusaram Machado de se omitir quanto a escravidão; antes tinham acusado Cruz e Sousa da mesma coisa.

Foram uns imbecis que o fizeram.

Poderiam ter lido Machado com cuidado e visto ali — logo depois do óbvio — as severas críticas que ele dirigia contra a escravidão. Poderiam ter procurado saber do assunto e encontrariam bons motivos para que ficassem em silêncio, mas não procuraram nada. Leram literatura sofisticada de olhos fechados e depois disseram que a escuridão era oca.

Foram imbecis, completamente imbecis.

Machado poderia não ter escrito uma linha sequer sobre a escravidão e mesmo assim eles seriam imbecis, poderia ter feito somente poemas sobre moscas, caso quisesse, que eles ainda seriam imbecis.

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A falácia da desmilitarização da polícia – José Maria e Silva

O texto abaixo foi originalmente publicado pelo sociólogo e jornalista José Maria e Silva no Palavra acesa, mas como seu blogue está desativado desde 2013 e o tema abordado continua importantíssimo decidi republicá-lo aqui.

Mais que defender aquilo mesmo que está em seu título, creio que a preocupação fundamental contida no texto seja desfazer caricaturas da discussão sobre polícia e sociedade. Nesse aspecto ele é excelente e representa minha opinião melhor do que eu mesmo poderia.

No mais, os links e as caricaturas de mal gosto colocadas ao longo da argumentação foram acréscimos meus. Elas pertencem ao Carlos Latuff e representam aqui essa visão vulgarizada da polícia (e da política) que o texto combate.

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Argumentos toscos que ouvimos nessa vida (Parte X)

1. Você só está chateado com deus.

2. É o livro mais antigo do mundo.

3. Isso ainda está por ser revelado…

4. É uma questão de interpretação.

5. Deus criou o mundo do jeito que é: com os fósseis enterrados e tudo.

6. A inquisição nunca matou ninguém; quem matava era o Estado.

7. Não, deus não ia deixar uma coisa ruim assim acontecer.

8. Você não deveria falar mal de uma religião que não é sua.

9. Por que você não vai criticar lá no oriente?

10. Quer ser mais que deus?

Nota: a série Argumentos toscos que ouvimos nessa vida surgiu como uma maneira de rir das bizarrices argumentativas que perpassam nosso cotidiano, descontextualizando-as para que mostrem seu ridículo. Nota-se facilmente que a maioria dos argumentos expostos nessas dez partes tem um cunho religioso, entretanto, eu não os escolhi para expressar qualquer desdém por pessoas religiosas ou mesmo por qualquer religião, mas porque eles partiram de minha vivência com outras pessoas. Caso minha vida fosse outra tais argumentos também seriam.

Neste momento, eu gostaria de encerrar a série, pois quero iniciar outras que promovam discussões em formatos curtos como esse, no entanto, tenho a impressão de que ouvi tantos argumentos que seria impossível parar de publicá-la (tenho até outras partes prontas). Por conta disso, contentarei-me com um meio termo: farei uma pausa na série. No futuro voltarei a elencar novos argumentos e a dar continuidade nela, mas, por ora, quero experimentar novas coisas. Até lá.

Resenha: Master Onani Kurosawa — Yokota Takuma

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Considerações a respeito e a partir da obra

Um mangá que tem a masturbação como tema está muito próximo de fracassar como obra. Primeramente, por se dirigir ao público jovem, ele pode ser estupidamente didático ou tão imaturo quanto pensa que seu público é, além disso, também pode buscar atrair o leitor pelo sexo com o objetivo de excitá-lo, transformando-se em simples pornografia.

Master Onani Kurosawa, todavia, escapa dessas armadilhas por não se reduzir ao tema da masturbação e fazer uso dele para contar a história sentimental do protagonista, apresentando certo período de sua vida a partir da transformação de seus sentimentos. O onanismo funciona como uma maneira de situar a história e como um caleidoscópio da interioridade do personagem, mostrando o que lhe ocupa a mente quando ele não está com as outras pessoas e pode olhar para si sem suas máscaras sociais.

Essa abordagem muitíssimo interessante faz com que o mangá suscite diversas discussões a respeito da sexualidade e, por conta disso, mais que resenhar a história contida ali, eu tentarei iniciar algumas dessas discussões nas linhas a seguir.

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Da impossibilidade de descrever os olhos de Capitu

Machado-MachadodAssis-webNo capítulo 32 de Dom Casmurro Bentinho descreve os olhos de Capitu da seguinte maneira:

Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.”

A descrição é física: os olhos lembrariam o mar em seus momentos de ressaca a tragar para si quem os observa; ao mesmo tempo ela é também insuficiente: “Vá, de ressaca”, diz o narrador queixoso. O físico daria uma “ideia da feição” ao descrever de alguma maneira aquilo que é percebido, mas só alcançaria uma descrição metafórica

Bem, por que então a metáfora? 

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Diálogos sobre a religião e a morte (Parte I)

Basicamente, o texto que segue é um diálogo entre colegas.

Ele constitui a primeira parte de um diálogo entre eu e o Mailson Cabral (do Templo e Taverna) a respeito do tema da morte, englobando religião, filosofia e coisas mais. A ideia foi fazer um diálogo franco e sem grandes rodeios, em que pudéssemos expor nossas posições e inquietações sobre o assunto sem necessariamente concluir uma verdade ao fim. O resultado vocês podem acompanhar logo abaixo.

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Resenha: Fundação (trilogia) — Isaac Asimov

Tensões entre indivíduo e civilização

Trilogia A Fundação - Isaac AsimovTem pelo menos três anos que comprei um box com a trilogia de Asimov – Fundação, Fundação e Império e Segunda Fundação – e a abandonei numa estante. Era uma caixinha preta linda feita para ser uma armadilha para leitores tolos como eu, ávidos por adquirir bem mais do que poderiam ler, sendo que ao finalmente tomar os livros para ler, mês passado, eles estavam cobertos por uma triste camada de poeira que me fez sentir alguma culpa pela demora. Apesar disso, não direi que me arrependo desse tardar, afinal, ganhei com outras leituras, mas apenas que após os ter lido fiquei feliz pela aquisição. No fim das contas, conheci uma obra de grande qualidade.

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“Sócrates era inimigo das pessoa e da sociedade”

Disse assim, desse jeito mesmo que escrevi. Era uma aluna do segundo ano do ensino médio recitando uma redação para uma sala mais ou menos interessada. Disse também outras coisas igualmente curiosas que não convém retomar, inclusive porque ela mesma deve ter esquecido logo depois de falar.socrates-caricature-gary-brown

O inquietante era que em situações diferentes daquela, quando conversava diretamente com seus colegas no intervalo ou coisa parecida, a mesma aluna era bastante comunicativa e dispunha de um conjunto amplo de gírias, gestos e bordões para falar com outros alunos, sendo bastante consciente daquilo que queria expressar; apesar disso, naquele momento em que lia um texto perante a professora, sua fala empobrecia como se ela fosse uma criança engatinhando num idioma novo. As sentenças que construía com vocábulos pouco familiares eram desajeitadas e até vazias de sentido, tal como essa que dá título a esta crônica: “Sócrates era inimigo das pessoa e da sociedade”.

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Sobre o tempo e a memória nas Confissões de Agostinho

9789722713269Diz Agostinho que: “Sem dúvida que a memória é como uma espécie de estômago da alma” (pág.467), recorrendo à uma metáfora corpórea que não pretende asserir que a memória seja uma faculdade do corpo, na verdade, ela perpassaria o corpo sem se confundir com ele por existir apenas na alma.

Como não tem forma corpórea, a memória também não é um “local” onde está “armazenado” aquilo que vivemos. Nossas lembranças não podem ser recolhidas da memória como se puséssemos nossa mão dentro de um recipiente para retirá-las de lá. Elas não estão situadas no espaço físico como corpos.

Além disso, nossas lembranças não estão sujeitas ao tempo tal como as sensações que as produziram, pois enquanto as sensações desaparecem tão logo certo período decorra, as lembranças delas permanecem indefinidamente e podem, inclusive, reaparecer subitamente quando não são chamadas.

O que significaria, então, apresentar a memória como “uma espécie de estômago”? 

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Resenha: Solanin — Inio Asano

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Viver simplesmente

Solanin, manga de dois volumes assinado por Inio Asano, não tem emoções fortes, nem mesmo uma trama poderosa, aliás, qualquer tentativa de escrever uma sinopse a seu respeito incorre no risco de desanimar o leitor, uma vez que ela anunciará uma história com personagens e conflitos que bem pouco impactam aquele que a lê. Afinal, qual de nós quer saber de pessoas que não são excepcionalmente únicas, que não passam por fardos pesados demais e tampouco tem um grande destino por percorrer? Quem deseja observar as existências simples e chatinhas de jovens que não representam uma juventude idealizada, reflexo de propagandas e de imagens da cultura pop? Quem quer saber da vida?

Todos nós?

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Argumentos toscos que ouvimos nessa vida (Parte IX)

1. Antes de tudo, você precisa sentir.

2. Mas antes você precisa acreditar.

3. É objetivo: eu experimentei em minha vida.

4. É óbvio: não preciso demonstrar.

5. É científico porque tem método.

6. Eu não defendo dogmas; defendo princípios.

7. Nossa ciência está baseada nos cinco sentidos.

8. E é preciso ver com os olhos do espírito.

9. A ciência está cada vez mais perto da religião.

10. Não importa qual religião, o importante é ter Jesus.

Resenha: De como fazer filosofia sem ser grego, estar morto ou ser gênio — Gonzalo Palacios

como_fazer_filosofia2004Para pensar o pensamento brasileiro

No Brasil, todos os anos os professores universitários de Filosofia levam para a sala de aula certa expectativa: eles não esperam encontrar dentre seus alunos o novo Descartes ou o novo Wittgenstein que irá revolucionar a cultura e mudar nossa maneira de fazer filosofia, sendo assim, eles os ensinam como se estes fossem se tornar, no melhor dos mundos possíveis, também professores universitários. De igual modo, todos os anos esses estudantes agem conforme às expectativas de seus professores, estudando pouco nos anos de graduação e descobrindo como conservar as mesmas opiniões que já tinham antes de se tornarem filósofos durante os anos de pesquisa.

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A certeza nas Meditações de Descartes

O texto abaixo consiste numa breve comunicação que realizei durante a Oitava Semana de Orientação Filosófica e Acadêmica (VIII SOFIA) da Unifesp. Como tive a oportunidade de atuar na organização de duas edições desse evento, foi bastante agradável poder me apresentar nele este ano.

Basicamente, meu texto expunha algumas problemáticas da História da Filosofia Moderna e da filosofia de René Descates. Como este não é um espaço específico para filósofos, mudei algumas coisas nele visando torná-lo mais acessível aos leitores daqui. Façam um bom proveito.

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Resenha: Máquina de pinball — Clara Averbuck

Literatura não-massificada não-literária

maquina_de_pinball_1Quando soube do livro de Clara Averbuck me pareceu interessante que ele alcançasse certa notoriedade sem que fosse pelos meios que eu conhecia. A meu ver, existiriam alguns modos específicos pelos quais um livro poderia ser reconhecido: ele poderia ter um grande mérito literário e se tornar uma referência cultural duradoura, ganhando sucessivas reedições; ele poderia participar de uma grande estratégia publicitária e ser comprado e massa pelo público; finalmente, por qualquer motivo que fosse, ele poderia adentrar no sistema formal de ensino, sendo comprado e distribuído entre muitos estudantes. Máquina de pinball, entretanto, faz parte de um outro grupo de livros que sem ser motivado pela grande publicidade ou pelo sistema educacional, também não ganha destaque em função da literatura que contém: ninguém lê Clara Averbuck esperando encontrar uma grande escritora ou um grande livro. O inquietante, no entanto, é que nada disso torne menos atrativo ao público.

Assim, senti necessidade de responder algumas questões vindas dessa reflexão: para quem o livro foi escrito? Como ele atrai o público sem depender da propaganda e da literatura? Tais questões cativaram por algum tempo e será especificamente delas que tratarei nesta resenha, mais que do próprio livro como objeto de fruição. Vejamos no que dará.

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Argumentos toscos que ouvimos nessa vida (Parte VIII)

1. Se você fosse mesmo inteligente não falaria isso…

2. Eu não preciso saber que estou certo, eu sinto.

3. Todo o mundo sabe que isso é verdade.

4. Se tanta gente acredita, só pode ser verdade.

5. Tem pessoas inteligentes que acreditam nisso; não pode ser mentira.

6. As pessoas não podem estar tão enganadas.

7. Você acha que só você é inteligente?

8. Você vai entender quando acontecer com você (ou com um parente seu).

9. Você vai entender quando tiver a minha idade.

10. Você acha que eu sou burro?

Argumentos toscos que ouvimos nessa vida (Parte VII)

1. Einstein era cristão.

2. Buda não ressuscitou.

3. Nietzsche morreu louco.

4. Hawking está tetraplégico.

5. Hitler era ateu (e comunista).

6. Chaplin se converteu no leito de morte.

7. Machado se converteu no leito de morte.

8. O Holocausto foi uma punição contra os judeus por terem traído Jesus Cristo.

9. Quem não conhece deus pelo amor conhece pela dor.

10. Você estudou tanto as outras religiões que misturou as coisas e ficou confuso; eu fico só com a minha e não me confundo.

Resenha: Capitu — Luiz Fernando de Carvalho

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Reler infielmente um clássico infiel

Lançada em 2005 pela Rede Globo com a assinatura do diretor Luiz Fernando de Carvalho, a série Capitu adapta o romance de Machado para a televisão. Tal obra despertou minha atenção desde seu lançamento por dois bons motivos: Dom Casmurro foi o livro que mais vezes reli, além disso, gosto muitíssimo do velho Machado e de seu modo de pensar e escrever.

Sendo assim, escrevi esta resenha para expressar algumas reflexões a respeito da série que aproveitam o fato de eu ter o livro sempre em mente.

Como se trata de uma obra famosa (afinal, passou na Globo) que adapta um livro que está na educação básica dos brasileiros, evitarei abordar aqueles elementos que não constituem novidades e apenas reapresentam uma história que já conhecemos. A bem dizer, pretendo delinear de que maneira Luiz de Carvalho encena Dom Casmurro e cria sua própria obra a partir do livro, pois nisso está a originalidade da série. É o seu olhar interpretando uma obra clássica e escolhendo como reencená-la que importará para a resenha.

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Resenha: A visita da velha senhora — Friedrich Dürrenmatt

S> O valor dos valores morais

Dürrenmatt é um escritor superficial. Lendo suas obras encontramos personagens que não são psicologicamente densos e uma maneira de escrever que não impressiona com aquela técnica e com aquela erudição que se fazem respeitar necessariamente. Tal superficialidade, no entanto, não está contraposta ao que é profundo, mas sobreposta a ele: “Quem observou o mundo em profundidade percebe quanta sabedoria existe no fato de os homens serem superficiais. É seu instinto de conservação que lhes ensina a ser volúveis, ligeiros e falsos”1, diria Nietzsche. Nesse sentido, Dürrenmatt é um escritor de superfície, das peles que escondem abismos e tumores. Ele escreve sobre o que aparece e sobre o que é dissimulado nesse aparecer.

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Resenha: Contra-História da Filosofia — Michel Onfray

Por outra História da Filosofia

A Contra-História da Filosofia ficou bastante conhecida não somente por conta de seu idiossincrático autor, Michel Onfray, mas também por suas intenções bastante provocativas, uma vez que ela, ao pretender subverter certa corrente historiográfica que valorizaria demasiadamente certos filósofos em detrimento de outros, acaba resgatando aqueles pensadores historicamente derrotados, colocados à margem da História. Com isso, ela revira os esqueletos da História da Filosofia e incomoda certo estado de coisas do mundo acadêmico.

Pessoalmente, os livros de Onfray despertaram meu interesse desde que soube deles e, embora tenha lido somente os três primeiros volumes da coleção até agora, espero poder fazer uma caracterização justa dela. Meu estilo segue, por traquinagem, o próprio estilo empregado por Onfray nos livros.

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Sobre o furto de livros

Uma das coisas mais deploráveis que descobri na universidade foi o quão comumente alunos furtam livros. Seja em bibliotecas universitárias, de bairro ou mesmo em feiras de livros e outros eventos assim, é frequente que universitários em grupo ou individualmente surrupiem livros de todos os tipos e valores, que serão lidos, trocados ou vendidos mais tarde.

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Ler Corbisier

Não concordo com Corbisier, mas que ele escreve bonito…

A ignorância da filosofia leva geralmente a supor que essa forma de reflexão, ou de conhecimento, lida com abstrações, enquanto as ciências, as artes e as técnicas, ocupar-se-iam do concreto. Ora, o que ocorre é exatamente o contrário, pois são as ciências, as artes e as técnicas que lidam com abstrações, quer dizer, com realidades destacadas ou “abstraídas” do contexto de que fazem parte. O fenômeno biológico, por exemplo, de que se ocupa a biologia, é uma abstração, pois implica o fenômeno químico que, por sua vez, implica o fenômeno físico, etc. Qualquer obra de arte ou produto artesanal, implica o contexto cultural desse contexto. Considerado em si mesmo, não passa de uma abstração. Qualquer técnica, tomada isoladamente, sem que se leve em consideração o local e a época em que foi produzida, é também uma abstração, uma parte retirada de um todo, ou de uma totalidade.

Situando-se na perspectiva da totalidade, a filosofia é a única forma de reflexão, de pensamento e de conhecimento, que não lida com abstrações, pois mesmo quando, para efeitos metódicos ou didáticos, isola ou destaca um objeto, jamais perde a consciência de que o objeto abstraído só é o que é, só tem sentido, enquanto integrado em seu contexto, na totalidade de que faz parte.

Corbisier, Roland. Filosofia política e liberdade, pág.22. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.

PS: ocorre, porém, meu caro Corbisier, que as filosofias não encontram apenas uma totalidade mas coleções – todas pias de serem a mais totalizante dentre elas. Seguem mil vezes mil perspectivas de cada uma, em sua maioria (as que importam, pelo menos) inconciliáveis.

Minha opinião (não que interesse a um morto saber): como ninguém resolveu a questão até o momento ou fui tolo demais para descobrir quem teria sido, talvez seja o caso que, dadas as regras do jogo, cada qual encaixe o que vê do mundo naquilo que pensa dele – mas terei razão ao dizê-lo? Ou será apenas o que minha totalidade alcança?

O triunfo do cinema

Foto0013Creio que cá no século XXI serei apenas eu a lamentar o triunfo absoluto do cinema como forma de arte. Sou, talvez, o único homem deste século que lê com mais celeridade do que assiste um filme, pois abandono as películas com tédio e é somente com vagar que volto até elas. Aquelas imagens que não precisam de nenhuma conquista, que se entregam como meretrizes e que se exibem a mim sem que eu seja necessário afetam deveras minha fruição… Por sinal, que tipo de arte é essa que prescinde de quem a aprecie? Uma película é desvelada (ou melhor: desvela-se) inteiramente sem que um espectador sequer precise assisti-la, bastando um apertar de botão, um toque frio num instrumento mecânico, que ela se entregará ao vazio. Sua performance automática ocorrerá do começo ao fim – à medida de seu ritmo – sem que venha a se apressar um passo sequer pela vergonha de fazê-lo para ninguém. Consequentemente, tendo o espectador fruído ou não, existindo um espectador ou não que veja o filme, a película encerrará o que propôs fazer no tempo que ela mesma estipula para si.

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Sobre as críticas de Rafael Menezes (mais)

Seguem abaixo minhas considerações a respeito do texto de Rafael Menezes, Sobre a resenha do livro Os filósofos.

Acerca disso é preciso dizer Rafael formulou críticas bastante específicas à minha resenha que não poderiam ser respondidas senão de modo específico, por conseguinte, minha resposta ficou bastante longa ao tanger diversos pontos. Apesar disso, tentei reduzi-la ao mínimo: ignorei minúcias que, espero, não farão falta; deixei de redigir uma conclusão mais geral; e uni algumas respostas a críticas diferentes em função da semelhança que mantinham entre si.

No mais, devo acrescentar que: qualquer nova resposta a esse assunto será dada ao pé deste texto ou daquele anterior (aqui), e que nada mais tenha a dizer sobre Herculano Pires que caiba num novo texto. O assunto finda aqui.

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Replicando: Considerações sobre a resenha do livro Os Filósofos, de José Herculano Pires, realizada pelo Sr. Homem sem Sobrenome

Foi publicado outro texto de Rafael Menezes a propósito de minha resenha sobre Herculano Pires. Este novo consiste numa continuação direta do texto anterior, com a discussão dos trechos da resenha que o antecessor não abordava.

Por conta disso, reconsidero minhas suspeitas sobre ele não ter lido o livro e também minha predisposição a publicar algo mais sobre o assunto, sendo que, tão logo eu consiga tempo, escreverei minhas considerações a respeito.

Para ler o texto de Rafael clique aqui

Sobre as críticas de Rafael Menezes

Seguem abaixo algumas considerações a respeito das críticas de Rafael Menezes, em seu texto Sobre a resenha do livro Os filósofos (para saber mais clique aqui).

Por uma questão de tempo e disponibilidade, produzi um texto bastante sintético que resume a argumentação de Rafael em quatro pontos principais. Como método de exposição, reconstruí inicialmente suas críticas e, em seguida, apresentei minhas considerações a cada uma delas. Ao término disso, fiz um balanço dos dizeres de Rafael como um todo.

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Replicando: Sobre a resenha do livro Os filósofos

Faz algum tempo que publiquei uma resenha sobre Os filósofos, uma espécie de manual de História da Filosofia do pensador espírita Herculano Pires.

Lembro que foi bastante instigante escrevê-la, dada a possibilidade de refletir sobre os problemas interpretativos que o livro continha e descobrir minhas próprias maneiras de evitá-los. Na época, imaginei que meu texto teria, sobretudo, dois tipos de leitores: aqueles interessados nas discussões históricas que eu promovia e aqueles que fossem espíritas ou leitores de Herculano, sendo que, para encontrá-los, divulguei o texto nos sites em que achei menções ao livro. Pois bem.

Eis, então, que hoje o Rafael Menezes, do blog O Espírito e o Tempo, leitor do segundo tipo, publicou um texto a propósito de minha resenha (aliás, uma refutação, sob vários aspectos) que replico logo abaixo.

Particularmente, gosto bastante disso. Ser lido, mesmo que daí se resulte uma contra-argumentação daquilo que eu afirmei, atesta que meus textos tocam temas que são relevante para outra pessoa além de mim mesmo, independentemente da concordância que tenhamos em relação aos pontos discutidos. Sendo assim, tão logo for possível, pretendo escrever algumas considerações sobre as críticas do Rafael – a quem desde já agradeço pela leitura e pelos apontamentos feitos – e com isso balancear em quais pontos concordo com elas ou não.

Até lá, aproveitem o texto dele e desconfiem um pouco de mim.  Leiam aqui.

Argumentos toscos que ouvimos nessa vida (Parte VI)

1. Quem é você para questionar isso?

2. Você é formado em quê para falar assim?

3. Você leu tanto e concluiu isso?

4. Você é tão inteligente e não entendeu ainda?

5. Você só pensa assim porque é jovem.

6. Se você pensar bem vai ver que estou certo.

7. Meu amigo é mais inteligente que você e disse que estou certo.

8. Quero ver quando você descobrir que estou certo.

9. Na hora certa você vai descobrir.

10. Depois que deus castiga, não sabe por quê.

Voltar à escola

Ao voltar ao ensino médio público para cumprir os estágios de minha graduação notei que, curiosamente, aquela seria  a minha primeira oportunidade de observar os alunos sem que eu mesmo estivesse nessa posição de aluno, logo, seria possível tomar certo distanciamento crítico da discência e mais que fazer anotações para cumprir meus deveres, eu também poderia pensar sobre mim mesmo na condição de ex-aluno do ensino médio e atual aluno do ensino superior. Na verdade, essa experiência acabou sendo bem mais que apenas um reencontro com certa realidade e a escrita de alguns relatórios baseados nela. Voltar à escola me tocou bastante e mudou um pouco minha percepção sobre a universidade e o papel que ela exerce na educação, além de bagunçar meus sentimentos naqueles meses.

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Algumas impressões sobre Memórias do cárcere

Sempre considerei Graciliano Ramos um escritor complicado: suas palavras duras e retilíneas expressavam pensamentos sem curvas nem beleza, que sem me causar qualquer empatia, retratavam “coisas” viscerais e impressionantes; todavia, mesmo hoje, depois de terminar meu terceiro livro dele, continuo sem entender exatamente que coisas eram essas. Honestamente, não sei ao certo o que aprendi com Graciliano Ramos e ignoro se gosto do que ele escreve ou não, se me reconheço em qualquer dito seu, se são interessantes os seus livros, sua falta de encantamento com o mundo; ignoro tudo isso; sei apenas que quero aprender mais a respeito de suas obras e que há algo de inquietante em sua prosa ou em sua pessoa que me seduz, mesmo que eu não possa entendê-la muito bem.

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Nota sobre certos leitores de hoje

Faz um tempinho que em minhas aventuras pela internet tenho observado um aumento significativo no número de blogs e vlogs literários. Ler, ao que parece, está na moda, e fico bastante feliz que seja assim.

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Apesar disso, sempre que espio algum desses novos canais sobre literatura, sinto certa inquietação anotar que todos ou quase todos compartilham certas características que dizem respeito não a si mesmos, seus defeitos e qualidades, mas a determinado tipo de leitor que os constituem e a quem se dirigem. Melhor dizendo, inquetam-me algumas coisas nas pessoas que fazem tais canais e naquelas para as quais eles são feitos.

Creio serem três essas características:

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Duas questões a propósito do livro de Dee Brown

9788525407009Concluí recentemente o soberbo Enterrem meu coração na curva do rio, livro de Dee Brown que narra de um modo épico e trágico os incontáveis massacres indígenas na conquista do oeste estadunidense. Trata-se de uma obra notável que durante os últimos meses preencheu meus intervalos entre leituras obrigatórias. Sinto que compensou cada página. Minha empolgação com o assunto, no entanto, não me fará escrever uma resenha do livro, uma vez que não sou historiador e não me considero competente para avaliar criticamente os posicionamentos historiográficos do autor. Seria bobagem escrever a propósito de um livro sobre o qual não sou capaz de dizer nada relevante, além disso, já existem várias resenhas ruins a respeito de boas obras por aí: um texto meu não teria qualquer nulidade nova para acrescentar.

Apesar disso, como foi bastante instigante atravessar as páginas dessa obra e ponderar a respeito daquilo que li, em vez de produzir uma resenha detalhada, gostaria de realizar duas ponderações que julgo pertinentes para historiadores e filósofos a fim percorrer, por meio delas, alguns dos problemas levantados pelo livro. Vejamos no que isso vai dar.

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Nota sobre uma opinião de Luiz Felipe Pondé

Ao contrário de muitos de meus colegas, não tenho qualquer rejeição particular pelo filósofo Luiz Felipe Pondé. Não que eu não entenda porque há tanto ódio em relação a ele, eu entendo bem, porém, pessoalmente, consigo separar em seus discursos aquilo que considero aceitável daquilo que considero inaceitável. Com isso, não sinto necessidade de desprezá-lo, reverenciá-lo ou de deixar de ouvir o que ele tem a dizer.

Hoje, no entanto, eu gostaria de fazer uma crítica a certa opinião que Pondé tem repetido em algumas de suas palestras e textos. Trata-se do entendimento de que o ateísmo seja uma concepção óbvia de mundo. Segundo o filósofo, não seria preciso pensar muito para chegar a conclusão de que deus não existe, sendo assim, esta não seria uma posição intelectualmente refinada: basta pensar um pouquinho e concluiremos que o mundo é ruim, que a vida não tem qualquer sentido e – voilà – que provavelmente nenhum deus olha por nós.

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Argumentos toscos que ouvimos nessa vida (Parte V)

1. Aff…

2. Isso nem merece resposta…

3. Nem vou perder tempo com isso…

4. Você não sabe do que está falando.

5. Cresça e depois venha falar comigo.

6. Estude mais e depois venha falar comigo.

7. Leia o livro e depois venha falar comigo.

8. Assista ao documentário e depois venha falar comigo.

9. Assista aos extras em full HD e depois venha falar comigo.

10. Você tem que abrir sua mente.

Guia cético para a palestra “A glândula pineal” – Sérgio Felipe de Oliveira

Meus colegas cientistas do Blog Cético permitiram gentilmente que eu publicasse lá uma análise da palestra A Glândula Pineal novos conceitos e avanços nas pesquisas, do médico Sérgio Felipe de Oliveira. Leia aqui.

Devo dizer que depois de escrever aquela resenha sobre o livro de Herculano Pires e fazer agora essa análise (cujo palestrante é espírita também) não vou dizer mais nada a respeito de religião, pseudociência e espiritismo durante algum tempo. Cansei. Vou mudar assunto.

Que venham coisas novas e interessantes.

Não estou entre os grandes

Para quem esqueceu eu relembro: a luta de classes existe! Disse a moça segurando o megafone.

2E quem não sabe disso? Perguntou-me uma amiga em tom de retórica e eu não respondi, mas sorri fingindo que silenciar significava assentimento. Bem dizendo, eu não sabia e nunca soube bem; mesmo quando adotava soluções milagrosas para os problemas do mundo como se minha vida dependesse delas, sempre tive alguma dúvida.

Esquerda, educação, deus: ao meu modo, já acreditei em cada uma dessas coisas com afinco, porém, depois acumulada certa experiência e leitura, não sei mais o que restou dele, de maneira que quando me questionam a respeito, assinto covardemente com a opinião do interlocutor por medo e preguiça de machucar o que é óbvio e sagrado para ele. Foi por isso que sorri e costumo sorrir sempre.

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A culpa é do aluno: reflexões sobre nosso estágio em Filosofia

O texto aí abaixo consta aqui por um motivo bem simples: trata-se da primeira comunicação sobre Filosofia que apresentei publicamente. Ela não versa acerca de História da Filosofia, analisando disputas filosóficas e coisas assim, mas expressa o meu próprio ponto de vista a respeito de algo que me interessa: a formação filosófica. Assim, por mais específico que seja o tema analisado (os problemas da licenciatura na Unifesp Guarulhos), faço um convite para que você, leitor, não se aborreça desde já e o ignore, pois há nessa discussão particular algo de fundamental para qualquer um que goste de Filosofia ou Educação, que é a pergunta pelo significado da educação filosófica.

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Argumentos toscos que ouvimos nessa vida (Parte III)

1. Mas é o homem que mata; deus só tira a vida.

2. Mas já encontraram a arca de Noé.

3. Mas os fósseis foram inventados pelos cientistas!

4. Mas passou no Fantástico.

5. Mas a física quântica prova o que eu digo.

6. Mas Jesus foi o maior cientista de todos os tempos.

7. Mas Ele deu sua vida por você. É assim que você agradece?

8. Mas é claro que é possível seguir tudo o que está na bíblia.

9. Mas Ele acredita em você.

10. Mas Ele existe mesmo assim.

Resenha: Os filósofos — Herculano Pires

Um passeio anacrônico e ingênuo pela vida de alguns filósofos

Fui kardecista 3durante alguns anos e devo muito de minha sanidade aos livros de Kardec e à minha convivência com espíritas no período em que comungava com eles. Por isso, li com interesse Os filósofos e mantive durante boa parte do livro certa consideração pelo autor, primeiramente, por já ter estado “do mesmo lado que ele”, mas também porque espíritas são raros na Filosofia e pouco conhecemos suas ideias. Todos sabem que o catolicismo tem uma história repleta de nomes filosoficamente importantes como Agostinho e Tomás, que o islamismo nos deu Avicena e Averróis, que o judaísmo pariu Avicebron e Maimônides, pensadores que ajudaram a transformar suas respectivas religiões em filosofias e assim tanto enriqueceram uma quanto a outra; o espiritismo, todavia, jamais igualou tal feito e não legou à história quaisquer contribuições filosóficas conhecidas fora das fronteiras dessa religião, uma vez que, mesmo que tenham existido, não tiveram força o bastante para se impor aos não-espíritas e assim alcançar uma relevância que independa de uma concordância com esta fé.

Por isso, se há uma Filosofia Espírita (ou com base no espiritismo) que pretenda ultrapassar os portões dos centros kardecistas, cabe ainda aos filósofos descobri-la ou aos crentes escrevê-la. Como pretendo demonstrar até o fim desta resenha, no que depender do livro de Herculano Pires, meus colegas espíritas tem ainda um longo caminho do portão para fora.

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Viagens de Gulliver (trecho)

“Meu pequeno amigo (…), você fez o mais admirável panegírico sobre seu país. Você provou claramente que a ignorância, a preguiça e o vício são os verdadeiros qualificativos de um legislador. Que as leis são muito bem explicadas, interpretadas e aplicadas por aqueles cujos interesses e habilidades residem em pervertê-las, confundi-las e eludi-las. Observo entre vocês algumas linhas de uma instituição que originalmente seria muito tolerável, mas que na aplicação tornou-se obliterada, deturpada e manchada pela corrupção. Não percebo, em tudo o que me disse, que se exija nenhuma perfeição dos que alcançam os cargos de direção entre vocês, muito menos que se exijam homens que se tenham tornado nobres pela virtude, que os sacerdotes sejam homenageados por sua piedade ou ensinamentos, os soldados por sua conduta ou coragem, os juízes por sua integridade, os senadores pelo amor à sua terra, os conselheiros por sua sabedoria.

Como você, prosseguiu o rei, passou a maior parte de sua vida viajando, estou disposto a esperar que tenha escapado de muitos vícios de seu país. Mas, pelo que pude perceber no nosso relacionamento e pelas respostas que consegui extorquir de você com muito esforço, devo concluir que a maior parte de seus compatriotas é a mais perniciosa raça de pequenos e odiosos parasitas que a natureza permitiu que rastejem na face da Terra.”

Swift, Jonathan. Viagens de Gulliver, pág.166. SP: Nova Cultural, 2003.

Argumentos toscos que ouvimos nessa vida (Parte I)

1. Eu já pensei como você, mas hoje em dia eu…

2. Um dia você vai entender.

3. Cada um tem que descobrir sua própria verdade.

4. Você tem sua opinião; eu tenho a minha.

5. Você acha que estou mentindo?

6. Como você pode pensar assim?

7. Como você pode ser feliz pensando assim?

8. Hitler pensava assim.

9. Os fariseus pensavam assim.

10. Quando você entender será tarde demais.